O título da matéria é "Pinóquio para presidente" e o autor é Gil Castello Branco.
Ao ler esta matéria fiquei aliviada e com a consciência tranquila por não ter votado em Dona Dilma.
Pinóquio
para presidente
Gil Castello Branco
É conhecida a fábula de Collodi e o seu
personagem Pinóquio, simpático boneco de madeira cujo nariz aumentava quando
mentia. Seria ótimo que o mesmo acontecesse com os políticos, especialmente nas
campanhas eleitorais, porque é gritante a contradição entre as palavras e os
fatos ocorridos após o pleito.
Bastaram duas semanas para Dilma
transformar a sua carruagem em abóbora. A presidente reeleita deve ter se
inspirado em Maquiavel, que no seu livro “O Príncipe” (1513) aconselhou: “É
preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo,
pareça menos amargo.”
A quinzena do mal foi intensa. O Comitê
de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) , elevou em 0,25 ponto
percentual a taxa básica de juros (Selic), com o argumento de que precisava
garantir cenário mais “benigno” para a inflação em 2015 e 2016. A Agência
Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou aumentos de tarifas em Roraima,
Amazonas e no Rio de Janeiro. O Ministério da Fazenda anunciou déficit primário
de R$ 20,4 bilhões nas contas do Tesouro, Previdência Social e BC em setembro,
o pior resultado de todos os meses desde o início da série histórica, em
janeiro de 2007. O ministro da Fazenda já demitido confessou que a meta fiscal não
será alcançada este ano. Para que as autoridades econômicas não sejam
enquadradas em crime de responsabilidade, a equipe econômica vai recorrer ao
Congresso, que deve ajustar o primário para o limite menor.
A balança comercial brasileira registrou o
maior rombo mensal desde 1998. A gasolina e o diesel já estão mais caros. O número
de brasileiros em situação de extrema pobreza cresceu em 2013, conforme dados
oficiais divulgados na página do Ipea, à surdina, após as eleições. O desmatamento
da Amazônia em setembro e outubro deste ano cresceu 122% se comparado ao mesmo
bimestre no ano passado, o que também só veio à tona depois do pleito.
Na terra de Macunaíma – obra surrealista
do escritor Mário de Andrade repleta de aspectos fantasiosos e ilógicos – tão logo
Aécio Neves ganhou as eleições , Arminio Fraga e Neca Setúbal subiram os juros
e adotaram o receituário ortodoxo recomedado pelos banqueiros que fumam
charutos e somem com o prato de comida da mesa das criancinhas. Até os
subsídios ao BNDES a trinca já cogita reduzir! Dane-se a verdade.
No vale-tudo das eleições brasileiras, se
Jesus Cristo fosse candidato, o marqueteiro de Dilma, João Santana,
demonstraria que o PT fez mais em 12 anos do que o filho de Deus em 33. O maior
milagre de JC foi multiplicar peixes e pães dando de comer a cinco mil fiéis na
Galiléia, enquanto o Bolsa Família atende 56 milhões de pessoas! A frase “Vinde
a mim as criancinhas...” seria apresentada como conotação de pedofilia. Pobre
Jesus Cristo. Antes morrer na cruz.
Nestas eleições, desconstrução foi
sinônimo de mentira, intimidação, calúnia e difamação. A maior vítima foi a
candidata Marina Silva, que se comparou a Davi enfrentando dois Golias. Com
poucos minutos diários na TV, sem a funda e as pedras, sucumbiu , às barbas do
Tribunal Superior Eleitoral, que só coibiu a baixaria no final das eleições. Por
essas e outras, a reforma eleitoral deveria debater o favorecimento descarado
dos que concorrem exercendo mandatos de deputado, senador, governador e
presidente da República utilizando verbas públicas para combustíveis, telefones,
locações e até os palácios. Além disso, é necessário discutir limites para os
valores das campanhas, as relações promíscuas entre doadores, partidos e
candidatos, a reorganização do Fundo Partidário e do horário eleitoral
gratuito, entre outras questões.
Enfim, após eleita, Dilma se vestiu de
branco e pregou o diálogo. Ao contrário do que afirmava, preocupou-se com a
contenção da inflação, a retomada do crescimento e o reequilíbrio fiscal. No pacote
incluiu surradas promessas de reduzir as despesas com seguro-desemprego, abono
salarial e auxílio-doença. Assim, espera resgatar a credibilidade das contas
públicas – maquiadas pela contabilidade irresponsável – e evitar que o Brasil
perca grau de investimento.
Até que ponto o festival de notícias
impopulares teria afetado a votação da presidente reeleita, caso tivesse
acontecido antes de 26 de outubro, são outros quinhentos. Mas, convenhamos, se
não é estelionato eleitoral, é muita cara pau.
Como o personagem de Collodi faz parte de
uma fábula e os narizes dos políticos não crescem, resta-nos sugerir nas próximas
eleições a adoção do detector de mentiras. Caso contrário, Pinóquio vai acabar
presidente... .
Se não é estelionato eleitoral, é muita cara
de pau o festival de notícias impopulares após 26 de outubro.
Gil
Castello Branco, economista é fundador da ONG Associação Contas Abertas
E-mail: gil@contasabertas.org.br


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Todo comentário e crítica construtiva é bem vinda. Destaco que não julgarei e respeitarei sua opinião, mesmo sendo diferente da minha.