Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"POR OLAVO DE CARVALHO - QUEM É FILÓSOFO E QUEM NÃO É"

 Já dizia meu amado Goethe...

"Não entrarás no paíz das idéas!".

Eu sou, no entanto conhecido na margem.

Quem não se gaba de conquistar as ilhas,

tem ao menos permissão de lançar ancora."

== Eu & Goethe , Goethe & Eu ==

Eu também me considero à margem.

Não me considero sábia nem filósofa.

Apenas amante do conhecimento.

Que tem consciência dos desafios para quem mergulha no mundo das ideias. 

Meu maior medo confesso é ficar apenas no mundo das ideias e perder o contato com o real. E enlouquecer... 

Mestre Olavo de Carvalho também já dizia que uma das condições para entrarmos na Filosofia é aceitar a realidade. É buscar a "unidade do conhecimento na unidade da consciência". É isto que venho tentando fazer, com toda minha humildade e ignorância.


Por Olavo de Carvalho – 7/5/2009

Diário do Comércio – 8 de maio de 2009

 Quem é filósofo e quem não é

Cobrar ensino público e qualidade não adianta. Melhor seria ajudar autoditadas.

 No afresco A Escola de Atenas, Rafael reúne estudiosos antigos, como se fossem amigos conversando. No detalhe, Platão e Aristóteles.

 À medida que se a consciência do debate total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

 Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se querem prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os auditadas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajuda-los era pôr ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe.

 Cheguei a conceber uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

 Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se  aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

 Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez , por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak, o Seminário de Filosofia Online  e outros projetos em andamento. E não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é de uma bibliografia filosófica essencial. Impossível.

 O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base da tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir, à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

 Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele -, a primeira coisa que fazia era analisa-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia melhor.

 A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.

 A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega ao domínio da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

 Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as ideias de um filósofo, e leva-las à prática fielmente, como se fossem nossas. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fosse papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa  “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

 Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

 Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

 Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

 1.Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dais quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente, os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você adquirir numa universidade brasileira.

 2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema via mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leio-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, contribuição original ao debate.

 É assim que se faz, é assim que se estuda filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.

 Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

 

Fonte:

http://www.dcomercio.com.br/ImpressaoMateria.aspx?materia=16855&canal=39

 Segue um breve resumo das partes que considerei mais relevantes.

 1)Método  do Pe Stanislavas Ladusâns quanto às estratégias de ataque a um novo problema filosófico:

 1º passo: a análise do problema precisa ser feita com “abstinência de crítica ou julgamentos”, ou seja, deve ser feita como se você fosse um discípulo fiel.

 2º passo: analisar em ordem cronológica o problema de acordo com o ponto de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto.

 3º passo: analisar em ordem cronológica (e crítica) o método usado pelo autor para tratar do problema.

 4º passo: fazer este exercício com pelo menos 2 dúzias de filósofos. E verificar os seguintes pontos:

 - quais são as principais dificuldades

- como aparecem suas contradições

- como eles lidam com as dificuldades e contradições em seu próprio pensamento

- por fim articular este autor com os elementos mais sólidos fornecidos pelos outros pensadores e verificar a solução que lhes pareça melhor.

 

2)Não esquecer de seguir a orientação de Aristóteles quanto ao Exame Dialético.

 1º passo: análise , o 1º, 2º e 3º  passos do método do Pe Stanislavas Ladusâns,  deve-se iniciar-se com pelo “recenseamento das “opiniões dos sábios”.

 2º passo: feita essa análise do recenseamento das opiniões do sábios” é importante articular todo esse material como se fosse uma teoria única.

 3º passo: levar em consideração que “Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores para compreender o  status quaestionies.”

 

3) Teoria Única – Em que sentido?

“Cada filósofo tem pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que as questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso. – status quaestionei – “estado em que a questão chegou a ele.” – Como ficou a questão, ou problema. Ou que: Quais foram as conclusões do autor.

 

 4) “A Filosofia é uma tradição  e a Filosofia é uma Técnica.”

Como você consegue absorver a tradição filosófica através da técnica?

Respostas:

1º passo:

Através do exame dialético proposto por Aristóteles e pelo método do Pe Stanislavas Ladusãns.

“Praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.”

 2º Passo:

Vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto.

 3º Passo:

Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito.

 Obs: Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo.

 4º Passo:

Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância.

 5º Passo:

Procurando sempre averiguar onde a discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão.

 6º Passo:

Feito tudo isso (os passos anteriores) monte tudo de novo em ordem lógica – como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas – (atenção , não em ordem histórica)

 “Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e confrontando-o com o legado da tradição , dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.”

 

 Meu Testemunho - Minha experiência na Filosofia. 

Ainda não fiz mas pretendo fazer, meu relato sobre esta longa viagem que começou há mais de uma década.

 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todo comentário e crítica construtiva é bem vinda. Destaco que não julgarei e respeitarei sua opinião, mesmo sendo diferente da minha.