Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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terça-feira, 3 de março de 2015

Estética: Arte e Vida Cotidiana

Livro Ética e Cidadania – Caminhos da Filosofia – 20ª Edição
Sílvio Gallo (Coord.) – Grupo de Estudos sobre Ensino de Filosofia

Unidade 9
Estética: Arte e Vida Cotidiana – p83 a 94

Jorge e Amanda estudavam juntos: cursavam a 3ª série do ensino médio numa escola pública, pois ambos trabalhavam. Ele, num banco; ela era vendedora numa loja de roupas. Sempre que podiam, juntavam uma turma após as aulas e, equipados com algumas latas de tinta spray , saíam loucos para encontrar um muro branquinho , onde pudessem fazer uma bela pichação. No começo, a coisa começou  meio na brincadeira: era gostoso sentir aquele medo de ser pego enquanto expressavam o que queriam.... Mas, com o tempo, a brincadeira foi ficando cada vez mais séria. As pichações ficaram cada vez mais elaboradas, com desenhos complexos e coloridos. Quando terminavam, ficavam admirando sua obra....  Mas, em momento algum, imaginavam que nada mais estavam fazendo do que expressar um dos sentimentos mais humanos: o gosto pela beleza e a vontade de criá-la com as próprias mãos.

     Nos dias de hoje, a palavra estética é usada em vários sentidos; todos eles, porém, partem do conceito original usado pelos gregos antigos, ou seja, designar aquilo que tenha a ver com os sentimentos, com os sentidos, com a percepção. Assim, a estética também está ligada à atividade artística, já que se preocupa com as obras que o ser humano faz com a finalidade de serem belas, e com os sentimentos que elas provocam em nós. Em termos gerais, podemos dizer que a estética é a área da filosofia que estuda a arte e suas relações com o ser humano.


A arte em nosso cotidiano

     Frequentemente, ouvimos dizer que arte é uma coisa inútil, ou vemos pessoas zombando de certas obras de arte de características pouco comuns em nosso dia a dia. Isso se dá porque elas não conseguem entender o que a obra significa, ou qual a “mensagem” que o artista  quis passar.  É preciso deixar claro que o ser humano, ou qual a “mensagem” que o artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser humano, pelas suas características biopsicossociais (o seu corpo, a sua razão e a sua convivência com outras pessoas), tem a tendência de se manifestar no mundo de maneira estética, procurando estabelecer em sua vida uma relação de beleza com tudo que o cerca. Essa manifestação, em alguns casos, tende a ser muito pessoal, pois o artista irá colocar sua impressão a respeito de um fato social ou da natureza retratando-o na obra.

     O artista pode determinar funções para sua obra. Alguma delas são:

Políticas:
A obra toma uma posição crítica a respeito de um fato ou problema social, denunciando uma injustiça, propondo uma ideologia política, ou simplesmente retratando a realidade de uma sociedade.

Religiosas:
Servem às necessidades místicas das pessoas, para afirmar determinada proposta religiosa, fazem parte do próprio culto em alguns casos, tal como as imagens sagradas da religião católica.

Pedagógicas:
Têm uma função social de colaborar na educação das pessoas, levando-as a compreender o mundo por meio dos objetos artísticos.

Naturalistas:
A obra tem a finalidade exclusiva de retratar a realidade; por exemplo: a fotografia 3X4 que você tem no RG

Formalistas:
Se preocupam exclusivamente com a técnica usada naquele tipo de arte.

     Por meio da técnica, o artista faz uso de conceitos práticos para “construir” sua obra de arte – o pinto mistura tintas para conseguir uma tonalidade mais clara ou mais escura e que dará mais força a seu trabalho.

     Por meio do conhecimento, o artista faz uso da experiência adquirida por si mesmo e pelos outros – o mesmo pintor sabe que misturando as cores amarela e azul irá conseguir a cor verde.
     Por meio da expressão, o artista faz uso da sua sensibilidade, de sua intuição e de sua imaginação para dar a sua obra um caráter único, fazendo do objeto algo cheio de sentidos, sentidos que irão tocar a todos que o virem – assim, o pintor irá retratar em sua obra o produto de sua criatividade pessoal, que comunique aos outros seus sentimentos e impressões a respeito de um fato qualquer, seja um fato social, seja um fato da natureza, seja mesmo um fato da sua imaginação.



Arte: Fundamento do mundo

     Antes de qualquer afirmação prematura, faz-se necessária uma interrogação: Por que é a arte o fundamento do mundo, como o título propõe? Por que a literatura, a música, a pintura, a escultura, que são manifestações artísticas, constituem a essência do mundo? Não seria mais correto afirmar que a economia, a dimensão econômica, seria o fundamento do mundo, já que todo dia e o dia inteiro usamos o dinheiro na compra de roupas da moda , do lanche no bar, do presente para o (a) namorado (a)? Vivemos no impassr e na torcida: Será que a inflação aumentará? Será que teremos aumento salarial? Até quando estaremos empregados?

     Ou não seria mais correto afirmar que a política  é  o fundamento do mundo, já que nossas vidas seguem o rumo das decisões tomadas pelos governantes? Vamos imaginar (a imaginação é um meio de criação artística) a seguinte situação: o governo, para acabar com o déficit  público, decide elevar todos os impostos em 60%, por exemplo. Diante dessa situação, centenas de grandes empresas decidem fechar suas fábricas aqui, pois o custo de produção seria muito elevado, transferindo a produção para outro país. Consequência dessa medida: milhares de desempregados. Quase que anualmente estamos votando para deputado, senador, vereador, presidente, governador, prefeito, síndico, presidente de sindicato ou centro  comunitário. Vivemos na esperança de que essas pessoas – que deveriam representar as nossas vontades – tomem decisões que tornem nossas vidas melhores.

     Mas, voltemos a nossa questão inicial e, para tal, lembremos as palavras do filósofo alemão do final do século XIX , Friedrich Nietzsch: “A partir de agora, o domínio da ciência só se produz pela arte. Trata-se de juízos de valor sobre o saber e o saber muito. Tarefa imensa e dignidade arte nesta tarefa! Ela deve recriar tudo e recolocar sozinha a vida no mundo”.

Vivemos, seguramente, graças ao caráter superficial do nosso intelecto, numa ilusão perpétua: temos então, para viver, necessidade da arte a cada instante. A nossa visão prende-nos às formas. Mas se somos nós próprios quem, gradualmente, educa essa visão, vemos também reinar em nós uma força de artista. Mesmo na natureza se encontram mecanismos contrários ao saber absoluto: o filósofo reconhece a linguagem da natureza e diz: “Temos necessidade da arte” e “só precisamos de uma parte do saber” (O livro do filósofo, aforismos 39 a 51)
.

     É a arte o fundamento do mundo, pois todas as coisas existentes possuem forma, cor , textura, peso, cheiro , e esses objetos são apreendidos pelos nossos sentidos e pela nossa razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre vazão ao seu imaginário, tornando reais seus desejos, suas fantasias e seus sonhos.

     O homem é um ser sociável, vive circunscrito numa sociedade e convive com seus semelhantes. As coisas que criamos têm por objetivo despertar no outro sensações de prazer ou dor; admiração ou repulsa; aprovação ou desaprovação. Criamos coisas, sejam belas ou feias – não importa, pois beleza e feiura são conceitos subjetivos - , para despertar sentimentos no outro. Criamos coisas para tocar no mais íntimo dos sonhos e desejos. Criamos coisas para serem aprovadas ou desaprovadas, amadas ou odiadas, não importa, pois o que realmente interessa é que esses objetos toquem o fundo da alma das pessoas. E é esse justamente o objetivo de toda obra de arte: despertar sentimentos, sensações, tornar presentes sonhos e desejos que tanto escondemos e reprimimos.

     Quando olhamos uma pessoa que achamos belíssima, olhamos e ficamos como que hipnotizados por tal beleza de formas e contornos. Não conseguindo disfarçar o olhar, em nosso íntimo, desejos perversos, românticos e eróticos de tocar, experimentar, possuir afloram com intensidade vulcânica. Ou quando olhamos uma foto, em um jornal ou revista, de uma senhora com avental, chinelos e lenço na cabeça. Ao olharmos tal foto, somos transportados para um passado distante, para um período de nossa infância. Essa fotografia nos faz recordar de um momento feliz, das brincadeiras de rua, da bola, da corda, das paqueras de criança, da ausência de relógio. Faz recordar a eternidade do passar dos dias, tal a intensidade com que eram vividos;  a liberdade e a despreocupação com o futuro. Tal fotografia nos faz recordar da vida vivida a cada instante, do paraíso vivido e perdido.

     Imaginemos a seguinte situação: estamos abarrotados de coisas a serem estudadas para o vestibular no fim do ano. Estamos trancafiados e sufocados nesse cubículo que é a aprovação num vestibular, a escolha de uma profissão,  e estamos  uma pilha de nervos tal o grau de responsabilidade, tais as cobranças e as preocupações que recaem em nossas costas. De repente, uma música invade o quarto, passando pelas sólidas paredes. Começando a ouvir a música, nossa atenção é desviada dos estudos. Lutamos para retornar aos livros, mas não conseguimos fechar. A música invadindo nosso ser, tomando conta dos nossos sentimentos, tornam aflorar antigas paixões. A música torna presente amores vividos e perdidos, carinhos, beijos, toques; lugares e momentos desfrutados a dois; uma época em que o outro é o sentido da vida. E, nesse louco sentimento, entregamo-nos de corpo e alma aos prazeres ou dores despertados pelas recordações. Nessa viagem pelo passado, damo-nos conta de que lágrimas brotaram em nossos olhos, tal a intensidade de tais lembranças e, nesse momento, o que importam os estudos, os vestibulares, a faculdade , a profissão e o futuro?

     No fenômeno artístico, percebemos a verdadeira natureza da realidade; a arte é a condição de um princípio ontológico do ser; é a chave que nos permite o acesso à essência do mundo; é o caminho mais original e autêntico de compreensão da realidade.

     A arte é o centro da vida, e é a partir dela que deciframos o mundo. É somente com os olhos da arte que o homem consegue apreender a sua essência, pois esta se manifesta sob a forma artística.

     A existência humana, o mundo e todas as manifestações da vida são, fundamentalmente , fenômenos artísticos. É na arte que temos a transfiguração de tudo o que existe, seja o belo, o sublime, seja o horrível, a fealdade. É na arte que encontramos a essência do existente, pois tudo que vemos e apreendemos é manifestação artística. A arte é  a luz que nos permite conhecer a vida e o mundo, pois tanto a vida como a existência são categorias estéticas. Nós, seres humanos, somos manifestações artísticas; a vida é uma grande obra de arte; o mundo é, essencialmente, arte.

     Se é pela arte que conhecemos mundo e a vida, podemos perguntar: Qual é o caminho que a arte adota para conhecer o mundo? Qual é a categoria interpretativa da arte? A tal interrogação podemos responder: a intuição. A arte exige a certeza imediata da intuição. As ideias fundamentais e essenciais possuem a forma de iluminação intuitiva. Nesse aspecto, a razão é situada num segundo plano, pois o conhecimento racional é extremamente limitado se comparado com a intuição. A arte é apreendida pela intuição e não pela razão.



A tragédia de Édipo

     Os gregos antigos, ao inventarem o teatro, criaram duas formas de representar a realidade nos palcos: a comédia, que procurava representar a vida pela farsa e despertar risos na plateia; e a tragédia que, ao contrário, trabalhava com o drama e procurava emocionar a plateia, fazendo com que cada um se reconhecesse nos fatos representados. Para eles, o teatro não era uma simples forma de diversão, mas um importante fator de regulação da vida social, uma atividade que representava o cotidiano vivido pelas pessoas e as ajudava a refletir sobre a vida.

     O que entendemos por tragédia? A tragédia está, fundamentalmente, em relação com a vida concreta, com nossa existência. Na tragédia, temos a contínua erupção de momentos “aterrorizantes”, em que a felicidade se dilui se tornando um nada, e de momentos “sublimes”, nos quais o estado de felicidade é desfrutado. Na tragédia, temos a manifestação concreta da nossa vida, pois vida é exatamente isto: uma gangorra que ora pende para a felicidade e ora para a infelicidade; para a paz ou para a angústia. A contínua troca de estados é a própria natureza da tragédia e da vida.

     Para melhor ilustrar esse conceito de tragédia, reproduziremos, de forma muito sintética, o enredo de uma tragédia grega clássica escrita por Sófocles e intitulada Édipo-Rei.
     Nessa peça de teatro, os acontecimentos se passam em Tebas, cidade grega, cujo rei – Laio – e sua esposa e rainha – Jocasta – aguardam o nascimento do futuro herdeiro do trono. Ávidos por conhecer o futuro e prevenir-se de qualquer acontecimento inesperado, Laio e Jocasta dirigem-se ao oráculo de Delfos para saber , do deus Apolo, o que o futuro reservava a ele. Diante do inusitado questionamento, Apolo pronuncia a seguinte sentença: “O teu filho matará o pai e desposará a mãe.” O filho do rei, e herdeiro do trono, cometerá dois gravíssimos crimes: parricídio e incesto. O herdeiro será criminoso e imoral.

     Para impedir que a terrível profecia se concretize, Laio e Jocasta decidem matar o próprio filho, assim que ele venha ao mundo. Quando do nascimento da criança, cujo nome será Édipo, os reis ordenam a um escravo que a leve para longe da cidade e a mate.

     Com a consciência de que tal acontecimento – a morte da criança – acabaria com qualquer possibilidade de confirmação da previsão do oráculo, Laio e Jocasta retornam à tranquilidade de espírito. Porém, o escravo incumbido de liquidar Édipo acaba por criar um vínculo amoroso com ele e, com pena de matá-lo, entrega-o a um viajante, que o leva para uma cidade longínqua – Corinto – onde é adotado pelos reis.

     Édipo, sem saber que era filho adotivo, cresce em Corinto amando seus supostos pais e sendo preparado para ocupar o trono real. Diante do que lhe guardava o futuro, Édipo deseja conhecer o amanhã, e se dirige para o oráculo de Delfos. Lá, ouve do deus Apolo a mesma sentença: “Matarás te pai e te  casarás com tua mãe.” Aterrorizado com tal futuro, Édipo foge de Corinto,  foge do futuro, foge da possibilidade de confirmação da sentença, pensando que lá residiam os seus verdadeiros pais, e se dirige , fortuitamente, para Tebas.

     No caminho que leva a Tebas, Édipo encontra-se com uma expedição e, entre gozações e provocações, começa a lutar com o chefe da expedição, acabando por matá-lo. Após tal fato, Édipo continua sua caminhada para Tebas, sem saber que o homem que acabara de assassinar era Laio, seu verdadeiro pai.

      Ao chegar em Tebas, Édipo encontra a cidade em destruição. Uma paisagem medonha de doenças, mortes, fome. A cidade estava mergulhada em uma peste, e ela somente acabaria se o enigma proferido pela Esfinge, um monstro que devorava todos os que davam uma resposta errada, fosse solucionado. Diante da Esfinge e de seu enigma (“O que é que de manhã possui quatro pernas, à tarde duas e à noite três?”), Édipo o soluciona (o ser humano), e a Esfinge lança-se no abismo, libertando a cidade da maldição. Com isso, a cidade volta a prosperar e , como prêmio, Édipo recebe a rainha – viúva então – como esposa,tornando-se rei de Tebas. Édipo, sem saber, casa-se com a própria mãe cometendo , assim, o incesto.

     Tebas prospera; Édipo e Jocasta estão felizes no casamento, quando uma nova peste assola a cidade, causando fome e destruição. Ávido por descobrir o culpado por tal fato, Édipo recebe do cego Tirésias, o sábio da cidade, a aterrorizante resposta: “És tu, Édipo, o culpado pela peste, pois foi você que matou o próprio pai e casou-se com a mãe”. Diante de tal descoberta, Jocasta suicida-se e Édipo perfura os próprios olhos e foge de Tebas.



A tragédia e a representação da vida

     Podemos encontrar nessa obra alguns elementos da tragédia conforme o conceito que definimos anteriormente. Por exemplo, o tênue fio que separa a felicidade da infelicidade, a ordem do caos, a paz do conflito. A eterna luta entre a razão e a paixão, entre o pensamento e o sentimento. E, finalmente, o conflito entre a liberdade e o destino.

     Durante toda  a história de Édipo, encontramos o conflito entre o desejo de ser livre e o destino que nos aprisiona. Laio e Jocasta tentaram afirmar a própria liberdade ao confrontar o oráculo de Delfos. Ao ordenar que o filho fosse morto, tentaram dar eles mesmo o rumo da vida, afirmando a liberdade de escolha, os desejos e , de certa , construindo o próprio futuro. Contudo, por mais que afirmassem os seus desejos e a liberdade de escolha, o destino lhes pregava uma peça.

     Na tragédia, o homem e seus desejos são insignificantes se comparados com a complexidade do universo. Na tragédia, como na vida real, o ser humano é um nada , é diluído e engolido pelo turbilhão da existência. O que a peça mostra não é, em absoluto, que a vida já esteja determinada, ela elucida e ilustra a pequenez que é a existência humana se comparada com a complexidade da vida. O que torna, o ser humano diferente dos outros animais, e por isso ele dominou a terra, é, justamente, a razão, a capacidade de articular o conhecimento e expressá-lo em palavras. Contudo, não é esse conhecimento que resolverá os problemas existenciais do homem, suas angústias e seus desejos. Laio , Jocasta e Édipo tinham esse conhecimento, sabiam do futuro, e nem com isso conseguiram ser felizes ou realizar seus ideais. A vida é trágica e não temos como escapar disso.