O MEDO DE SER
Arthur da Távola, “Alguém que já não fui”
Vejo quilômetros de filmes e teipes, anos a
fio, leio quilos de papel, despenco abismos de olhares, enfrento filas
intermináveis de letras: autores, diretores, sonoplastas, criadores,
publicitários, o filmete, o produto, a peça, o disco, a monografia, o retrato. Vejo
a moça que quer dizer o que pensa mas não diz. O homem que ama o filho mas não consegue.
O filho que está com vontade de viver a própria experiência, mas teme.
Eu tudo, por onde passa olho do cronista,
está presente o medo de ser. Estranha mistura esta, a nossa, a humana, que nos
faz querendo sempre ser e vacilando a cada momento de realizar.
É a moça que quer ser amada mas se defende
realizando o discurso sociológico. É o rapaz que quer ser político mas tem medo
de perder a vida. É o menino que deseja falar com outro, mas teme ser mal
julgado. É a mãe que deseja reter o filho mas disfarça.
O medo de ser paralisa o gesto de afeto
pelo temor do ridículo, do riso, do escárnio, da gozação, da indiferença e, até
, do elogio.
O medo de ser impede a franqueza diante
daquele de quem se depende. O medo de ser impossibilita a entrega completa
porque ela pode ser mal interpretada. O medo de ser prolonga muita coisa que já
acabou.
O medo de ser cria defesas mirabolantes:
ficar rico; ser original; ser metido a diferente; fazer-se inteligente; transformar-se
em muito culto; virar o melhor da turma; ser o rei da festa; passar a ser o
engraçado do grupo; fazer peso ou se transformar no bambam da esquina; bater o
recorde; ser da seleção; “meu filho seja sempre o melhor”; parecer bom; dar uma
de herói; cobrar atitudes sempre dos outros; criticar sem reparar as
dificuldades de cada um.
O medo de ser cala aquela raiva; sepulta
aquele ódio, finge que não liga; provoca concordância com os outros grupos mais
agressivos ou convincentes; adere a modas; segura as pontas; aguenta a barra;
sacode a poeira; adula, passa a mão na cabeça; aparente eficiência fazer ser
eficiente; ensina a mandar; aprende a obedecer; faz repetir os gestos; silencia
a franqueza; teme a crítica; impede a ocupação do próprio espaço.
O medo de ser paralisa o gesto de afeto;
adia o telegrama de parabéns; não envia a carta de amor; finge que não odeia;
esconde-se na simpatia; simpatiza com os esconderijos; faz concordâncias
irrefletidas; aceita influências; finge-se de forte; depende do que aparenta.
O medo de ser estraga aquela energia porque
ela não era sincera; atrapalha aquela viagem porque ela era só fuga; procura
aquela tristeza e faz ficar mais triste; vai naquele lugar mas dá formigamento
nas extremidades; aceita aquele elogio sem com ele concordar; sofre em demasia
por aquela injustiça mesmo sabendo injusta. Rejeita o louvor mesmo o sabendo
sincero.
O medo de ser não comunga na hora em que dá
vontade e sim por causa dos outros; não ensina a lição do próprio porque vive
na dependência do amor alheio; não se olha no espelho com pavor de encontro o
rosto de quem inveja.
O medo de ser é a fuga do mais genuíno e
própria de cada pessoa por causa dos padrões e modelo e comportamentos
inculcados , introjetados, inoculados, disfarçados em amor, seio bom ou mau,
injeção, colégio pago ou aula de balé
O medo de ser forma a legião das
representações que envolvem (90? 95?) por cento dos nossos atos.
O medo de ser gera outros eus. Gera o tu, o
ele, o nós, o vós, o eles no eu; e não o eu no tu, no ele, no nós, no vós, neles,
como expressão mais autêntica e verdadeira do que somos e não do que fingimos ser.

