Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

PRIVAÇÃO DA VERDADE E SAÚDE MENTAL - TRECHO TRANSCRITO

 Canal Daniel Mota – Olavo de Carvalho – Privação da Verdade e a Saúde Mental – [17:46]

 

[...] argumento de autoridade quando não há possibilidade de verificação. Por outro lado, a ideia de verificação é muito mais complexa do que as pessoas normalmente imaginam. Se você falar de verificação científica tal como se entende nas ciências naturais, você vai estar limitando o campo de verificação de uma maneira brutal. Por que? A verificação científica supõe um consenso em toda uma classe científica. Um sujeito que faça uma verificação em laboratório não provou nada cientificamente enquanto todos os outros não verificarem a mesma coisa. Então, isso quer dizer que o que nós chamamos de verificação científica [1:00] é um consenso que envolve um montão de gente e a possibilidade de que milhares de pessoas vejam exatamente a mesma coisa do mesmo jeito ao mesmo tempo é nula. Na maior parte dos casos a verificação não pode ser científica tem que ser uma verificação direta e pessoal.

Por exemplo, já dei esse exemplo várias vezes e vou voltar a ele: você viu um sujeito matar outro na esquina, só você viu. Você pode provar cientificamente? Não! Porque você mesmo é o instrumento da prova.

Com relação aos conhecimentos mais importantes do mundo, nós só temos acesso a este tipo de verificação, onde a certeza direta e inegável é de natureza estritamente individual, intransferível. [2:03] E se você abdicar disso e disser : ah eu vou pegar todas as minhas certezas individuais, jogar no lixo, agora só acredito em ciência. Eu digo: você acabou de virar um psicótico. Porque o psicótico não enxerga o que os seus olhos enxergam , ele só enxerga o que a comunidade científica mandou acreditar, então ele está totalmente descentrado, fora de si. É claro que isso é uma doença mental.

Quando nós apelamos à autoridade da ciência e pedimos que ela substitua as nossas próprias percepções diretas por alguma coisa que a comunidade científica quis/ diz , você está absolutamente louco. O sujeito que faz isso devia ser internado. Quando eu digo “devia ser internado”, isso é opinião minha? Não! Vou apelar à  experiência de uma autoridade, essa autoridade é um dos maiores psiquiatras e psicanalistas de todos os tempos que se chamava Wilfren Bayen? [3:00] inglês, um sujeito altissimamente respeitado nos meios psicanalíticos especialmente no Brasil onde ele esteve várias vezes fazendo conferência. Mas eu sempre achei uma pena que as ideias do Bayen não tivessem uma influência cultural mais ampla como mereciam ter, porque esse foi um dos grandes sábios do século XX. Quando você ouvir as conferências do Bayen , infelizmente só existe um trechinho do Bayen de dez minutos no you tube – mas vocês coloquem : w.r.bion , é um trecho de dez minutos onde ele critica a expressão paciente terminal, doente terminal. Ele diz: ninguém é terminal. Se você está tratando o sujeito é porque você está supondo que ele vai durar pelo menos mais cinco minutos. O Bion falando é uma pessoa de uma modéstia muito grande [4:04], de uma simplicidade muito convincente, mas escrevendo ele é muito técnico, então eu acho que por isso os escritos dele não tiveram uma influência cultural maior. Mas a formação dele foi de psicanalista , começou aprendendo com o doutor Freud.

E doutor Freud dizia o seguinte: que existem dois princípios formadores da psique humana, dois princípios formadores essenciais, básicos – um que é chamado princípio do prazer e outro que é chamado princípio da realidade - . O princípio do prazer, evidentemente, rege todas as nossas iniciativas quando nós somos pequeninhos, quer dizer que, o princípio do prazer representa aquilo que o mundo do desejo, aquilo que vem de dentro de você e que determina a sua conduta no sentido de buscar uma satisfação [5:01]. E existe, por outro lado, o princípio de realidade que é a adaptação do ser humano às exigências do ambiente externo, não só ambiente físico, mas o ambiente social, a realidade do mundo social.

Por exemplo: você reconhecer que um dia você vai ter que trabalhar e pagar suas dívidas, certamente não é pelo princípio do prazer que você faz isso. Então, se nós fossemos regidos exclusivamente pelo princípio do prazer, nós ficaríamos tão desadaptados do mundo exterior que acabaríamos morrendo. Então existe o princípio oposto, que é o princípio de realidade que me obriga a engolir as imposições do mundo externo que contrariam meu princípio do prazer. E o doutor Freud dizia que a cura psicanalítica consiste em você gradativamente ir adaptando o seu princípio do prazer ao princípio de realidade até você encontrar meios de satisfação que são compatíveis [6:00] com as exigências do mundo exterior, do mundo natural e social. Bom, doutor Bion começou praticando isso, quer dizer, inocentemente, sinceramente seguindo lá os preceitos do doutor Freud.

Só que um dia então, no curso da psicanálise o paciente é obrigado a engolir muitas verdades que ele não quer engolir. E um dia doutor Bion se perguntou: Mas por que quê eles aceitam isto? É pelo princípio de realidade? Não pode ser, porque essas coisas que o paciente descobre a respeito de si mesmo não lhes são impostas desde fora.

Por exemplo: se o sujeito entrou [7:00] numa conduta mentirosa e falsa anos atrás e como dizia doutor Miller: ele se esqueceu da sua própria mentira e continua agindo como se ela fosse verdade; então criou uma neurose. Muito bem, como é que você vai desfazer a neurose? Você vai conversando com o sujeito, conversando, conversando, até ele mesmo perceber como é que a coisa começou. Ora, a origem dessa neurose está colocada há muitos anos atras, a mentira interior também está colocada há muitos anos atrás. O que quê na situação presente pode forçar o sujeito a recordar aquilo e dizer: puxa vida eu menti para mim mesmo. Nada pode forçar.

Então, o Bion descobriu o seguinte: pera aí , além do princípio do prazer e do princípio da realidade tem que haver um princípio superior aos dois, isso chama-se o princípio da verdade, instinto da verdade. Ele usa a palavra “drive”, podemos traduzir em instinto. [8:00] Impulso, instinto da verdade. Essa foi a primeira grande descoberta do doutor Bion: olha, os caras; às vezes o que eu quero mostrar para eles a respeito deles mesmos, o que eu estou percebendo mas eles ainda não estão percebendo, mas eles acabam percebendo, eu não estou forçando eles a aceitarem isso aí, não há nada externo forçando. Vamos dizer, a coisa por um lado é uma verdade desagradável e por outro lado não é imposta pela realidade exterior. Por que o fulano aceita isso? Ele aceita isso porque ele tem o instinto da verdade. É que [8:40 – 8:47??] é uma das grandes descobertas da psicologia de todos os tempos.

 Aristóteles dizia que conhecer a verdade é natural no ser humano, isso não quer dizer que nós sempre conheçamos a verdade. Isso é a mesma coisa que você dizer que [9:00] comer carne é natural para os lobos. Isso quer dizer que os lobos sempre comem carne, e se não tiver carne alguma. Ele procura um viado, não tem; ele procura um coelho, não tem ; procura uma galinha não tem; procura uma ovelha, não tem; procura um cabrito, não tem, hoje não como carne, vou dormir com  fome. Então, quando Aristóteles diz que é natural no ser humano conhecer a verdade, o que quê ele quer dizer: não que o ser humano sempre conheça a verdade, mas ele tem o instinto da verdade. A palavra  “instinto” não ocorreu a Aristóteles , ou seja, uma função que é natural não quer dizer que ela seja sempre cumprida, ela pode falhar uma infinidade de vezes; como por exemplo: o lobo que não encontrou carne e sofreu a humilhação de comer uma banana.

Então, conhecer a verdade é natural no ser humano [10:10] mas como toda função natural ela pode falhar infinitas vezes. Quer dizer, você pode viver contra a sua natureza, isso claro que vai lhe fazer mal, mas não vai matar você na primeira. Então, se você obrigar um lobo a comer só comida vegetal, ele vai passar muito mal, provavelmente vai ficar magro, durar menos mas ele não vai morrer na primeira. Do mesmo modo quando nós somos privados da verdade a longo prazo isso nos prejudica. E é justamente o que o Bion descobriu é que do ponto de vista da saúde mental [11:01] a privação da verdade é a origem dos grandes danos. E não adianta nada você falar em princípio de realidade, porque o princípio de realidade é somente uma necessidade exterior. O princípio de realidade por si mesmo não tem poder de persuasão , o fato de alguma coisa ser necessário você fazer alguma coisa não convence você de que deveria fazer aquilo é preciso um algo mais. É preciso que esta imposição da realidade exterior seja absorvida, transformada e valorizada interiormente, ou seja, você precisa ter vontade de fazer aquilo.

Esta transfiguração da realidade em vontade não seria possível se não tivesse um terceiro elemento [12:00] que é independente do princípio de prazer e do princípio de realidade. E exatamente esse terceiro elemento que o Bion chamava princípio da verdade. Muito bem, aprofundando um pouco as suas investigações ele viu que o funcionamento do instinto da verdade dependia da referência a um absoluto. Absoluto, eterno , imutável, porque se você sai disto então você cai de novo no jogo do princípio do prazer e do princípio da realidade. A situação externa lhe impunha determinada coisa obriga você a reprimir o seu princípio do prazer e adaptar-se, de maneira alguma [13:00] você pode continuar negando a realidade o tempo que você queira. E para que o instinto de verdade se sobreponha ao princípio de realidade ao princípio do prazer é necessário que ele tenha um ponto de apoio fixo que seja superior tanto as exigências da própria subjetividade quanto às exigências da situação exterior.

Portanto, a verdade não pode ser conhecida nem por um impulso subjetivo, nem por um impulso da pura subjetividade em busca do prazer, ou seja, não pode ser conhecido na pura clave do prazer e dor , e também não pode ser conhecida apenas como uma imposição do mundo externo [14:00]. Por que? Porque toda e qualquer verdade que você apreenda sempre transcende a situação concreta que você tá vivendo. A situação concreta se compõe de situações  de fato , se você só compreende a situação de fato você não é capaz de generalizar, para que você generalize é preciso que você transcenda do estado de fato momentâneo e apreenda aquilo como uma verdade que vai além da situação. Então, é por isso que o Bion diz , existe o instinto da verdade sem o qual a análise não funcionaria. Nenhum paciente aceitaria nada do que eu estou querendo mostrar para ele e não aceitaria nada a respeito da sua verdade interior, sobretudo não aceitaria a verdade das suas próprias emoções, não aceitaria a sua própria história [15:02], não aceitaria . A sua verdade interior. Por outro lado esse instinto da verdade não poderia funcionar jamais se ele não transcendesse todas as situações de fato imposta pelo princípio da realidade. Qual é o resultado final das observações? Isso não é uma teoria isso são observações clínicas que ele fez. E ele tratou de casos muito graves, primeiro trabalho dele foi com neurose de guerra, com soldados, também com os chamados pacientes terminais que ele , são pacientes terminais que não terminam nunca. E se eles terminarem [16:01] eles não são mais meus pacientes, dai está resolvido o problema.

Então isso são observações clínicas , essas observações nos remete de volta aquilo que dizia Aristóteles – conhecer a verdade natural do ser humano – natural como um instinto e como uma potência que o ser humano tem não natural como um estado de fato do qual você desfruta desde o primeiro momento. Quando doutor Bion dizia que o instinto da verdade só pode funcionar se ele transcender a situação de fato imposta pelo princípio de realidade , note bem que a distinção de forma e matéria está subentendida ai. A forma da verdade percebida [17:05] se sobrepõe a situação material de fato que a exemplifica, então estamos sempre voltando, voltando, voltando, voltando ao bom e velho Aristóteles em todas essas coisas. [17:30]

=parei dia 20/2/21 em [1:00]

= parei dia 21/2/21 em [5:17]

= parei dia 23/2/21 em [10:10]

= parei dia 26/2/21 em [14:59]

= transcrição finalizada em 27/2/21

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