Texto – Cap Os Filósofos da Natureza –
...nada pode surgir do nada...
Livro – O Mundo de Sofia
Páginas 46 e 47 – NADA PODE SURGIR DO NADA
Os três filósofos de Mileto[1] acreditavam em uma – e só
uma – substância primordial, a partir da qual tudo se originava. Mas como uma
substância era capaz de subitamente se modificar e se transformar em algo
completamente diferente? Vamos chamar este problema de o problema da transformação.
A partir de 500 a.C., aproximadamente,
viveram na colônia grega de Eleia, no Sul da Itália, alguns filósofos. Esses “eleatas”
interessavam por questões como esta que acabamos de mencionar. O mais conhecido
entre eles foi Parmênides [c.540-480 a.C.].
Parmênides acreditava que tudo o que existe sempre existiu. Este era um
pensamento muito corrente entre os gregos, para quem era praticamente evidente
que tudo o que existe no mundo sempre existiu. Nada pode surgir do nada, dizia
Parmênides. E nada que existe
pode se transformar em nada.
Mas Parmênides foi mais longe do que a maioria dos outros. Ele considerava
totalmente impossível qualquer transformação real das coisas. Nada pode se transformar
em algo diferente do que já é.
É claro que Parmênides sabia das constantes transformações que ocorrem
na natureza. Mas ele não
conseguia harmonizar isto com aquilo que sua razão lhe dizia.
E quando era forçado a decidir se confiava nos sentidos ou na razão, decidia-se
pela razão.
Todos nós conhecemos a frase “Só acredito vendo”. Mas Parmênides
não acreditava nem quando via.
Ele dizia que os sentidos nos fornecem uma visão enganosa do mundo; uma visão
que não está em conformidade com o que nos diz a razão. Como filósofo,
ele achava que sua tarefa consistia em desvendar todas as formas de “ilusão dos
sentidos”.
Esta forte crença na razão humana é chamada de racionalismo. Um racionalista é
aquele que tem grande confiança na razão humana enquanto fonte de conhecimento do mundo.
Páginas 47 e 48 - TUDO FLUI
Na mesma época de Parmênides viveu
Heráclito [c. 540-480 a.C.] de Éfeso, na
Ásia Menor. Para ele, as
constantes transformações eram justamente a característica mais fundamental da
natureza. Poderíamos talvez
dizer que Heráclito, mais do que Parmênides, confiava no que os sentidos lhe
diziam.
“Tudo flui”, dizia Heráclito. Tudo está em movimento e nada dura para
sempre. Por esta razão,
“não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Isto porque quando entro pela segunda vez
no rio, tanto eu quanto ele já estamos mudados.
Heráclito também nos chama a atenção para o fato de que o mundo está
impregnado por constantes opostos. Se nunca ficássemos doentes, não
saberíamos o que significa a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não
experimentaríamos a agradável sensação de saciá-la depois de uma refeição. Se nunca houvesse
guerras, não saberíamos o valor da paz, e se nunca houvesse inverno, não
poderíamos assistir à chegada da primavera.
Tanto o bem quanto o mal são necessários ao todo, dizia Heráclito. Sem a constante
interação dos opostos o mundo deixaria de existir.
“Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, satisfação e fome”,
dizia ele. Ele emprega nesta
passagem a palavra “Deus”, mas é claro que com isso não se refere aos deuses de
que falavam os mitos. Para Heráclito,
Deus – ou o elemento divino – é algo que abrange o mundo inteiro. Deus se manifesta
na natureza em constante transformação e crivada de opostos.
No lugar da palavra “Deus” ele emprega com frequência a palavra grega logos, que significa razão. Mesmo quando nós,
homens, não pensamos da mesma forma ou não possuímos a mesma razão, deve haver
– segundo Heráclito – uma espécie de “razão universal”, que dirige todos os
fenômenos da natureza. Esta razão
universal – ou “lei universal” – é a mesma para todos; é a partir dela que
todos se orientam.
E não
obstante, a maioria das pessoas vive segundo sua própria razão, dizia Heráclito. Ele não
considerava muito as pessoas que o cercavam. Para ele, a opinião da maioria delas não
passava de “brincadeira de criança”.
Em todas as transformações e opostos da natureza Heráclito via,
portanto, uma unidade, um todo.
Esta “alguma coisa” que era subjacente a tudo ele chamava de “Deus” ou de
“logos”.
Resumo
– Grécia Antiga [Pré-Socráticos: Heráclito e Parmênides]
Heráclito:
*As
constantes transformações eram justamente a principal característica da
natureza.
*”Tudo
flui” – tudo se transforma, tudo está em movimento e nada dura para sempre.
*O
mundo está cheio de opostos
*O
mundo está em constante movimento e as impressões dos sentidos são confiáveis,
ou seja, podemos confiar no que vemos. Podemos confiar nos sentidos
*Acreditava
no vir a ser
*”Não
entramos no mesmo rio duas vezes.”
Parmênides:
*”Nada
pode mudar.”
*”Nada
pode surgir do nada.”
*”Nada
que existe pode se transformar em nada.”
*A
razão deixa claro que nada podia mudar.
*Acreditava
que tudo que existe sempre existiu.
*Não
podemos confiar nos sentidos e sim na razão.
* O universo está dividido em duplas de contrário (luz e obscuridade, quente e frio, ser ou não ser, leve e pesado)
Observação: Logo no segundo capítulo do Livro a Insustentável leveza do ser" o autor, Milan Kundera, coloco-nos diante do fardo e cita Parmênides para responder a esta pergunta: o leve? ou o pesado ?
De minha parte não pretendo ser um fardo para ninguém...
Mas...
"... Quanto mais pesador o fardo, mas próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira."
"Por outro lado a ausência total do fardo faz com que o ser humano se torne mais leve que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."
Talvez seja melhor ser uma dusty the wind, uma poeira ao vento...
Debate
entre os dois: questões que foram colocadas
[sentidos X razão]
Devemos
confiar no que os sentidos dizem ou na razão?
Uma
coisa pode mudar de aparência mas continuar sendo a mesma coisa?
Podemos
falar do ser?
bcbdjane@gmail.com
[1]
Tales, que acreditava ser a água a origem de todas as coisas. Anaximandro que viveu em Mileto
também, para ele nosso mundo era apenas um dos mundos que surgem de alguma
coisa e se dissolvem em alguma coisa que ele chamava de infinito e Anaxímenes ,
conhecia a teoria de Tales e ao observar a chuva via que o ar se comprimia até
virar água e acreditava que comprimindo ainda mais a água ela se transformaria
em terra.

