Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Pensamentos de Grandes Mestres

"Mude , mas comece devagar,porque a direção é maisimportante que a velocidade."

                                                         Clarice Lispector



"Respire, ame e fique feliz, o resto é secundário."

                               Autor Anônimo


"A vida é uma professora tão boa, 

 que se você não aprende a lição, 

repete."


                                Autor Anônimo



"Sem a educação das sensibilidades

todas as habilidades são  tolas

     e sem sentido."   


                                    Rubens Alves


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

FERIDAS


Quando as feridas são profundas,
É difícil perdoar.

Quando se toma consciência de que
tais feridas ainda não cicatrizaram 
totalmente,
Percebemos que ainda é difícil perdoar.

Pois quando as tocamos 
ainda sentimos muita 
dor e mágoa.

Aí então descobrimos que ainda não perdoamos.

Passamos por acontecimentos na vida 
que nos deixam marcas.

E sua regeneração depende do tempo e da forma
como lidamos com os nossos próprios sentimentos.
E também de como expomos 
nossas emoções e pensamentos.


Escrito em 02 de abril de 2003 por Djane  Bouças, autora deste blog






sábado, 2 de julho de 2016

ORAÇÃO: "AUGUSTA RAINHA DOS CÉUS"

Oração transcrita pelo Pe. Luis Eduardo Cestac no dia 13 de janeiro de 1864 em ocasião da aparição de Nossa Senhora

Oração : "Augusta, Rainha dos céus"

Augusta Rainha dos Céus, soberana mestra dos Anjos,
Vós que, desde o princípio, recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás,
Nós vo-lo pedimos humildemente,
Enviai vossas legiões celestes para sob vossas ordens,
e por vosso poder,
Elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte,
Reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo.
Quem é como Deus?

Ó mãe de bondade e ternura,
Vos sereis sempre o nosso Amor e nossa esperança.

Ó mãe divina
Enviai os Santos Anjos para nos defenderem,
E repeli para longe de nós o cruel inimigo

Santos Anjos e Arcanjos
Defendei-nos e guardai-nos.

Amém

terça-feira, 28 de junho de 2016

Conversa com Deus

Das dores que sinto converso com Deus
Peço a Ele forças  para superá-las
E compaixão, pois  há pessoas com dores maiores.


terça-feira, 10 de março de 2015

SERVIR E SER SIMPLES

Minha intenção é trabalhar este texto com os alunos da NEJA I com o objetivo de trabalhar histórias de vida - Trajetórias individuais dos meus alunos - Quem é o aluno da NEJA? Será que conseguirei? 
Destaco que respeito todas as crenças religiosas e até mesmo os Ateus.
Mas peço lhes que tenham o coração aberto a evolução espiritual.
Afinal de contas o que nos distingue dos demais seres vivos e dentro do reino animal é a nossa capacidade de refletir, de pensar quem nós somos e para onde queremos ir. E o que podemos fazer neste momento. A revolução tem que partir dentro para fora? Ou de fora para dentro? Em outras palavras: Você vai esperar a sociedade mudar para mudar seu interior? Ou você mesmo terá a coragem para ser o agente da sua própria mudança?


Livro:  Asas para Voar – 2ª edição 2009
Autor: Dom Cipriano Chagas, OSB

Quem é Dom Cipriano Chagas?

Dom Cipriano Chagas, OSB
Nascido em Passos (MG), em 13 de fevereiro de 1923. Foi casado com a jovem Rachel que o resgatou para o cristianismo e a Igreja Católica. Deste matrimônio o fruto foi Eduardo que logo veio a falecer e, um ano depois, Rachel também veio a falecer. Homem experimentado, encontrou no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, o novo sentido de sua vida, ser sacerdote do Deus Altíssimo. Trabalhou durante  muitos anos na direção espiritual de casais e de muitas famílias.. Também é um dos precursores da Renovação Carismática Católica no Brasil, fundador –presidente da Comunidade Emanuel (RJ). Fundador da revista Jesus Vive e é o Senhor da Edições Louva-a-Deus. Tem mais de 40 livros publicados e cerca de 10.000 palestras gravadas.


Capítulo 8 – Servir e Ser Simples – págs 91 a 96

     Embora Jesus chamasse os discípulos para estar com ele, eram também enviados a pregar e “a curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar leprosos, expulsar demônios” (Mt 10,8).  Logo que chamou Simão e André, disse-lhes que os mudaria em pescadores de homens (Mc 1,17). Os setenta foram enviados no nome de Jesus ocmo mensageiros da paz: “Curai os enfermos... e dizei-lhes:  ̔o reino de Deus chegou para vós” (Lc 10,1-20). Jesus tinha vindo para dar a sua vida pelos outros e seus discípulos deviam fazer exatamente o mesmo.

     No entanto, nem sempre o compreenderam. Jesus descobriu repetidas vezes que seus discípulos caíam em duas tentações iguais e opostas, que tolhiam seu espírito de serviço. A primeira tentação era ser ambiciosos. Várias vezes viam-se discutindo  sobre quem era o maior. Quando Tiago e João pediram os lugares de maior honra no reino dos céus, demonstraram o espírito do mundo que busca status em vez de serviço. Jesus os repreendeu:  “Quem quiser ser grande entre vós,seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o vosso escravo; assim como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a  sua vida  em resgate de muitos.” (Mt 20, 26-28): Mais tarde demonstrou esse espírito de serviço de um modo que eles nunca esqueceram: enrolando uma toalha em sua cintura e ajoelhando-se , lavou os pés dos discípulos.

     A segunda tentação deles era a autoridade.”Eis que deixamos nossas casas e vos seguimos”,protestou Simão Pedro. Mas Jesus lhe  assegurou que ele “receberia muitas vezes mais neste tempo, e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18,28-30).Embora precisemos ser honestos sobre  nossas próprias fraquezas ,no momento em que caímos na autopiedade, prejudicamos a obra de Deus em nossas vidas. É apenas quando aceitamos nossa fraqueza humana, sabendo que a graça de Deus é suficiente, desejando apenas o reino de Deus, poderemos servir os outros com o espírito amoroso,gracioso e  humilde de Jesus Cristo. O servo não deve exigir certas condições de serviço. Ele renunciou a seus direitos, e  pode bem ter que passar sem confortos e recompensas normais. Ao crescermos em anos , é fácil procurar privilégios, posição e respeito. Não foi este o caminho de Jesus.

     Nestes nossos tempos de publicidade é fácil apresentar Jesus como aquele, que satisfará todas as suas necessidades. Está ansioso? Jesus lhe trará paz! Está perdido? Jesus o ajudará a encontrar a verdadeira direção! Está deprimido! Jesus encherá tua vida de alegria! Tudo isto  é parte das boas novas de Jesus, ele anseia por satisfazer nossas mais profundas necessidades. Mas é apenas metade da história. Na prática, muitas das nossas necessidades serão satisfeitas ao dar-nos em serviço a Jesus e aos outros. Aqueles que estão prontos a perder sua vida, encontrá-la-ão. É ao darmos que Deus nos dará – “uma boa medida, sacudida, transbordante, será posta em vosso colo. Pois a medida com que medirdes será usada para vos medir.” (Lc 6,38). Quando os setenta saíram a pregar e a curar, voltaram cheios de alegria por causa de tudo o que tinham experimentado (Lc 10,17).

     As necessidades do mundo são imensas. Deus quer alcançar todos os que estão clamando por ajuda;mas escolheu agir primeiro por seus discípulos. Se ficarmos tomados com nossas próprias necessidades pessoais ou estivermos buscando posição, estatus na igreja ou no mundo, seremos de pouco ou nenhum uso para Deus.



                                VIVER COM SIMPLICIDADE – págs 93 e 94

     O discípulo de um rabi podia renunciar  a muitos benefícios materiais para estudar a Torah, mas sabia que seria  por tempo limitado. Seria recompensado financeiramente por sua diligência quando por sua vez assumisse o papel de mestre. Com Jesus era inteiramente diferente. Ele pôs de lado toda segurança mundanda e conforto material. Muitas vezes não tinha onde repousar a cabeça. Chamou seus discípulos também a uma vida de humildade e pobreza. Embora fosse do bom prazer do Pai dar-lhes o Reino, deviam vender seus bens e dar em caridade. Jesus lhes disse: “Não levem ouro nem prata,  nem cobre em seus cintos, nenhum saco em vossas viagens, nem duas túnicas, nem sandálias, sem cajado;pois o operário merece o seu alimento” (Mt 10,9-10). Como seu Mestre, deviam estar dispostos a deixar suas casas, suas famílias, suas ocupações e sua segurança pelo Reino de Deus. Mas ao fazerem o Reino sua meta mais elevada,  tudo aquilo de que precisavam lhes seria provido.

     Convém salientar que discipulado tão radical aplicava-se primariamente àqueles que eram chamados a uma vida de plena comunidade com ele. Outros discípulos que não eram atraídos a uma comunidade tão íntima, pareciam ter guardado alguma coisa de seus bens  materiais, e ajudavam a prover a Jesus e aos Doze. Não obstante,  os discípulos do Novo Testamento eram encorajados a viver uma vida simples em que tinham seus bens “em comum”  (At 4,32).

     A relativa riqueza de muitos cristãos de hoje, especialmente no Ocidente , é quase certamente uma pedra de tropeço ao discipulado efetivo. É improvável que Deus nos confie as verdadeiras  riquezas espirituais enquanto não ver que estamos genuinamente servindo a ele  e não ao dinheiro. É quando podemos aprender a viver no princípio do contentamento (1Tm 6,6-10) do Novo Testamento que Deus  nos confiará os dons de seu Espírito que enriquecerão nossas próprias vidas bem como as daqueles a quem servimos.



                                  CHAMADOS  A SOFRER –págs 94 a 96

     Quando Jesus chamou seus discípulos a segui-lo, tinham que estar dispostos a seguir o caminho da cruz. Se deviam partilhar suas vidas uns com os outros, precisavam partilhar a dor e a alegria. “Pois foi-vos concedido não apenas crer em Cristo mas também sofrer por ele.” (Fl 1,29)

     Jesus tentou prepará-los para isto falando claramente sobre seus próprios sofrimentos e os que seus seguidores teriam de suportar.  Mas não podiam, ou não queriam, compreender essas advertências. Lemos em Mateus 16 que “daquele momento em diante Jesus começou a mostrar a seus discípulos que ele devia ir a  Jerusalém e sofrer muitas coisas da parte dos anciãos e sumos sacerdotes e escribas, e ser morto...”  Pedro imediatamente protestou: “Que Deus não permita isto, Senhor! Não, Senhor, isto nunca lhe acontecerá.” Isto lhe valeu uma repreensão pungente:  “Afasta-te , Satanás! És para mim uma pedra de escândalo! Tu pensas como os homens e não como Deus.”  E no caso de os discípulos manterem quaisquer outras ilusões, Jesus começou falar claramente sobre os sofrimentos deles também. “Se alguém quer vir após mim, que se segue  a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida perdê-la-á, e quem perder sua vida por minha causa encontra´-la-á...”. A vida para o Senhor terminou com rejeição, dor e morte dolorosíssima. O discípulo nunca deve surpreender-se seguir Jesus o levar pelo mesmo caminho.


SOFRIMENTO FÍSICO – págs 94 e 95

Muitos sofreram perseguição física. Pedro e João foram presos e espancados por sua ousadia; Estevão foi apedrejado até morrer; Tiago foi morto a espada. Pouco tempo depois, “uma grande perseguição levantou-se contra a igreja em Jerusalém ,e todos foram dispersados”. (At 8,1). Mais tarde, São Paulo escreveu que fora açoitado cinco vezes com 39 golpes do açoite judaico, três vezes com varas, e também fora apedrejado. A maioria dos apóstolos sofreu o martírio de uma forma ou de outra. Durante aqueles  primeiros anos de Igreja, pavorosa perseguição veio de uma série de imperadores romanos: Nero, Domiciano, Trajano, Plínio, Marco Aurélio, Décio, Dioclesiano. Com vários graus de ferocidade essa perseguição continuou através da Igreja cristã. Em anos recentes, e mesmo hoje, milhares de cristãos em todo o  mundo têm sido aprisionados e torturados por sua fé. Estima-se que houve mais martírios por Jesus no século passado do que no resto da história da Igreja.

     Nada disso é surpresa. Jesus advertiu seus discípulos quanto aos perigos físicos que estavam à sua frente: “Acautelai-vos dos homens; pois vos entregarão aos conselhos e vos flagelarão em suas sinagogas, e sereis arrastados diante de governadores e reis por minha causa... Irmão entregará irmão à morte, e o pai entregará seu filho, e filhos se levantarão contra pais e os matarão; e sereis odiados por todos por minha causa...” (Mt 10,17.21-22).



DOR MORAL E EMOCIONAL – págs 95 e 96

     Não nos é difícil sentir algo da tristeza de São Paulo quando escreveu: “Dimas, por amor a este mundo, abandonou-me... Crescêncio foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia.... Alexandre , o ferreiro, fez-me grande mal....”  (2Tm 4,10.14) Também nos ferimos e nos sentimos desapontados uns com os outros  pois somos, no melhor, uma comunidade de pecadores. Frequentemente precisamos perdoar e ser perdoados, e o perdão é sempre doloroso. Ele custou a Jesus sua  morte na cruz. Para nós, também, poderá ser uma experiência de cruz perdoar alguém que nos feriu muito.



DOR ESPIRITUAL –p.96

     São Paulo uma vez escreveu sobre o esmagador fardo que sentia por seus irmãos judeus que não criam em Jesus como seu Messias:  “Sinto grande pesar, incessante amargura no coração. Porque eu mesmo desejaria ser reprovado,separado de Cristo, por amor dos meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, segundo a carne.” (Rm  9,2-3) E durante seu ministério em Éfeso disse que “por três anos cessei, noite e dia, de  admoestar, com lágrimas, a cada um de vós.” (At 20,31). Deus, em sua grande compaixão,  “estende suas mãos todo dia a um povo rebelde”. Tendo-nos feito à sua imagem, ele anseia por que partilhemos de seu amor. Pois que o amor nunca se forçará a pessoas que não o desejem, Deus nos vê afastar-nos dele e uns dos outros; ele nos vê ressentindo-nos, odiando-nos, matando-nos uns aos outros. Enviou seu Filho para trazer paz à Terra, mas porque não queremos que ele reine sobre nós,  a desconfiança, a confusão, a amargura e a guerra poluem a face da terra.

     Será surpresa que um Deus amoroso esteja sentindo? Quando Jesus chora por seu corpo, a igreja dividida, ferida, quebrada, não nos comoveremos? Quando Jesus chora, como uma vez o fez diante do túmulo de Lázaro, ao ver os estragos causados hoje pelo pecado do homem, ficaremos apáticos? Quanto mais amarmos Jesus, quanto mais próximos estivermos de seu grande coração de amor, tanto menos nos surpreenderemos de sentir a sua dor.

     O sofrimento está inevitavelmente entretecido no discipulado, finamente entrecruzando-se com a alegria. Mas é no sofrimento que Deus trabalha mais profundamente em nossas vidas. Aqueles que têm maior sensibilidade e profundidade espiritual têm experimentado maiores sofrimentos.








quarta-feira, 4 de março de 2015

SER HUMANO UM SER SÓCIO CULTURAL

Sociedade e Cultura – Apostila de Sociologia
Texto   -  Ser humano um ser sócio – cultural:

           O que significa isso, sócio-cultural? E qual a importância da cultura?

      Quando falamos que o ser humano é um ser sócio-cultural na realidade estamos chamando atenção para o fato de que o ser humano precisa estar dentro de uma sociedade e necessita pertencer a uma determinada cultura. Sócio porque o ser humano, o indivíduo depende dos outros para viver e precisa viver em sociedade para sua própria  sobrevivência, por isso precisa fazer parte de um certo grupo social ; por exemplo: a família é considerada o primeiro grupo social (grupo social primário), ao nascer o indivíduo já está automaticamente inserido dentro de um grupo que faz parte da sociedade. Mas o que é sociedade? Vejamos algumas definições de sociedade:


Sociedade

“Sociedade é um conceito fundamental em sociologia porque é nesse nível que são criados e organizados os elementos mais importantes da vida social. Virtualmente , todos os sistemas sociais de que participamos – da família e religião às ocupações e aos esportes – são, de certa maneira, subsistemas de uma sociedade que define seu caráter básico.”[1]

“Para Fichter, a sociedade é uma “estrutura formada pelos grupos principais, ligados entre si, considerados como uma unidade e participando todos de uma cultura comum”.[2]

      Então, essa sociedade está definida geograficamente num determinado espaço, ou seja, num território que representa uma nação e que forma um Estado[3]. E essa nação tem uma cultura, fala uma língua, tem seus hábitos , suas regras sociais e sua história. Assim, se nascemos no Brasil, somos brasileiros, isso significa que estamos vivendo no Brasil e estamos sendo  socializados dentro da cultura brasileira. Por isso, o ser humano é um ser sócio cultural, o indivíduo ao nascer já está dentro de um grupo social, a família , considerada um “subsistema” da sociedade, ou seja, já nasce dentro da sociedade, mas esta sociedade tem sua cultura e é através da vida em sociedade e da socialização que o indivíduo vai cada vez mais assimilando a sua cultura.  Cultural, porque o ser humano ou o indivíduo ao nascer, além de já estar inserido dentro de um grupo social que é a família, ele automaticamente também está dentro de uma sociedade , que tem como representação política um Estado e que fisicamente está sobre um território que fala uma determinada língua e que tem certos costumes, ou seja uma nação.  Essa nação tem uma cultura, fala uma língua, tem sua história , seus costumes e regras. Vejamos, se nascemos no Brasil, somos brasileiros, isso significa que estamos dentro da cultura brasileira e que aqui aprendemos a falar, ler e escrever na língua portuguesa, que a língua oficial de nosso país. Lembrando que para vivermos em sociedade somos obrigados a entrar em contato com vários grupos sociais.

     Qual a importância da cultura? É através da cultura que vamos nos completando e aprimorando uma característica única do ser humano que é  a linguagem principalmente a verbal.

     A medida em que aprendemos a falar, vamos assimilando a língua de nosso país e ao mesmo tempo vamos sendo socializados. É importante chamar atenção para o processo de socialização e também para a aprendizagem da língua, que faz parte da socialização, pois através dele começamos a educação e a transmissão de valores , costumes  e regras de uma geração para outra. Gilberto Freyre chama atenção para o seguinte: “É pelo grupo que a cultura se comunica ao indivíduo e pela vida em grupo que o indivíduo passa de indivíduo biológico a indivíduo social”. Portanto, podemos dizer que a cultura é transmitida através da socialização, e que a socialização é fundamental para fazermos  a passagem do natural/biológico para o cultural. Emille Durkheim, sociólogo francês do século XIX argumentava que a cultura já estava lá antes do indivíduo nascer e continuará mesmo depois de sua morte, quer dizer,  a língua portuguesa , os costumes, as tradições, as regras já existiam antes do indivíduo continuaram a existir depois dele morrer. Por isso ele afirmava: os indivíduos passam, mas a sociedade permanece.

“A pessoa social ou humana, ou simplesmente pessoa, é resultado de processos sociais e de cultura anteriores ao aparecimento do indivíduo e sobreviventes ao seu desenvolvimento individual ou puramente físico-químico e biológico no espaço e no tempo. O indivíduo nasce dono do que os biólogos chamam  a “base orgânica” para necessária para desenvolver –se em pessoa ou em pessoas sociais: senhor de órgãos e  sentidos que estabelecerão o contato entre o que é nele verdadeiramente hereditário, natural e individual e a vida social e a cultura. Mas aquele desenvolvimento se opera em grande parte, através da organização social e da cultura dentro das quais o indivíduo se torne socius ou pessoa. Organização de que ele depende, antes mesmo de nascer, e que vai depender dele, mesmo depois dele morrer.”[4]

     A citação acima entre aspas serve para reforçar o que foi dito por Durkheim, “os indivíduos passam, a sociedade permanece”,  e para mostrar que todo ser humano já nasce com o “equipamento biológico” mas é com o passar do tempo que ele vai tornar-se socius ou pessoa, e isso só ocorre a medida em que ele vai sendo socializado em determinada sociedade que tenha uma  certa cultura. Como isso ocorre? Através da linguagem (principalmente da língua).


Eis a questão: O que é natural/biológico e o que é cultural?

       Vejamos o que Gilberto Freyre fala sobre esta questão:
    “O indivíduo nasce dono do que os biólogos chamam a “base orgânica” necessária para desenvolver-se em pessoa ou em pessoas sociais: senhor de órgãos e sentidos que estabelecerão o contato entre o que ele é nele verdadeiramente hereditário, natural e individual e a vida social e a cultura. Mas aquele desenvolvimento se opera em grande parte, através da organização social e da cultura dentro das quais os indivíduos se torne socius ou pessoa. Organização de que ele depende, antes mesmo de nascer, e que vai depender dele, mesmo depois dele morrer”.

    Podemos entender como “base orgânica” ou “equipamento biológico” o corpo humano, com suas células, seus órgãos e os sentidos; ou seja, aquilo que todo ser vivo e ser humano tem.  Quando falamos que todo ser humano  já nasce com o “equipamento biológico” estamos nos referindo ao corpo humano e os sentidos, mas só com o tempo  vai tornar-se “um ser social”, isso  ocorre a medida em que ele vai sendo socializado em determinada sociedade com uma dada cultura que têm uma determinada língua e certos costumes. Dito de outra maneira, só com o tempo  e através do processo de socialização que o indivíduo vai se tornando pessoa social, e isso só ocorre através da interação deste indivíduo com os grupos sociais, no caso, o primeiro a família e continua vida a fora a medida que o individuo vai entrando em outros grupos sociais e assimilando suas normas. Não é por menos que Gilberto Freyre afirma “É pelo grupo que a cultura se comunica ao indivíduo e pela vida em grupo que o indivíduo passa de indivíduo biológico a indivíduo social”

*”base orgânica”, “equipamento biológico” = corpo humano/ células – órgãos – os sentidos.
*Só com o tempo e através do processo de socialização (quando o indivíduo através de seu grupo social que vive dentro de uma sociedade, com determinada cultura vai sendo socializado).

    Voltando a questão acima , natural /biológico é importante chamar atenção que este refere-se ao que todo ser humano tem de igual, ou seja, todos nós nascemos com corpo, temos células e órgãos e  os sentidos. Precisamos de ar , precisamos de comida, sentimos frio, sentimos calor neste ponto somos todos animais e pertencemos ao Reino Animal. Cultural é aquilo que é criado e transformado pelo homem, formigas não tem cultura, agem por instinto; já o ser humano não. A cultura de uma dada sociedade é que também vai orientar seu comportamento, sua vida em grupo; por exemplo: japoneses comem de palitinho, nós , brasileiros comemos com talhares. E o próprio ato de aprender a comer com talhares ou de palitinhos já mostra a importância da socialização para o ser humano. Deste ponto de vista podemos dizer que há uma igualdade, afinal todos nós sentimos frio, calor... e precisamos de afeto, essa condição é de igualdade entre todos os seres humanos.

     O que nos diferencia dos demais animais é justamente a capacidade de dar significado as coisas, de falar, de usar a linguagem de várias formas. É através da cultura que nos tornamos de fato seres humanos, pois o que diferencia o ser humano é a sua capacidade de dar isso ocorre através principalmente através da fala (linguagem verbal), ao aprendermos nossa língua e ao assimilarmos nossos costumes e valores estamos entrando também em nossa cultura e vivendo intensamente o processo de socialização.

 
Obs: Como há inúmeras definições para cultura, vamos buscar entender cultura como sendo a capacidade que o ser humano tem de dar significado às coisas, aos sentimentos e aos acontecimentos.

Obs: Ao estudarmos Sociologia começamos a ficar mais atentos às palavras. Ou seja, estamos trabalhando com conceitos, o que significa dizer, que uma palavra pode ter vários significados. Por exemplo: quando falamos de igualdade, é interessante perguntarmos : De que igualdade estamos falando? Igualdade racial? Igualdade de gênero? Igualdade econômica?







[1] Fonte- livro Sociologia – Educação e conhecimento integrados 1, capítulo 7 – Indivíduo e sociedade: sociabilidade e socialização, p.55. Retirado de JOHNSON, Allan G. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
[2] Fonte- livro Sociologia – Educação e conhecimento integrados 1, capítulo 7 – Indivíduo e sociedade: sociabilidade e socialização, p.55
[3] Importante : aqui é interessante termos algum conhecimento sobre a formação dos Estados Nacionais.
[4] Desculpas, mas não sei de onde tirei essa citação, acho que de Gilberto Freyre

terça-feira, 3 de março de 2015

Estética: Arte e Vida Cotidiana

Livro Ética e Cidadania – Caminhos da Filosofia – 20ª Edição
Sílvio Gallo (Coord.) – Grupo de Estudos sobre Ensino de Filosofia

Unidade 9
Estética: Arte e Vida Cotidiana – p83 a 94

Jorge e Amanda estudavam juntos: cursavam a 3ª série do ensino médio numa escola pública, pois ambos trabalhavam. Ele, num banco; ela era vendedora numa loja de roupas. Sempre que podiam, juntavam uma turma após as aulas e, equipados com algumas latas de tinta spray , saíam loucos para encontrar um muro branquinho , onde pudessem fazer uma bela pichação. No começo, a coisa começou  meio na brincadeira: era gostoso sentir aquele medo de ser pego enquanto expressavam o que queriam.... Mas, com o tempo, a brincadeira foi ficando cada vez mais séria. As pichações ficaram cada vez mais elaboradas, com desenhos complexos e coloridos. Quando terminavam, ficavam admirando sua obra....  Mas, em momento algum, imaginavam que nada mais estavam fazendo do que expressar um dos sentimentos mais humanos: o gosto pela beleza e a vontade de criá-la com as próprias mãos.

     Nos dias de hoje, a palavra estética é usada em vários sentidos; todos eles, porém, partem do conceito original usado pelos gregos antigos, ou seja, designar aquilo que tenha a ver com os sentimentos, com os sentidos, com a percepção. Assim, a estética também está ligada à atividade artística, já que se preocupa com as obras que o ser humano faz com a finalidade de serem belas, e com os sentimentos que elas provocam em nós. Em termos gerais, podemos dizer que a estética é a área da filosofia que estuda a arte e suas relações com o ser humano.


A arte em nosso cotidiano

     Frequentemente, ouvimos dizer que arte é uma coisa inútil, ou vemos pessoas zombando de certas obras de arte de características pouco comuns em nosso dia a dia. Isso se dá porque elas não conseguem entender o que a obra significa, ou qual a “mensagem” que o artista  quis passar.  É preciso deixar claro que o ser humano, ou qual a “mensagem” que o artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser humano, pelas suas características biopsicossociais (o seu corpo, a sua razão e a sua convivência com outras pessoas), tem a tendência de se manifestar no mundo de maneira estética, procurando estabelecer em sua vida uma relação de beleza com tudo que o cerca. Essa manifestação, em alguns casos, tende a ser muito pessoal, pois o artista irá colocar sua impressão a respeito de um fato social ou da natureza retratando-o na obra.

     O artista pode determinar funções para sua obra. Alguma delas são:

Políticas:
A obra toma uma posição crítica a respeito de um fato ou problema social, denunciando uma injustiça, propondo uma ideologia política, ou simplesmente retratando a realidade de uma sociedade.

Religiosas:
Servem às necessidades místicas das pessoas, para afirmar determinada proposta religiosa, fazem parte do próprio culto em alguns casos, tal como as imagens sagradas da religião católica.

Pedagógicas:
Têm uma função social de colaborar na educação das pessoas, levando-as a compreender o mundo por meio dos objetos artísticos.

Naturalistas:
A obra tem a finalidade exclusiva de retratar a realidade; por exemplo: a fotografia 3X4 que você tem no RG

Formalistas:
Se preocupam exclusivamente com a técnica usada naquele tipo de arte.

     Por meio da técnica, o artista faz uso de conceitos práticos para “construir” sua obra de arte – o pinto mistura tintas para conseguir uma tonalidade mais clara ou mais escura e que dará mais força a seu trabalho.

     Por meio do conhecimento, o artista faz uso da experiência adquirida por si mesmo e pelos outros – o mesmo pintor sabe que misturando as cores amarela e azul irá conseguir a cor verde.
     Por meio da expressão, o artista faz uso da sua sensibilidade, de sua intuição e de sua imaginação para dar a sua obra um caráter único, fazendo do objeto algo cheio de sentidos, sentidos que irão tocar a todos que o virem – assim, o pintor irá retratar em sua obra o produto de sua criatividade pessoal, que comunique aos outros seus sentimentos e impressões a respeito de um fato qualquer, seja um fato social, seja um fato da natureza, seja mesmo um fato da sua imaginação.



Arte: Fundamento do mundo

     Antes de qualquer afirmação prematura, faz-se necessária uma interrogação: Por que é a arte o fundamento do mundo, como o título propõe? Por que a literatura, a música, a pintura, a escultura, que são manifestações artísticas, constituem a essência do mundo? Não seria mais correto afirmar que a economia, a dimensão econômica, seria o fundamento do mundo, já que todo dia e o dia inteiro usamos o dinheiro na compra de roupas da moda , do lanche no bar, do presente para o (a) namorado (a)? Vivemos no impassr e na torcida: Será que a inflação aumentará? Será que teremos aumento salarial? Até quando estaremos empregados?

     Ou não seria mais correto afirmar que a política  é  o fundamento do mundo, já que nossas vidas seguem o rumo das decisões tomadas pelos governantes? Vamos imaginar (a imaginação é um meio de criação artística) a seguinte situação: o governo, para acabar com o déficit  público, decide elevar todos os impostos em 60%, por exemplo. Diante dessa situação, centenas de grandes empresas decidem fechar suas fábricas aqui, pois o custo de produção seria muito elevado, transferindo a produção para outro país. Consequência dessa medida: milhares de desempregados. Quase que anualmente estamos votando para deputado, senador, vereador, presidente, governador, prefeito, síndico, presidente de sindicato ou centro  comunitário. Vivemos na esperança de que essas pessoas – que deveriam representar as nossas vontades – tomem decisões que tornem nossas vidas melhores.

     Mas, voltemos a nossa questão inicial e, para tal, lembremos as palavras do filósofo alemão do final do século XIX , Friedrich Nietzsch: “A partir de agora, o domínio da ciência só se produz pela arte. Trata-se de juízos de valor sobre o saber e o saber muito. Tarefa imensa e dignidade arte nesta tarefa! Ela deve recriar tudo e recolocar sozinha a vida no mundo”.

Vivemos, seguramente, graças ao caráter superficial do nosso intelecto, numa ilusão perpétua: temos então, para viver, necessidade da arte a cada instante. A nossa visão prende-nos às formas. Mas se somos nós próprios quem, gradualmente, educa essa visão, vemos também reinar em nós uma força de artista. Mesmo na natureza se encontram mecanismos contrários ao saber absoluto: o filósofo reconhece a linguagem da natureza e diz: “Temos necessidade da arte” e “só precisamos de uma parte do saber” (O livro do filósofo, aforismos 39 a 51)
.

     É a arte o fundamento do mundo, pois todas as coisas existentes possuem forma, cor , textura, peso, cheiro , e esses objetos são apreendidos pelos nossos sentidos e pela nossa razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre vazão ao seu imaginário, tornando reais seus desejos, suas fantasias e seus sonhos.

     O homem é um ser sociável, vive circunscrito numa sociedade e convive com seus semelhantes. As coisas que criamos têm por objetivo despertar no outro sensações de prazer ou dor; admiração ou repulsa; aprovação ou desaprovação. Criamos coisas, sejam belas ou feias – não importa, pois beleza e feiura são conceitos subjetivos - , para despertar sentimentos no outro. Criamos coisas para tocar no mais íntimo dos sonhos e desejos. Criamos coisas para serem aprovadas ou desaprovadas, amadas ou odiadas, não importa, pois o que realmente interessa é que esses objetos toquem o fundo da alma das pessoas. E é esse justamente o objetivo de toda obra de arte: despertar sentimentos, sensações, tornar presentes sonhos e desejos que tanto escondemos e reprimimos.

     Quando olhamos uma pessoa que achamos belíssima, olhamos e ficamos como que hipnotizados por tal beleza de formas e contornos. Não conseguindo disfarçar o olhar, em nosso íntimo, desejos perversos, românticos e eróticos de tocar, experimentar, possuir afloram com intensidade vulcânica. Ou quando olhamos uma foto, em um jornal ou revista, de uma senhora com avental, chinelos e lenço na cabeça. Ao olharmos tal foto, somos transportados para um passado distante, para um período de nossa infância. Essa fotografia nos faz recordar de um momento feliz, das brincadeiras de rua, da bola, da corda, das paqueras de criança, da ausência de relógio. Faz recordar a eternidade do passar dos dias, tal a intensidade com que eram vividos;  a liberdade e a despreocupação com o futuro. Tal fotografia nos faz recordar da vida vivida a cada instante, do paraíso vivido e perdido.

     Imaginemos a seguinte situação: estamos abarrotados de coisas a serem estudadas para o vestibular no fim do ano. Estamos trancafiados e sufocados nesse cubículo que é a aprovação num vestibular, a escolha de uma profissão,  e estamos  uma pilha de nervos tal o grau de responsabilidade, tais as cobranças e as preocupações que recaem em nossas costas. De repente, uma música invade o quarto, passando pelas sólidas paredes. Começando a ouvir a música, nossa atenção é desviada dos estudos. Lutamos para retornar aos livros, mas não conseguimos fechar. A música invadindo nosso ser, tomando conta dos nossos sentimentos, tornam aflorar antigas paixões. A música torna presente amores vividos e perdidos, carinhos, beijos, toques; lugares e momentos desfrutados a dois; uma época em que o outro é o sentido da vida. E, nesse louco sentimento, entregamo-nos de corpo e alma aos prazeres ou dores despertados pelas recordações. Nessa viagem pelo passado, damo-nos conta de que lágrimas brotaram em nossos olhos, tal a intensidade de tais lembranças e, nesse momento, o que importam os estudos, os vestibulares, a faculdade , a profissão e o futuro?

     No fenômeno artístico, percebemos a verdadeira natureza da realidade; a arte é a condição de um princípio ontológico do ser; é a chave que nos permite o acesso à essência do mundo; é o caminho mais original e autêntico de compreensão da realidade.

     A arte é o centro da vida, e é a partir dela que deciframos o mundo. É somente com os olhos da arte que o homem consegue apreender a sua essência, pois esta se manifesta sob a forma artística.

     A existência humana, o mundo e todas as manifestações da vida são, fundamentalmente , fenômenos artísticos. É na arte que temos a transfiguração de tudo o que existe, seja o belo, o sublime, seja o horrível, a fealdade. É na arte que encontramos a essência do existente, pois tudo que vemos e apreendemos é manifestação artística. A arte é  a luz que nos permite conhecer a vida e o mundo, pois tanto a vida como a existência são categorias estéticas. Nós, seres humanos, somos manifestações artísticas; a vida é uma grande obra de arte; o mundo é, essencialmente, arte.

     Se é pela arte que conhecemos mundo e a vida, podemos perguntar: Qual é o caminho que a arte adota para conhecer o mundo? Qual é a categoria interpretativa da arte? A tal interrogação podemos responder: a intuição. A arte exige a certeza imediata da intuição. As ideias fundamentais e essenciais possuem a forma de iluminação intuitiva. Nesse aspecto, a razão é situada num segundo plano, pois o conhecimento racional é extremamente limitado se comparado com a intuição. A arte é apreendida pela intuição e não pela razão.



A tragédia de Édipo

     Os gregos antigos, ao inventarem o teatro, criaram duas formas de representar a realidade nos palcos: a comédia, que procurava representar a vida pela farsa e despertar risos na plateia; e a tragédia que, ao contrário, trabalhava com o drama e procurava emocionar a plateia, fazendo com que cada um se reconhecesse nos fatos representados. Para eles, o teatro não era uma simples forma de diversão, mas um importante fator de regulação da vida social, uma atividade que representava o cotidiano vivido pelas pessoas e as ajudava a refletir sobre a vida.

     O que entendemos por tragédia? A tragédia está, fundamentalmente, em relação com a vida concreta, com nossa existência. Na tragédia, temos a contínua erupção de momentos “aterrorizantes”, em que a felicidade se dilui se tornando um nada, e de momentos “sublimes”, nos quais o estado de felicidade é desfrutado. Na tragédia, temos a manifestação concreta da nossa vida, pois vida é exatamente isto: uma gangorra que ora pende para a felicidade e ora para a infelicidade; para a paz ou para a angústia. A contínua troca de estados é a própria natureza da tragédia e da vida.

     Para melhor ilustrar esse conceito de tragédia, reproduziremos, de forma muito sintética, o enredo de uma tragédia grega clássica escrita por Sófocles e intitulada Édipo-Rei.
     Nessa peça de teatro, os acontecimentos se passam em Tebas, cidade grega, cujo rei – Laio – e sua esposa e rainha – Jocasta – aguardam o nascimento do futuro herdeiro do trono. Ávidos por conhecer o futuro e prevenir-se de qualquer acontecimento inesperado, Laio e Jocasta dirigem-se ao oráculo de Delfos para saber , do deus Apolo, o que o futuro reservava a ele. Diante do inusitado questionamento, Apolo pronuncia a seguinte sentença: “O teu filho matará o pai e desposará a mãe.” O filho do rei, e herdeiro do trono, cometerá dois gravíssimos crimes: parricídio e incesto. O herdeiro será criminoso e imoral.

     Para impedir que a terrível profecia se concretize, Laio e Jocasta decidem matar o próprio filho, assim que ele venha ao mundo. Quando do nascimento da criança, cujo nome será Édipo, os reis ordenam a um escravo que a leve para longe da cidade e a mate.

     Com a consciência de que tal acontecimento – a morte da criança – acabaria com qualquer possibilidade de confirmação da previsão do oráculo, Laio e Jocasta retornam à tranquilidade de espírito. Porém, o escravo incumbido de liquidar Édipo acaba por criar um vínculo amoroso com ele e, com pena de matá-lo, entrega-o a um viajante, que o leva para uma cidade longínqua – Corinto – onde é adotado pelos reis.

     Édipo, sem saber que era filho adotivo, cresce em Corinto amando seus supostos pais e sendo preparado para ocupar o trono real. Diante do que lhe guardava o futuro, Édipo deseja conhecer o amanhã, e se dirige para o oráculo de Delfos. Lá, ouve do deus Apolo a mesma sentença: “Matarás te pai e te  casarás com tua mãe.” Aterrorizado com tal futuro, Édipo foge de Corinto,  foge do futuro, foge da possibilidade de confirmação da sentença, pensando que lá residiam os seus verdadeiros pais, e se dirige , fortuitamente, para Tebas.

     No caminho que leva a Tebas, Édipo encontra-se com uma expedição e, entre gozações e provocações, começa a lutar com o chefe da expedição, acabando por matá-lo. Após tal fato, Édipo continua sua caminhada para Tebas, sem saber que o homem que acabara de assassinar era Laio, seu verdadeiro pai.

      Ao chegar em Tebas, Édipo encontra a cidade em destruição. Uma paisagem medonha de doenças, mortes, fome. A cidade estava mergulhada em uma peste, e ela somente acabaria se o enigma proferido pela Esfinge, um monstro que devorava todos os que davam uma resposta errada, fosse solucionado. Diante da Esfinge e de seu enigma (“O que é que de manhã possui quatro pernas, à tarde duas e à noite três?”), Édipo o soluciona (o ser humano), e a Esfinge lança-se no abismo, libertando a cidade da maldição. Com isso, a cidade volta a prosperar e , como prêmio, Édipo recebe a rainha – viúva então – como esposa,tornando-se rei de Tebas. Édipo, sem saber, casa-se com a própria mãe cometendo , assim, o incesto.

     Tebas prospera; Édipo e Jocasta estão felizes no casamento, quando uma nova peste assola a cidade, causando fome e destruição. Ávido por descobrir o culpado por tal fato, Édipo recebe do cego Tirésias, o sábio da cidade, a aterrorizante resposta: “És tu, Édipo, o culpado pela peste, pois foi você que matou o próprio pai e casou-se com a mãe”. Diante de tal descoberta, Jocasta suicida-se e Édipo perfura os próprios olhos e foge de Tebas.



A tragédia e a representação da vida

     Podemos encontrar nessa obra alguns elementos da tragédia conforme o conceito que definimos anteriormente. Por exemplo, o tênue fio que separa a felicidade da infelicidade, a ordem do caos, a paz do conflito. A eterna luta entre a razão e a paixão, entre o pensamento e o sentimento. E, finalmente, o conflito entre a liberdade e o destino.

     Durante toda  a história de Édipo, encontramos o conflito entre o desejo de ser livre e o destino que nos aprisiona. Laio e Jocasta tentaram afirmar a própria liberdade ao confrontar o oráculo de Delfos. Ao ordenar que o filho fosse morto, tentaram dar eles mesmo o rumo da vida, afirmando a liberdade de escolha, os desejos e , de certa , construindo o próprio futuro. Contudo, por mais que afirmassem os seus desejos e a liberdade de escolha, o destino lhes pregava uma peça.

     Na tragédia, o homem e seus desejos são insignificantes se comparados com a complexidade do universo. Na tragédia, como na vida real, o ser humano é um nada , é diluído e engolido pelo turbilhão da existência. O que a peça mostra não é, em absoluto, que a vida já esteja determinada, ela elucida e ilustra a pequenez que é a existência humana se comparada com a complexidade da vida. O que torna, o ser humano diferente dos outros animais, e por isso ele dominou a terra, é, justamente, a razão, a capacidade de articular o conhecimento e expressá-lo em palavras. Contudo, não é esse conhecimento que resolverá os problemas existenciais do homem, suas angústias e seus desejos. Laio , Jocasta e Édipo tinham esse conhecimento, sabiam do futuro, e nem com isso conseguiram ser felizes ou realizar seus ideais. A vida é trágica e não temos como escapar disso.