Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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quarta-feira, 29 de março de 2023

Série reflexões - Confiança e Sociedade


 Série reflexões – Confiança e Sociedade

 Ao invés de fazer uma reflexão sobre os processos sociais dissociativos , aqueles que dividem a sociedade e isolam indivíduos uns dos outros, optei por ir na contramão por mais que pareça loucura nesses tempos de cultura do ódio, do cancelamento e da desensibilização. Aproveito essa ocasião para sonhar com uma sociedade mais humana, menos egoísta, menos narcisista e menos materialista. Vou na contramão por ainda conservar dentro de mim a esperança de que certos elementos ou sentimentos são fundamentais para o fortalecimento da liberdade na sociedade civil e também as próprias liberdades individuais.

 Vou na contramão ao refletir sobre a questão da confiança nas relações humanas e sua importância. Assim sendo, pergunto: por que vocês deveriam confiar em mim? O que leva uma pessoa a confiar na outra? Por que somos tão desconfiados em relação ao outro? Em primeiro lugar é preciso deixar claro que relações humanas não nascem prontas e que quando entramos nesse campo o debate é praticamente interminável e interdisciplinar. E refletir sobre a questão da confiança é importante se quisermos construir um tecido social saudável em todos os sentidos: mental, social e econômico.

 Goethe tem uma frase em que busco orientar-me na vida: “Se queres que tua bússola te dirijas bem, tomas cuidado com os imãs que te acompanham.” Acho que é por aí, diante da nossa condição humana dependemos uns dos outros para viver, não tem como escapar, precisamos ter algum tipo de contato com as pessoas mais diferentes neste mundão. Todavia, o fato de você ter contato com alguém isso não significa que você esteja disposto a construir uma relação, você está apenas se socializando, ou melhor, interagindo.

 Refletir sobre a confiança é justamente refletir sobre uma relação que foi cultivada ao longo do tempo, não se trata de um simples contato físico ou virtual. E vai de encontro com os “imas que te acompanham” ou melhor, com aquelas pessoas que você sabe que pode contar quando a festa acabou. É uma via de mão dupla em que precisamos estar com nossos sentidos despertos e também não podemos nos deixar enganar por eles, afinal de contas o “essencial é invisível aos olhos” e muitas vezes ficamos cegos com as aparências e com o materialismo.

 “Pode-se levar anos para construir confiança e segundos para destruí-la.” Ao longo da minha vida observei que é muito mais fácil você destruir do que construir, assim também são as relações humanas (sociais). Basta imaginar o efeito devastador de uma bomba atômica e quanto tempo levou para aquela cidade atingida se reerguer. Em tempos de rápidos avanços tecnológicos e da cultura do mundo virtual, parece que as pessoas estão mais aceleradas, perderam a paciência e já estão substituindo os contatos físicos que são fundamentais para o cultivo da confiança.

 Cultivar a confiança implica transmitir ao outro uma série de comportamentos e atitudes que são sinalizadores que só o tempo e o caminhar na mesma estrada vão mostrar se são verdadeiros ou não. Mais do que palavras, mais do que promessas podem ser simples gestos, até mesmo pequenas atitudes que muitas vezes o outro nem vai perceber. É aquela coisa de fazer o bem sem olhar a quem, de fazer o que você acha certo fazer e de acordo com a sua consciência e deixar a coisa fluir naturalmente.

 Confiança e intimidade caminham juntas.... quanto maior a intimidade , maior a aproximação, mais vamos nos envolvendo emocionalmente. Mas tudo leva tempo.... mas as pessoas hoje tem pressa... preferem relacionamentos superficiais. Não querem envolvimento....é o fim do romantismo e a era do descartável.

 Mas é importante ressaltar que não precisamos inspirar confiança em todos, até porque para que você consiga transmitir confiança é preciso que ela esteja alinhada à sua consciência. Se a sua consciência está tranquila, se você está bem consigo mesmo, em harmonia com seus sentimentos, não querendo o mal do outro quem sabe a confiança é transmitida naturalmente?  Você não vai precisar bajular nem manipular o outro, o jogo será limpo e leve. Mas sei também que o jogo sujo faz parte da vida e cada um joga com as cartas que tem em mãos. E cada um escolhe que jogo prefere participar: jogo político? Jogos esportivos? Jogos virtuais? Jogo de sedução? ..... Desde que todos os participantes conheçam as regras, tudo bem. Do contrário é covardia. E quebra de confiança.