Canal Daniel Mota – Olavo de Carvalho – Privação da Verdade e a Saúde Mental – [17:46]
[...] argumento
de autoridade quando não há possibilidade de verificação. Por outro lado, a
ideia de verificação é muito mais complexa do que as pessoas normalmente
imaginam. Se você falar de verificação científica tal como se entende nas
ciências naturais, você vai estar limitando o campo de verificação de uma
maneira brutal. Por que? A verificação científica supõe um consenso em toda uma
classe científica. Um sujeito que faça uma verificação em laboratório não
provou nada cientificamente enquanto todos os outros não verificarem a mesma
coisa. Então, isso quer dizer que o que nós chamamos de verificação científica
[1:00] é um consenso que envolve um montão de gente e a possibilidade de que
milhares de pessoas vejam exatamente a mesma coisa do mesmo jeito ao mesmo
tempo é nula. Na maior parte dos casos a verificação não pode ser científica
tem que ser uma verificação direta e pessoal.
Por exemplo, já
dei esse exemplo várias vezes e vou voltar a ele: você viu um sujeito matar
outro na esquina, só você viu. Você pode provar cientificamente? Não! Porque
você mesmo é o instrumento da prova.
Com relação aos
conhecimentos mais importantes do mundo, nós só temos acesso a este tipo de
verificação, onde a certeza direta e inegável é de natureza estritamente
individual, intransferível. [2:03] E se você abdicar disso e disser : ah eu vou
pegar todas as minhas certezas individuais, jogar no lixo, agora só acredito em
ciência. Eu digo: você acabou de virar um psicótico. Porque o psicótico não
enxerga o que os seus olhos enxergam , ele só enxerga o que a comunidade
científica mandou acreditar, então ele está totalmente descentrado, fora de si.
É claro que isso é uma doença mental.
Quando nós
apelamos à autoridade da ciência e pedimos que ela substitua as nossas próprias
percepções diretas por alguma coisa que a comunidade científica quis/ diz , você
está absolutamente louco. O sujeito que faz isso devia ser internado. Quando eu
digo “devia ser internado”, isso é opinião minha? Não! Vou apelar à experiência de uma autoridade, essa
autoridade é um dos maiores psiquiatras e psicanalistas de todos os tempos que
se chamava Wilfren Bayen? [3:00] inglês, um sujeito altissimamente respeitado
nos meios psicanalíticos especialmente no Brasil onde ele esteve várias vezes
fazendo conferência. Mas eu sempre achei uma pena que as ideias do Bayen não
tivessem uma influência cultural mais ampla como mereciam ter, porque esse foi
um dos grandes sábios do século XX. Quando você ouvir as conferências do Bayen ,
infelizmente só existe um trechinho do Bayen de dez minutos no you tube – mas
vocês coloquem : w.r.bion , é um trecho de dez minutos onde ele critica a
expressão paciente terminal, doente terminal. Ele diz: ninguém é terminal. Se
você está tratando o sujeito é porque você está supondo que ele vai durar pelo
menos mais cinco minutos. O Bion falando é uma pessoa de uma modéstia muito
grande [4:04], de uma simplicidade muito convincente, mas escrevendo ele é
muito técnico, então eu acho que por isso os escritos dele não tiveram uma
influência cultural maior. Mas a formação dele foi de psicanalista , começou
aprendendo com o doutor Freud.
E doutor Freud
dizia o seguinte: que existem dois princípios formadores da psique humana,
dois princípios formadores essenciais, básicos – um que é chamado princípio do
prazer e outro que é chamado princípio da realidade - . O princípio do
prazer, evidentemente, rege todas as nossas iniciativas quando nós somos
pequeninhos, quer dizer que, o princípio do prazer representa aquilo que o
mundo do desejo, aquilo que vem de dentro de você e que determina a sua conduta
no sentido de buscar uma satisfação [5:01]. E existe, por outro lado, o
princípio de realidade que é a adaptação do ser humano às exigências do
ambiente externo, não só ambiente físico, mas o ambiente social, a realidade do
mundo social.
Por exemplo:
você reconhecer que um dia você vai ter que trabalhar e pagar suas dívidas,
certamente não é pelo princípio do prazer que você faz isso. Então, se nós
fossemos regidos exclusivamente pelo princípio do prazer, nós ficaríamos tão
desadaptados do mundo exterior que acabaríamos morrendo. Então existe o
princípio oposto, que é o princípio de realidade que me obriga a engolir as
imposições do mundo externo que contrariam meu princípio do prazer. E o
doutor Freud dizia que a cura psicanalítica consiste em você gradativamente ir
adaptando o seu princípio do prazer ao princípio de realidade até você
encontrar meios de satisfação que são compatíveis [6:00] com as exigências do
mundo exterior, do mundo natural e social. Bom, doutor Bion começou
praticando isso, quer dizer, inocentemente, sinceramente seguindo lá os preceitos
do doutor Freud.
Só que um dia
então, no curso da psicanálise o paciente é obrigado a engolir muitas verdades que
ele não quer engolir. E um dia doutor Bion se perguntou: Mas por que quê eles
aceitam isto? É pelo princípio de realidade? Não pode ser, porque essas coisas
que o paciente descobre a respeito de si mesmo não lhes são impostas desde
fora.
Por exemplo: se
o sujeito entrou [7:00] numa conduta mentirosa e falsa anos atrás e como dizia
doutor Miller: ele se esqueceu da sua própria mentira e continua agindo como se
ela fosse verdade; então criou uma neurose. Muito bem, como é que você vai
desfazer a neurose? Você vai conversando com o sujeito, conversando,
conversando, até ele mesmo perceber como é que a coisa começou. Ora, a origem
dessa neurose está colocada há muitos anos atras, a mentira interior também
está colocada há muitos anos atrás. O que quê na situação presente pode forçar o
sujeito a recordar aquilo e dizer: puxa vida eu menti para mim mesmo. Nada pode
forçar.
Então, o Bion
descobriu o seguinte: pera aí , além do princípio do prazer e do princípio da
realidade tem que haver um princípio superior aos dois, isso chama-se o
princípio da verdade, instinto da verdade. Ele usa a
palavra “drive”, podemos traduzir em instinto. [8:00] Impulso, instinto da
verdade. Essa foi a primeira grande descoberta do doutor Bion: olha, os caras;
às vezes o que eu quero mostrar para eles a respeito deles mesmos, o que eu
estou percebendo mas eles ainda não estão percebendo, mas eles acabam
percebendo, eu não estou forçando eles a aceitarem isso aí, não há nada externo
forçando. Vamos dizer, a coisa por um lado é uma verdade desagradável e por
outro lado não é imposta pela realidade exterior. Por que o fulano aceita isso?
Ele aceita isso porque ele tem o instinto da verdade. É que [8:40 – 8:47??] é
uma das grandes descobertas da psicologia de todos os tempos.
Aristóteles dizia que conhecer a verdade é
natural no ser humano, isso não quer dizer que nós sempre conheçamos a verdade.
Isso é a mesma coisa que você dizer que [9:00] comer carne é natural para os
lobos. Isso quer dizer que os lobos sempre comem carne, e se não tiver carne
alguma. Ele procura um viado, não tem; ele procura um coelho, não tem ; procura
uma galinha não tem; procura uma ovelha, não tem; procura um cabrito, não tem,
hoje não como carne, vou dormir com fome.
Então, quando Aristóteles diz que é natural no ser humano conhecer a verdade, o
que quê ele quer dizer: não que o ser humano sempre conheça a verdade, mas ele
tem o instinto da verdade. A palavra
“instinto” não ocorreu a Aristóteles , ou seja, uma função que é natural
não quer dizer que ela seja sempre cumprida, ela pode falhar uma infinidade de
vezes; como por exemplo: o lobo que não encontrou carne e sofreu a humilhação
de comer uma banana.
Então, conhecer
a verdade é natural no ser humano [10:10] mas como toda função natural ela pode
falhar infinitas vezes. Quer dizer, você pode viver contra a sua natureza, isso
claro que vai lhe fazer mal, mas não vai matar você na primeira. Então, se você
obrigar um lobo a comer só comida vegetal, ele vai passar muito mal,
provavelmente vai ficar magro, durar menos mas ele não vai morrer na primeira.
Do mesmo modo quando nós somos privados da verdade a longo prazo isso nos
prejudica. E é justamente o que o Bion descobriu é que do ponto de vista da
saúde mental [11:01] a privação da verdade é a origem dos grandes danos. E não
adianta nada você falar em princípio de realidade, porque o princípio de
realidade é somente uma necessidade exterior. O princípio de realidade por si
mesmo não tem poder de persuasão , o fato de alguma coisa ser necessário você
fazer alguma coisa não convence você de que deveria fazer aquilo é preciso um
algo mais. É preciso que esta imposição da realidade exterior seja absorvida,
transformada e valorizada interiormente, ou seja, você precisa ter vontade de
fazer aquilo.
Esta
transfiguração da realidade em vontade não seria possível se não tivesse um
terceiro elemento [12:00] que é independente do princípio de prazer e do
princípio de realidade. E exatamente esse terceiro elemento que o Bion chamava princípio
da verdade. Muito bem, aprofundando um pouco as suas investigações ele viu que
o funcionamento do instinto da verdade dependia da referência a um absoluto.
Absoluto, eterno , imutável, porque se você sai disto então você cai de novo no
jogo do princípio do prazer e do princípio da realidade. A situação externa lhe
impunha determinada coisa obriga você a reprimir o seu princípio do prazer e
adaptar-se, de maneira alguma [13:00] você pode continuar negando a realidade o
tempo que você queira. E para que o instinto de verdade se sobreponha ao
princípio de realidade ao princípio do prazer é necessário que ele tenha um
ponto de apoio fixo que seja superior tanto as exigências da própria
subjetividade quanto às exigências da situação exterior.
Portanto, a
verdade não pode ser conhecida nem por um impulso subjetivo, nem por um impulso
da pura subjetividade em busca do prazer, ou seja, não pode ser conhecido na
pura clave do prazer e dor , e também não pode ser conhecida apenas como uma
imposição do mundo externo [14:00]. Por que? Porque toda e qualquer verdade que
você apreenda sempre transcende a situação concreta que você tá vivendo. A
situação concreta se compõe de situações de fato , se você só compreende a situação de
fato você não é capaz de generalizar, para que você generalize é preciso que
você transcenda do estado de fato momentâneo e apreenda aquilo como uma verdade
que vai além da situação. Então, é por isso que o Bion diz , existe o instinto
da verdade sem o qual a análise não funcionaria. Nenhum paciente aceitaria nada
do que eu estou querendo mostrar para ele e não aceitaria nada a respeito da
sua verdade interior, sobretudo não aceitaria a verdade das suas próprias
emoções, não aceitaria a sua própria história [15:02], não aceitaria . A sua
verdade interior. Por outro lado esse instinto da verdade não poderia funcionar
jamais se ele não transcendesse todas as situações de fato imposta pelo
princípio da realidade. Qual é o resultado final das observações? Isso não é
uma teoria isso são observações clínicas que ele fez. E ele tratou de casos muito
graves, primeiro trabalho dele foi com neurose de guerra, com soldados, também
com os chamados pacientes terminais que ele , são pacientes terminais que não
terminam nunca. E se eles terminarem [16:01] eles não são mais meus pacientes, dai
está resolvido o problema.
Então isso são
observações clínicas , essas observações nos remete de volta aquilo que dizia
Aristóteles – conhecer a verdade natural do ser humano – natural como um
instinto e como uma potência que o ser humano tem não natural como um estado de
fato do qual você desfruta desde o primeiro momento. Quando doutor Bion dizia
que o instinto da verdade só pode funcionar se ele transcender a situação de
fato imposta pelo princípio de realidade , note bem que a distinção de forma e
matéria está subentendida ai. A forma da verdade percebida [17:05] se sobrepõe
a situação material de fato que a exemplifica, então estamos sempre voltando,
voltando, voltando, voltando ao bom e velho Aristóteles em todas essas coisas.
[17:30]
=parei dia
20/2/21 em [1:00]
= parei dia 21/2/21
em [5:17]
= parei dia 23/2/21 em [10:10]
= parei dia 26/2/21 em [14:59]
= transcrição finalizada em 27/2/21

