Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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sábado, 26 de setembro de 2009

Venho aprendendo muita coisa desde que comecei dar aulas de Filosofia e Sociologia para jovens e adultos aqui em Cabo Frio, a primeira que ensinar não é mole não. Principalmente para mim, que sempre fico com os últimos tempos dos "melhores dias", segunda e sexta feira, hehehe. Mas tudo bem, sempre gostei de desafios... principalmente quando adiantam a aula de química na 6afeira (turma 2001 - filosofia), aí o bicho pega... Os alunos ficam enlouquecidos, afinal é 6afeira né! Tento fazer milagre! Que ao menos me escutem... Mas mudando de assunto...
Dentre os muitos desafios que vivencio diariamente, o mais delicado é evitar a doutrinação.
Tem um provérbio chinês (embora eu tenha pavor de chinês, com toda licença) que diz o seguinte: "O professor abre as portas, mas você deve entrar por você mesmo." Costumo sempre falar que no dia que o Estado começar a controlar o conteúdo e a maneira de ensinar do professor (numa espécie de Big Brother 1984 - George Orwell), pulo fora na hora. Caso aceite isso, não poderei me considerar professora mas sim uma doutrinadora, uma manipuladora.... Não quero isso para mim e nem muito menos para quem estou tentando passar o pouquinho que sei. A matéria abaixo , "As mentes fechadas na América Latina", mostra em linhas gerais como funciona a educação no modelo socialista na Venezuela.


Jornal do Brasil - Domingo 17 de maio de 2009
A8-JB
SOCIEDADE ABERTA
Editorial
Venezuela

MENTES FECHADAS NA AMÉRICA LATINA

É preocupante a iniciativa do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de lançar o chamado Plano Revolucionário de Leitura. As vozes antichavistas enxergaram evidências de que se está diante de um movimento de formação dirigida da população. A justificativa para a ideia, que consiste em “desmontar o imaginário do capitalismo e recontextualizar a história”, esconde a violação de princípios básicos de qualquer democracia. A de que o cidadão comum tem o direito de escolher que caminhos tomar para a formação de sua consciência. E a de que recontextualizar a história é um exercício que inclui a revisão de mitos de ambos os lados. No regime chavista, esse direito será dirigido pelos “esquadrões revolucionários de leitura” e construído a partir das conclusões surgidas da análise obrigatória de textos sintomáticos como Ideias cristãs e aportes ao debate socialista, no qual o próprio Chávez comenta os pensadores de esquerda de Jesus Cristo, ou Por que sou duanista, de autoria do ministro do Poder Popular para a Cultura, Farruco Seco. Ou ainda, Discursos de Chávez, de Leonardo Ruiz. Ou também El código de Chavez , de Eva Golinger. O culto à personalidade suplanta a estruturação acadêmica.
O modelo de socialismo implantado na Venezuela se baseia na imposição. A lista apresentada pelo presidente inclui obras da ciência e da filosofia políticas, como o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels. A valer o receituário dessa lista, quem for submetido aos mutirões de convencimento ideológico terá contato com um texto elementar sobre o desenvolvimento histórico e político da humanidade – mas não se prevê contextualização nesse sentido. O modelo parece destino a facilitar a lavagem cerebral e o aparelhamento de larga parcela da população com o objetivo de mantê-la sob o controle da visão bolivariana. “Claro que é um plano de formação”, assume Edgar Pàez, diretor do programa, disposto a fazer com que as crianças do país, por exemplo, passem a aprender o período de conquistas espanholas na América do Sul como genocídio, não descobrimento. A linha é conduzida pelo texto chave As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.
Não deixa de ser uma linha provocativa e até necessária como revisão da história latino-americana. O risco aí é o governo venezuelano apegar-se a revanchismos e alimentar ódios de classe. Sem falar no pior – a veia personalista. No caso, o personalismo está em Chávez. Este pode estar usando os métodos errados para discutir uma revisão tão importante quanto necessária no diálogo Norte-Sul. A busca por um mundo multipolar, com relações de poder menos assimétricas tem sido, por exemplo, a tônica da atuação brasileira nos fóruns internacionais. A firmeza e a sensatez demonstradas nessas ocasiões estão deslocadas na perspectiva apresentada por Chávez. A necessidade de uma região alijada por anos ter mais voz exige um debate moderno, baseado não no antiestatismo, não num antimercado, mas na combinação de que ambos têm de positivo para o bom funcionamento do capitalismo. A existência de uma lista fechada de obras literárias que impulsionariam a reação venezuelana ao estado das coisas é um caminho tosco, cuja vinculação siamesa com um projeto de governo torna tênue a sua legitimidade diante de tantos parceiros necessitados de um esforço comum e coordenado. O aparelhamento ideológico é apegado a recursos do passado. Seria uma pena se das veias abertas da América Latina surgissem mentes fechadas. As novas gerações não merecem perder por isso.

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