Matéria - Movimento contra a liberdade de imprensa
– Jornal O Globo 25.2.2015, opinião p.19
João Ricardo Moderno
O desprezo pela liberdade de imprensa e de
expressão cresce nos políticos radicais brasileiros; e , no Facebook,
valendo-se da liberdade da internet, militantes engrossam a voz contra a mídia.
O sonho totalitário é tornar a grande imprensa brasileira de timbre estatal,
buscando a “harmonia” ditatorial. Assim,
jamais teríamos reportagens estarrecedoras sobre a progressiva e interminável
cultura da corrupção, do furto aberto ao dinheiro público e a desavergonhada
sucessão de crimes, em uma escalada reconhecida por especialistas como talvez a
maior da história da humanidade
Contudo, nada parece abalar a convicção
que a preservação e a expansão política e demográfica do homo corruptus depende da destruição da liberdade. Em latim, corrumpere significa destruir. Assim,
corromper a liberdade é a garantia quase constitucional de expandir a corrupção
do dinheiro público. O mantra liberticida faz alusão ao “controle social da mídia” ou “regulamentação
da mídia” , eufemismo para a repressão. Controle social da mídia faz o
consumidor, que escolhe livremente seus veículos de comunicação. Os trabalhadores dos meios de comunicação de
massa são oriundos dos mais diversos estados da federação, das mais diferentes
origens sociais, econômicas , ideológicas, culturais e políticas.
A guerra de posição gramsciana contra a
liberdade de imprensa já começou por meios econômicos, políticos, psicossociais
e culturais. Quanto mais são divulgados, os malfeitos criminosos, maior o
movimento contra a imprensa livre. O “crime” da
mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o
Brasil. A chamada revolução bolivariana na América Latina tem especial objetivo
calar a liberdade para implantar uma imprensa subserviente, obediente,
corrupta, chapa-branca e autoritária. A liberdade de expressão é a pedra no
sapato dos totalitarismos. Por isso, todos os países do eixo-bolivariano formam
um bloco unido contra a crítica da imprensa.
A guerra contra a mídia atinge diretamente
a liberdade da arte, da cultura, da ciência, da religião, da economia, da
política, do esporte e demais atividades humanas. O fanatismo ideológico
associado ao furor da paixão pelo crime financeiro, o materialismo mais
hediondo da adoração ao bezerro de ouro e uma vontade patológica de poder se
associam para condenar os mais elevados valores e princípios do Estado
Democrático de Direito. É nosso dever, pois, defender a liberdade de imprensa e
de expressão de toda tentativa de repressão
autoritária, e de todas as agressões explícitas ou dissimuladas. Mais vale
corrigir alguns excessos inerentes à democracia que aprovar a exceção do fim da
liberdade no Brasil. Democracia é contradição.
Autor- João Ricardo Moderno é
presidente da Academia Brasileira de Filosofia.

