Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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segunda-feira, 28 de março de 2022

MEDO DE SER

 O MEDO DE SER

Arthur da Távola, “Alguém que já não fui”

 

Vejo quilômetros de filmes e teipes, anos a fio, leio quilos de papel, despenco abismos de olhares, enfrento filas intermináveis de letras: autores, diretores, sonoplastas, criadores, publicitários, o filmete, o produto, a peça, o disco, a monografia, o retrato. Vejo a moça que quer dizer o que pensa mas não diz. O homem que ama o filho mas não consegue. O filho que está com vontade de viver a própria experiência, mas teme.

 

Eu tudo, por onde passa olho do cronista, está presente o medo de ser. Estranha mistura esta, a nossa, a humana, que nos faz querendo sempre ser e vacilando a cada momento de realizar.

 

É a moça que quer ser amada mas se defende realizando o discurso sociológico. É o rapaz que quer ser político mas tem medo de perder a vida. É o menino que deseja falar com outro, mas teme ser mal julgado. É a mãe que deseja reter o filho mas disfarça.

 

O medo de ser paralisa o gesto de afeto pelo temor do ridículo, do riso, do escárnio, da gozação, da indiferença e, até , do elogio.

 

O medo de ser impede a franqueza diante daquele de quem se depende. O medo de ser impossibilita a entrega completa porque ela pode ser mal interpretada. O medo de ser prolonga muita coisa que já acabou.

 

O medo de ser cria defesas mirabolantes: ficar rico; ser original; ser metido a diferente; fazer-se inteligente; transformar-se em muito culto; virar o melhor da turma; ser o rei da festa; passar a ser o engraçado do grupo; fazer peso ou se transformar no bambam da esquina; bater o recorde; ser da seleção; “meu filho seja sempre o melhor”; parecer bom; dar uma de herói; cobrar atitudes sempre dos outros; criticar sem reparar as dificuldades de cada um.

 

O medo de ser cala aquela raiva; sepulta aquele ódio, finge que não liga; provoca concordância com os outros grupos mais agressivos ou convincentes; adere a modas; segura as pontas; aguenta a barra; sacode a poeira; adula, passa a mão na cabeça; aparente eficiência fazer ser eficiente; ensina a mandar; aprende a obedecer; faz repetir os gestos; silencia a franqueza; teme a crítica; impede a ocupação do próprio espaço.

 

O medo de ser paralisa o gesto de afeto; adia o telegrama de parabéns; não envia a carta de amor; finge que não odeia; esconde-se na simpatia; simpatiza com os esconderijos; faz concordâncias irrefletidas; aceita influências; finge-se de forte; depende do que aparenta.

 

O medo de ser estraga aquela energia porque ela não era sincera; atrapalha aquela viagem porque ela era só fuga; procura aquela tristeza e faz ficar mais triste; vai naquele lugar mas dá formigamento nas extremidades; aceita aquele elogio sem com ele concordar; sofre em demasia por aquela injustiça mesmo sabendo injusta. Rejeita o louvor mesmo o sabendo sincero.

 

O medo de ser não comunga na hora em que dá vontade e sim por causa dos outros; não ensina a lição do próprio porque vive na dependência do amor alheio; não se olha no espelho com pavor de encontro o rosto de quem inveja.

 

O medo de ser é a fuga do mais genuíno e própria de cada pessoa por causa dos padrões e modelo e comportamentos inculcados , introjetados, inoculados, disfarçados em amor, seio bom ou mau, injeção, colégio pago ou aula de balé

 

O medo de ser forma a legião das representações que envolvem (90? 95?) por cento dos nossos atos.

 

O medo de ser gera outros eus. Gera o tu, o ele, o nós, o vós, o eles no eu; e não o eu no tu, no ele, no nós, no vós, neles, como expressão mais autêntica e verdadeira do que somos e não do que fingimos ser.