Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quem cala consente

Volta ao Mundo – Helena Celestino

 Quem cala consente - Jornal O Globo 4ª feira 25.2.2015 - jornalista Helena Celestino

 Pressão é o nome do jogo. A Cruz Vermelha recebeu carta de ex-primeiros-ministros do Peru pedindo investigação sobre as denúncias de tortura de presos políticos na Venezuela. A União Europeia considerou um motivo de alarme a prisão do prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, e pediu atenção à suposta intimidação e maus-tratos de outros líderes da oposição. Dezenas de países da América do Sul e Europa emitiram notas duras contra a deriva autoritária do governo Nicolás Maduro. Como os brasileiros, argentinos , chilenos e uruguaios na década de 60 e 70 , venezuelanos de oposição recorrem à opinião pública internacional para denunciar a violação de direitos humanos em seu país. 

 A geração da presidente Dilma Rousseff e do secretário especial Marco Aurélio Garcia conhece esse roteiro. Décadas antes, eles estavam entre as vítimas da truculência da ditadura brasileira e receberam a solidariedade de países democráticos e ONGs internacionais, em campanhas internacionais ou negociações diplomáticas que cobravam respeito aos direitos humanos no Brasil. Faz muito tempo, mas a primeira lua política a gente não esquece. Só que não. Agora, no poder, a presidente escolhe uma cautela extrema e hesita em condenar o desrespeito às liberdades democráticas na Venezuela. 

Em boca fechada não entra mosca, certo? A atitude não combina com pretensões do país em liderar o continente nem leva à conquista de prestígio na cena internacional. O Itamaraty só se pronunciou sobre a crise no vizinho porque foi surpreendido pelo anúncio do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, de que os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia se reuniriam para mediar o conflito político. Ontem, uma segunda nota foi divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, um texto de 12 linhas quase anódino*: sob o título “Situação na Venezuela”, expressa “grande preocupação” do governo brasileiro com o país vizinho e, sem se referir às prisões arbitrárias, informa que acompanha os acontecimentos junto com a comissão da Unasul. Meia verdade. Maduro ainda não aceitou a mediação do grupo, a comissão não tem data para se reunir e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, está em Londres e domingo vai à posse do novo presidente do Uruguai.

 A Venezuela está entre as alianças estratégias partidárias e cabe ao assessor especial Marco Aurélio Garcia liderar a rede diplomática com o regime bolivariano. Os chefes da oposição ao governo Maduro – sabemos – não são idealistas lutando pela liberdade como foram os jovens brasileiros nos anos de chumbo. O prefeito encarcerado é acusado de ter participado do golpe contra Chávez em 2002. Nunca nada foi provado contra ele, mas Ledezma teria estado com os golpistas no Palácio Miraflores nos dois dias em que o presidente deposto esteve preso, tempo suficiente também para o novo governo ser reconhecido pelos EUA. Chávez voltou ao poder e lá ficou até a morte mas, desde então, a cada crise, invoca-se o fantasma da intervenção externa na política venezuelana. Maduro, no dia seguinte à prisão do prefeito de Caracas, apareceu vestido de bandeira da Venezuela, ao lado de generais e ministros, acusando Ledezma – duas vezes eleito prefeito de Caracas – de planejar a derrubada do regime. A prova mais contundente, citada por Maduro, seria sua assinatura no “chamado aos venezuelanos para um governo de transição”, documento em defesa de um pacto nacional contra a crise, com propostas banais para qualquer partido de oposição ao redor do mundo. “A direita em Madri, a extrema-direita em Bogotá e a ultradireita em Miami forjaram um eixo para conspirar contra nosso país”, disse Maduro na televisão. 

 Falta provar. Por enquanto a acusação foi rechaçada por organizações internacionais e governos de todos os países acusados. O regime do paranoico herdeiro de Chávez se esfacela, mas não por culpa de um “grande irmão”. As causas são as conhecidas: a derrubada dos preços do petróleo, mais anos de incompetência administrativa e corrupção que desarrumaram a economia, causaram desabastecimento e reduziram a qualidade de vida dos venezuelanos. As conquistas econômicas e sociais da população mais pobre – impulsionadas pelos programas sociais de Chávez – estão em perigo com uma inflação de 68% e desvalorização cambial de 70%.

 A reação de Madura à crise é prender os suspeitos habituais, recorrendo a métodos cada vez mais violentos. Leopoldo López, preso há um ano por causa de protestos de rua, foi espancado na cela na véspera da detenção do prefeito de Caracas. Ao perguntar pelo mandato de prisão, Ledezma ouviu dos agentes do serviço secreto um palavrão e ficou desaparecido por várias horas até ser confirmada a sua detenção. A Anistia reportou dezenas de prisões arbitrárias e indícios de tortura: dissidentes seriam levados para a Tumba, uma prisão muitos metros abaixo do solo, onde reina um frio pavoroso e a música é tonitruante*. São denúncias de parentes e de advogados dos presos, a mesma rede que denunciou a tortura nos porões da ditadura. Dá para ficar calado? O velho e desgastado ditado popular vale como etiqueta para a postura do governo brasileiro: “Quem cala consente.”


 Anódino: adj 1. Que instiga dores . 2. Fig – pouco importante ou insignificante, SM 3. Medicamento anódino. Tonitruante – atroador, estrondoso

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um pouco de história

Texto: 02
Um pouco de História

     A Revolução Industrial na Inglaterra (século XIX) foi decorrência das várias inovações técnicas que começaram a ocorrer no século XVII com a Revolução Científica, portanto, não foi algo que aconteceu do dia para a noite. Mas foi no século XIX que a Revolução Industrial gerou profundas mudanças econômicas e sociais, muitos pensadores a consideram como a vitória do modo de produção capitalista sobre o sistema feudal e a primeira grande revolução tecnológica. No que se refere às mudanças econômicas e sociais , ocorre uma mudança na estrutura da sociedade com a nova divisão social do trabalho decorrente do modo de produção capitalista e consequentemente nas relações sociais principalmente no trabalho.  Se durante o feudalismo a sociedade era estamental a partir do século XIX com o advento da Revolução Industrial e a divisão social do trabalho, a sociedade passa a ser de classes, que segundo Karl Marx: de um lado os proletários (sem propriedade privada) e do outro burgueses (proprietários). Para Karl Marx as relações de trabalho ao longo da história sempre foram de exploração, mas é no modo de produção capitalista que a desigualdade social  e econômica é maior definido à propriedade privada.

        Pode-se dizer portanto que a sociologia nasce do conflito entre a burguesia e o proletariado de um lado (das condições de vida do proletariado), marcada portanto, pela questão social. Vale lembrar que estamos falando do século XIX, quando vários países europeus estavam vivendo a Revolução Industrial e sequer tinham certos direitos básicos, como os direitos sociais e políticos, por exemplo.  Não é por menos, que Karl Marx chama atenção para a consciência de classe do operário e os conclama a fazer uma revolução, a Revolução Proletária. Em outras palavras, alerta aos operários para a necessidade de transformar a sociedade, de mudar a sociedade e transformá-la numa sociedade socialista com a abolição da propriedade privada e das classes sociais.


Mas o que é Revolução?

     “Transformação radical de um sistema político, econômico e social considerado injusto, consistindo, numa primeira fase, na destruição da ordem vigente seguindo-se a imposição de uma nova ordem, geralmente por meio da violência armada” – Sergio A de A Coutinho

     Revolução no sentido acima tem um significado negativo aqui estamos nos referindo aos processos sociais que podem ser associativos e dissociativos. O que é um processo social dissociativo? O que é um processo social associativo?

     E como podemos promover mudança social? A mudança social ou transformação social deve começar pela sociedade ou pode partir da iniciativa do próprio indivíduo? E a pergunta continua: mas afinal de contas o que é sociedade? É possível transformar a sociedade radicalmente?

Atualidades: Século XXI
     Como as redes sociais podem ser usadas para promover mudanças sociais?
    


     Cabo Frio 19 de fevereiro de 2015

Breve introdução à Sociologia

Texto – Introdução à Sociologia
Breve Histórico da Sociologia: Quando a sociologia surgiu?

     A Sociologia definida como a ciência que estuda a sociedade nasceu somente no século XIX como resultado das muitas transformações que estavam ocorrendo nas sociedades europeias nesta época. As principais transformações foram a Revolução Industrial e a divisão social do trabalho principalmente nas fábricas (particularmente na Inglaterra).

      Nessa época aparecem pensadores que estavam preocupados em entender as causas e as consequências da Revolução Industrial nas sociedades. Em outras palavras, pensadores como Emille Durkheim (1858-1917), sociólogo francês; Karl Marx (1818-1883), sociólogo e filósofo alemão e Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão tentaram responder à seguinte pergunta: Com a Revolução Industrial e o modo de produção capitalista que mudanças geraram na sociedade europeia do século XIX? Cada um desses sociólogos apresentou a sua interpretação dos acontecimentos naquela época, e tem sua interpretação do que é sociedade e como promover a mudança social ou transformação social. Eles são considerados os clássicos da sociologia justamente por terem sido os primeiros a tentarem entender e explicar o que estava acontecendo naquela época.

     Com o passar dos anos e o avançar dos estudos da sociologia, pouco a pouco muitos estudos   buscam compreender a sociedade não de maneira geral, mas a partir da relação indivíduo e sociedade. Um dos sociólogos pioneiros neste objeto de estudo é o sociólogo americano Mill, para quem o estudo desta relação pode ser útil também ao indivíduo, uma vez que ele poderá analisar melhor suas vivências , experiências e aprender a lidar com diferentes situações.

Para entender melhor:
1)O que foi  a Revolução Industrial no século XIX?
O aluno precisará ter a base de história para acompanhar.
2) Que transformações ocorreram nas sociedades europeias daquela época?
(O aluno precisará ter a base de história para acompanhar)
3) O que é Revolução?

O que a Sociologia estuda?

     E ai o que a Sociologia estuda? Responder que a “sociologia estuda a sociedade” significa diminuir a sua importância para a compreensão da realidade que nos cerca. Afinal de contas o que é sociedade? A sociedade é algo estático parado no tempo? Ou ela vive em constante movimento? Então é importante compreendermos uma coisa que se a sociologia busca entender a sociedade dentro de uma realidade (mas é preciso compreendermos que temos muitas “realidades”, a minha realidade pode ser completamente diferente da sua), e se esta sociedade passa por mudanças, a sociologia busca portanto compreender e explicar a dinâmica social.
    Em  linhas gerais a Sociologia estuda a relação do indivíduo com a sociedade (as diferentes formas de interação social e relação social entre os indivíduos e seus diferentes grupos sociais), os processos sociais e a dinâmica social. Veremos com mais calma isso ao longo do curso.
Para compreender melhor:

1)O que se entende por sociedade?
2)O que são processos sociais?
3) O que é dinâmica social?
4)Como funciona essa coisa da relação indivíduo e a sociedade?

Para que serve a Sociologia?


     A Sociologia serve para compreendermos e explicarmos pedaços da realidade. Para isso ela usa métodos qualitativos (entrevistas) e quantitativos (métodos estatísticos). Ela é útil para compreender os processos sociais e a relação indivíduo-sociedade. Em termos teóricos ela usa um vocabulário próprio o que significa dizer que uma simples palavra pode ter várias interpretações, por exemplo, quando falamos de liberdade ou de igualdade: Que tipo de liberdade estamos falando? E que tipo de igualdade estamos falando? Assim como a compreensão do que se entende por sociedade e mudança  transformação social. Todo cuidado é pouco com as palavras, pois uma palavra pode ter vários conceitos (significados ou interpretações). E termos práticos ela pode ser usada como instrumento de mudança social ou transformação social.


Cabo Frio 19 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Texto - A Felicidade..

O texto abaixo é bem interessante para pensarmos sobre nossas próprias vidas. Eu particularmente tenho ao menos uma consideração a fazer, percebo em Sócrates o primeiro filósofo a se preocupar com a questão agir humano, do comportamento humano em sociedade, ele não deixou nada escrito muito ou quase tudo que sabemos dele devemos aos seus discípulos Platão e Aristóteles.

Bom deixando de lado essa consideração o que importa é que todos nós queremos ser felizes. Mas o que significa felicidade para mim pode não ser a mesma coisa para as outras pessoas. E para você o que significa felicidade? O que te deixa feliz?

Pretendo trabalhar este texto na primeira aula de sociologia da NEJA tanto a I quanto a II.
Mesmo não dando mais aulas de filosofia esta pergunta é fundamental e perpassa todas as sociedades e faz parte de nosso processo civilizatório.

Lá vai o texto

     Os seres humanos agem conscientemente, e cada um de nós é senhor de sua própria vida. Mas como resolvemos o que fazer? Você em algum momento já pensou em como você toma as decisões sobre o que fazer em determinada situação ? Você age impulsivamente, fazendo “o que der na telha” ou analisa cuidadosamente as possibilidades e as consequências, para depois resolver o que fazer?
     A filosofia pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria vida. Chama-se ética a parte da filosofia que se dedica a pensar as ações humanas e os seus fundamentos. Um dos primeiros filósofos a pensar a ética foi Aristóteles, que viveu na Grécia no século IV a.C. Esse filósofo ensinava numa escola à qual deu  nome de Liceu, e muitas de suas obras são resultado das anotações que os alunos faziam de suas aulas. As explicações sobre ética foram anotadas pelo filho de Aristóteles chamado Nicômaco, e por isso esse livro é conhecido por nós com o título de Ética a Nicômaco.
     Em suas aulas, Aristóteles fez uma análise do agir humano que marcou decisivamente o modo de pensar ocidental. O filósofo ensinava que todo conhecimento e todo trabalho visa algum bem. O bem é a finalidade de toda ação. A busca do bem é o que difere a ação humana da de outros animais.
     Ele perguntou: Qual é o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação? E como resposta encontrou: a felicidade. Essa resposta formulada pelo filósofo encontra eco até nossos dias. Tanto o homem do cotidiano como todos os grandes pensadores estão de acordo que a finalidade da vida é ser feliz. Identifica-se o bem viver e o bem agir com o ser feliz.
    No entanto, disse Aristóteles, a pergunta sobre o que é felicidade não é respondida igualmente por todos. Cada um de nós responde de uma forma singular. Essa singularidade na reposta é partilhada por outros indivíduos com os quais convivemos. Portanto, no processo de nossa educação familiar, religiosa e escolar aprendemos a identificar o ser feliz com os valores que sustentam nossas ações.
     Toda produção histórica dos seres humanos consiste em criar condições para que o homem seja feliz. Todas as religiões, as filosofias de todos os tempos, as conquistas tecnológicas, as teorias científicas e toda a arte são criações humanas que procuraram apresentar condições para a conquista da felicidade.   O processo civilizatório iniciou-se com a promessa de felicidade.

Fonte: livro Ética e Cidade, Sílvio Gallo (coordenador); Unidade  5 – Ética e Civilização pág 54


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Tema em Debate - Plebiscito para Reforma Política

     A matéria abaixo foi extraída do Jornal O Globo, 30 de outubro de 2014, pág 23. Como cidadã considero um dever acompanhar dentro do possível os debates sobre Reforma Política. Especialmente porque neste no momento Dona Dilma, presidente reeleita, pelo sistema majoritário , quer porque quer a qualquer custo a realização de um plebiscito, passando por cima do Congresso Nacional.

     Quero registrar que como cidadã também tenho muitas críticas em relação ao Congresso Nacional, porém o considero uma instituição fundamental para a democracia. Basta lembrá-los que durante a Ditadura (a qual Dona Dilma e atual presidente lutou contra), o Congresso Nacional foi fechado e as disciplinas de sociologia e filosofia foram substituída por OSPB (Organizações Sociais Políticas Brasileiras, se é esse o nome de fato, já não me lembro, lembro-me apenas de que as estudei de maneira muito  superficial no atual ensino fundamental, que antes era primário).

     Gostaria também de destacar que não morro de amores pelo então senador Franciso Dornelles, todavia sua posição e seus argumentos são dignos de serem lidos e refletidos. E que tenho como norma em minha vida, não fazer propaganda política partidária para políticos. A não ser que eu tenha um relacionamento próximo e de confiança. Coisa, que acredito que vai ser difícil de acontecer algum dia.

         Bom, vou ficando por aqui. Eis a matéria:


TEMA EM DEBATE – PLEBISCITO PARA REFORMA POLÍTICA

A responsabilidade dos representantes

GUSTAVO BINENBJOM

     Plebiscito e referendo são consultas formuladas ao povo para que este delibere , de forma direta, sobre matéria de natureza constitucional, legislativa ou administrativa. Segundo a lei que trata do assunto, o plebiscito é convocado previamente à medida que se pretenda adotar, cabendo aos cidadãos, por meio do voto, aprovar ou rejeitar a proposta que lhes tenha sido submetida. Já o referendo é uma consulta quanto a matéria que já tenha sido decidida pelos órgãos competentes do poder público, cabendo ao povo ratificar ou não tal decisão.

     Está-se a ver que a distinção fundamental entre os dois mecanismos de participação popular na democracia brasileira consiste no momento da consulta – se prévio ou posterior à medida a ser implementada. A diferença, todavia , não se resume a isso. Plebiscito e referendo têm “vocações” distintas, sendo aplicáveis consoante a natureza da consulta que se faça ao eleitorado.

     A consulta plebiscitária pressupõe a viabilidade da formulação de perguntas objetivas sobre matérias específicas, que permitam uma efetiva deliberação popular. Você é a favor ou contra a descriminalização do uso da maconha? Qual forma de governo você prefere: república ou monarquia? Qual sistema de governo você deseja: presidencialismo ou parlamentarismo? O resultado do plebiscito encerra, assim, uma decisão completa do povo sobre questões pontuais.

     O referendo destina-se , modo geral, a matérias mais complexas, que exigem tratamento detalhado e sistemático anterior pelos representantes do povo. Um bom exemplo colhido da realidade brasileira foi o Estatuto do Desarmamento, cuja submissão à consulta popular pressupôs a ampla discussão e a prévia aprovação pelo Congresso Nacional. Com efeito, não seria possível fazer perguntas prévias sobre as tantas e tão variadas questões envolvidas no debate acerca de produção, comercialização e porte de armas de fogo.

     No que se refere à reforma política, há razões consistentes que inviabilizam o uso do plebiscito. Primeiro, a extensa lista das opções disponíveis e suas possíveis combinações – o que certamente dificultaria a capacidade cognitiva dos eleitores e a obtenção de uma efetiva deliberação. Segundo, o risco de uma consulta excessivamente genérica, que possa resultar numa espécie de cheque em branco assinado pelo povo. De fato, um plebiscito que aprove diretivas muito abstratas poderá facilmente se tornar mero argumento retórico para qualquer projeto de reforma política que se queira implementar.

     No bojo dos argumentos em favor do plebiscito tem-se falado ainda na convocação de uma constituinte específica. O sistema jurídico-constitucional brasileiro oferece mecanismos suficientemente flexíveis para que, dentro das regras do jogo, sejam aprimoradas as nossas instituições políticas. Não há necessidade de convocação de uma assembleia constituinte, tampouco parece haver legitimidade para uma ruptura dos marcos constitucionais do Estado democrático de direito.

     De outro lado, exsurgiu das urnas um consenso sobreposto às divergências do processo eleitoral, no sentido da urgência de reformas políticas no país. Mas tal energia popular ainda se apresenta em estado amorfo, carecendo de representação nas instâncias institucionais do poder. Daí a importância de que os mandatários do povo, ungidos pelo voto, assumam as suas responsabilidades e liderem o processo de construção do conteúdo das reformas. Ao longo do processo, as diversas posições e opções ficarão claras e poderão ser amadurecidas em um diálogo aberto com a sociedade.

     Ao final, caso haja necessidade de um lastro maior de legitimidade a viabilizar a sua implementação, poderá o Congresso Nacional optar pela submissão das reformas ao crivo popular mediante convocação de um referendo. Aí, então, caberá ao povo julgar o trabalho entregue por seus representantes , e não lhes entregar previamente um cheque assinado e em branco.


Gustavo Binenbjm é advogado




Instrumento inadequado

FRANCISO DORNELLES

     A realização de plebiscito sobre sistema político volta a ser discutida. Plebiscitos servem para consultar os cidadãos sobre seu posicionamento acerca de um determinado assunto de caráter geral. Não é o caso do sistema político, que é estruturalmente complexo e somente serve como método de instrumentalização da democracia se estiver organizado de maneira funcional.

     Fazer plebiscito para consultar a população sobre sistemas eleitorais é simplesmente não razoável pelo nível de minúcias e profusão de tecnicalidades que lhes são inerentes.

     Considerem-se as questões sobre o sistema eleitoral. As eleições seriam realizadas pelo sistema majoritário, proporcional ou misto? Q  ualquer que  seja a resposta haveria outras perguntas que teriam que ser respondidas. Caso a escolha recaia sobre o voto majoritário, o cidadão deveria pronunciar-se sobre sua preferência entre o voto uninominal ou plurinominal, em turno único ou não. Caso a opção seja pelo voto proporcional, então, consecutivamente, teria que haver consulta sobre a preferência por listas fechadas ou abertas.

     A complexidade do processo aumentaria em face da opção pelo sistema misto. O cidadão escolheria, pelo menos, entre o voto majoritário com turno único ou duplo e o sistema proporcional com listas fechadas ou abertas; entre o distritão e o sistema proporcional de listas abertas ou fechadas.

     Qual seria a preferência dos cidadãos sobre o financiamento eleitoral e partidário: misto, com aporte público e privado? Exclusivamente público? E acerca das coligações?  Seriam proibidas? Proibidas nas eleições proporcionais e liberadas nas majoritárias? O mesmo número de questões deveria ser colocado em relação ao voto secreto e à suplência de senador.

     Imaginem a situação dos programas de rádio e televisão necessários à divulgação dos temas do plebiscito. O mesmo grupo que apoia o voto em lista diverge em relação ao sistema eleitoral. O mesmo grupo que apoia o sistema distrital diverge em relação à suplência de senador. Como administrar esse problema?

     O plebiscito seria assim ou um instrumento de consulta inadequado, porque cobriria um número insuficiente de temas e opções, ou ineficaz, já que os eleitores seriam submetidos a uma verdadeira avalanche de escolhas, sem instância de harmonização entre as mesmas, correndo o risco de se ter por resultado um monstro regulatório.



Francisco Dornelles é senador (PP-RJ)


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pinóquio para presidente

A matéria abaixo foi retirada do Jornal O Globo, pág 16 - Opinião, dia 11 /11/2014.
O título da matéria é "Pinóquio para presidente" e o autor é Gil Castello Branco.

Ao ler esta matéria fiquei aliviada e com a consciência tranquila por não ter votado em Dona Dilma. 

 Pinóquio para presidente

Gil Castello Branco

     É conhecida a fábula de Collodi e o seu personagem Pinóquio, simpático boneco de madeira cujo nariz aumentava quando mentia. Seria ótimo que o mesmo acontecesse com os políticos, especialmente nas campanhas eleitorais, porque é gritante a contradição entre as palavras e os fatos ocorridos após o pleito.

     Bastaram duas semanas para Dilma transformar a sua carruagem em abóbora. A presidente reeleita deve ter se inspirado em Maquiavel, que no seu livro “O Príncipe” (1513) aconselhou: “É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo.”

      A quinzena do mal foi intensa. O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) , elevou em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), com o argumento de que precisava garantir cenário mais “benigno” para a inflação em 2015 e 2016. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou aumentos de tarifas em Roraima, Amazonas e no Rio de Janeiro. O Ministério da Fazenda anunciou déficit primário de R$ 20,4 bilhões nas contas do Tesouro, Previdência Social e BC em setembro, o pior resultado de todos os meses desde o início da série histórica, em janeiro de 2007. O ministro da Fazenda já demitido confessou que a meta fiscal não será alcançada este ano. Para que as autoridades econômicas não sejam enquadradas em crime de responsabilidade, a equipe econômica vai recorrer ao Congresso, que deve ajustar o primário para o limite menor.

     A balança comercial brasileira registrou o maior rombo mensal desde 1998. A gasolina e o diesel já estão mais caros. O número de brasileiros em situação de extrema pobreza cresceu em 2013, conforme dados oficiais divulgados na página do Ipea, à surdina, após as eleições. O desmatamento da Amazônia em setembro e outubro deste ano cresceu 122% se comparado ao mesmo bimestre no ano passado, o que também só veio à tona depois do pleito.

     Na terra de Macunaíma – obra surrealista do escritor Mário de Andrade repleta de aspectos fantasiosos e ilógicos – tão logo Aécio Neves ganhou as eleições , Arminio Fraga e Neca Setúbal subiram os juros e adotaram o receituário ortodoxo recomedado pelos banqueiros que fumam charutos e somem com o prato de comida da mesa das criancinhas. Até os subsídios ao BNDES a trinca já cogita reduzir! Dane-se a verdade.

     No vale-tudo das eleições brasileiras, se Jesus Cristo fosse candidato, o marqueteiro de Dilma, João Santana, demonstraria que o PT fez mais em 12 anos do que o filho de Deus em 33. O maior milagre de JC foi multiplicar peixes e pães dando de comer a cinco mil fiéis na Galiléia, enquanto o Bolsa Família atende 56 milhões de pessoas! A frase “Vinde a mim as criancinhas...” seria apresentada como conotação de pedofilia. Pobre Jesus Cristo. Antes morrer na cruz.

     Nestas eleições, desconstrução foi sinônimo de mentira, intimidação, calúnia e difamação. A maior vítima foi a candidata Marina Silva, que se comparou a Davi enfrentando dois Golias. Com poucos minutos diários na TV, sem a funda e as pedras, sucumbiu , às barbas do Tribunal Superior Eleitoral, que só coibiu a baixaria no final das eleições. Por essas e outras, a reforma eleitoral deveria debater o favorecimento descarado dos que concorrem exercendo mandatos de deputado, senador, governador e presidente da República utilizando verbas públicas para combustíveis, telefones, locações e até os palácios. Além disso, é necessário discutir limites para os valores das campanhas, as relações promíscuas entre doadores, partidos e candidatos, a reorganização do Fundo Partidário e do horário eleitoral gratuito, entre outras questões.

     Enfim, após eleita, Dilma se vestiu de branco e pregou o diálogo. Ao contrário do que afirmava, preocupou-se com a contenção da inflação, a retomada do crescimento e o reequilíbrio fiscal. No pacote incluiu surradas promessas de reduzir as despesas com seguro-desemprego, abono salarial e auxílio-doença. Assim, espera resgatar a credibilidade das contas públicas – maquiadas pela contabilidade irresponsável – e evitar que o Brasil perca grau de investimento.

     Até que ponto o festival de notícias impopulares teria afetado a votação da presidente reeleita, caso tivesse acontecido antes de 26 de outubro, são outros quinhentos. Mas, convenhamos, se não é estelionato eleitoral, é muita cara pau.

     Como o personagem de Collodi faz parte de uma fábula e os narizes dos políticos não crescem, resta-nos sugerir nas próximas eleições a adoção do detector de mentiras. Caso contrário, Pinóquio vai acabar presidente... .

         Se não é estelionato eleitoral, é muita cara de pau o festival de notícias                                   impopulares após 26 de outubro.


Gil Castello Branco, economista é fundador da ONG Associação Contas Abertas
E-mail: gil@contasabertas.org.br