A matéria a seguir tem mais de uma década, mas a questão continua atual, infelizmente.
Jornal o Globo – 1ª década século XXI
Pedagogia
Artigo: A falência familiar na arte de
educar
Autor: Paulo Nathanael de Souza, doutor em
educação
Nunca, no Brasil, se falou tanto em educação e na sua incapacidade de
superar déficits e fracassos, como agora. Desde que se deu a democratização das
matrículas escolares e as multidões heterogêneas invadiram as salas de aulas
dos cursos de todos os níveis, graus e modalidades de ensino, a incapacidade de
gerar bons resultados na política educacional praticada entre nós ficou
evidente. Ainda há milhões de pessoas analfabetas puras com mais de 15 anos de
idade e o ensino básico, que devera ser de ótima qualidade, da a sua
obrigatoriedade universal no ciclo fundamental e o fato de que geralmente é o
único nível de escolaridade ao alcance das massas, aí está a ocupar
classificações vergonhosas nas tabelas nacionais e internacionais de avaliação
do aproveitamento na aprendizagem. São grandes contingentes que saem todos os
anos das escolas, sem saber ler nem compreender o que leem, escrever frases com
clareza e logicidade ou fazer operações aritméticas, além da soma, da
multiplicação, da subtração e de divisão, de algarismos simples, que vão apenas
até as dezenas (quando chegam as centenas, instala-se o caos!). É o denominado
grupo dos analfabetos funcionais, que passam pela sala de aula sem nada
aprenderem. Não é por acaso que o ensino superior, herdeiro dessa tragédia
toda, não mais consiga cumprir o seu papel de criador e incentivador dos novos
saberes, para acomodar-se num subnível intelectual, que já não pode mais ser
considerado tão superior, eis que se conformou em ser apenas um ensino de 3º
grau (ou pós-colegial).
Os especialistas pesquisam incansavelmente as causas dessas
insuficiências e acabam por culpar, ora os professores, ora o desequipamento
escolar, ora os currículos sobrecarregados ou, ainda , as verbas insuficientes
destinas ao setor. De fato, cada uma dessas facetas guarda uma culpa ampla e
profunda para com os maus resultados estatísticos do desempenho do sistema. Porém,
há uma razão oculta da qual ninguém diz que estende suas raízes no subsolo
delas todas. Há que debitar-lhe no entanto, grande dose de responsabilidade
pelo que vem ocorrendo: trata-se da falência das famílias no exercício de sua
responsabilidade educativa em relação aos filhos. Como todos sabem, o bicho
homem, quando nasce, é um ser biológico, como todos os outros que vêm à vida. Só
que com uma diferença: enquanto que os bichos trazem ao nascerem defesas naturais
e instintivas, que os ajudam a alimentar-se e a superar riscos, o homem só
sobreviverá se for amparado por forças outras que não as suas próprias. O cenário
ideal para isso é a família. A família existe mais do que apenas para facilitar
a geração dos filhos, se não que, principalmente para ampará-los, alimentá-los,
defende-los e educa-los, a partir do momento de sua chegada ao mundo. A natureza
social e cultural do ser humano impõe aos familiares essas ações aculturativas
em relação às novas gerações. Trata-se de uma ação informal, que educa, não só
pelo exemplo, mas principalmente pelos primeiros esclarecimentos exigidos pela
curiosidade dos educandos, feitos de lições rudimentares sobre usos e costumes, comunicação oral, valores básicos de convívio
social e de conduta ética, princípios religiosos, etc. Antigamente, no campo e
na cidade, isso funcionava a contendo, não importando se a família era rica ou
pobre, eis que a pobreza jamais precisou ser sinônimo de ignorância, sujeira ou
grosseira.
Com esta enlouquecida urbanização dos tempos atuais, em que massas
humanas sem ter onde morar, vivendo de subempregos da informalidade econômica
e, não raro, cobrindo-se de andrajos e passando fome a organização e a funcionalidade
familiar entraram em crise. Criou-se não apenas uma faixa de lumpers sem futuro
como ainda se assistiu ao surgimento de novas gerações criadas nas ruas, que
hoje engrossam o tráfico de drogas e ampliam a cultura da criminalidade por todas
as esferas sociais. Os pais, não raro desconhecidos ou desunidos, não mais
conseguem impor sua autoridade familiar, nem tão pouco transmitir aos jovens
aquela educação primeira, que seria do seu dever.
A consequência aí está: ao chegarem à escola crus e ignorantes, até
mesmo das regras básicas da civilidade, passam pela sala de aula agredindo
professores, espancando e até matando colegas, e sem apresentar um traço mínimo
de maturidade para o convívio social e a aprendizagem formal.
Considerando que essa população é imensa no espectro estrutural da
sociedade brasileira, faço-me diariamente uma pergunta incômoda, para a qual não
tenho resposta (você, caro leitor, terá?): como sair da crise educacional, em
que estamos atolados, sem a reintegração das famílias (não só das lupens mas
também das classes mais altas e até escolarizadas) no seu dever de orientar as
crianças e os jovens no recesso do lar? Que políticas sociais de governo deveriam
conter não só reformas da educação mas também medidas no sentido de apoiar e
assistir minimamente as famílias, principalmente, as mais marginalizadas
cultural e economicamente, no que diz respeito as suas necessidades educativas
para com os filhos? Olhar para isso poderia ser um bom começo para a superação da crise da educação no Brasil.

