Quem cala consente - Jornal O Globo 4ª feira 25.2.2015 - jornalista Helena Celestino
Pressão é o nome do jogo. A Cruz Vermelha recebeu carta de ex-primeiros-ministros do Peru pedindo investigação sobre as denúncias de tortura de presos políticos na Venezuela. A União Europeia considerou um motivo de alarme a prisão do prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, e pediu atenção à suposta intimidação e maus-tratos de outros líderes da oposição. Dezenas de países da América do Sul e Europa emitiram notas duras contra a deriva autoritária do governo Nicolás Maduro. Como os brasileiros, argentinos , chilenos e uruguaios na década de 60 e 70 , venezuelanos de oposição recorrem à opinião pública internacional para denunciar a violação de direitos humanos em seu país.
A geração da presidente Dilma Rousseff e do secretário especial Marco Aurélio Garcia conhece esse roteiro. Décadas antes, eles estavam entre as vítimas da truculência da ditadura brasileira e receberam a solidariedade de países democráticos e ONGs internacionais, em campanhas internacionais ou negociações diplomáticas que cobravam respeito aos direitos humanos no Brasil. Faz muito tempo, mas a primeira lua política a gente não esquece. Só que não. Agora, no poder, a presidente escolhe uma cautela extrema e hesita em condenar o desrespeito às liberdades democráticas na Venezuela.
Em boca fechada não entra mosca, certo? A atitude não combina com pretensões do país em liderar o continente nem leva à conquista de prestígio na cena internacional. O Itamaraty só se pronunciou sobre a crise no vizinho porque foi surpreendido pelo anúncio do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, de que os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia se reuniriam para mediar o conflito político. Ontem, uma segunda nota foi divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, um texto de 12 linhas quase anódino*: sob o título “Situação na Venezuela”, expressa “grande preocupação” do governo brasileiro com o país vizinho e, sem se referir às prisões arbitrárias, informa que acompanha os acontecimentos junto com a comissão da Unasul. Meia verdade. Maduro ainda não aceitou a mediação do grupo, a comissão não tem data para se reunir e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, está em Londres e domingo vai à posse do novo presidente do Uruguai.
A Venezuela está entre as alianças estratégias partidárias e cabe ao assessor especial Marco Aurélio Garcia liderar a rede diplomática com o regime bolivariano. Os chefes da oposição ao governo Maduro – sabemos – não são idealistas lutando pela liberdade como foram os jovens brasileiros nos anos de chumbo. O prefeito encarcerado é acusado de ter participado do golpe contra Chávez em 2002. Nunca nada foi provado contra ele, mas Ledezma teria estado com os golpistas no Palácio Miraflores nos dois dias em que o presidente deposto esteve preso, tempo suficiente também para o novo governo ser reconhecido pelos EUA. Chávez voltou ao poder e lá ficou até a morte mas, desde então, a cada crise, invoca-se o fantasma da intervenção externa na política venezuelana. Maduro, no dia seguinte à prisão do prefeito de Caracas, apareceu vestido de bandeira da Venezuela, ao lado de generais e ministros, acusando Ledezma – duas vezes eleito prefeito de Caracas – de planejar a derrubada do regime. A prova mais contundente, citada por Maduro, seria sua assinatura no “chamado aos venezuelanos para um governo de transição”, documento em defesa de um pacto nacional contra a crise, com propostas banais para qualquer partido de oposição ao redor do mundo. “A direita em Madri, a extrema-direita em Bogotá e a ultradireita em Miami forjaram um eixo para conspirar contra nosso país”, disse Maduro na televisão.
Falta provar. Por enquanto a acusação foi rechaçada por organizações internacionais e governos de todos os países acusados. O regime do paranoico herdeiro de Chávez se esfacela, mas não por culpa de um “grande irmão”. As causas são as conhecidas: a derrubada dos preços do petróleo, mais anos de incompetência administrativa e corrupção que desarrumaram a economia, causaram desabastecimento e reduziram a qualidade de vida dos venezuelanos. As conquistas econômicas e sociais da população mais pobre – impulsionadas pelos programas sociais de Chávez – estão em perigo com uma inflação de 68% e desvalorização cambial de 70%.
A reação de Madura à crise é prender os suspeitos habituais, recorrendo a métodos cada vez mais violentos. Leopoldo López, preso há um ano por causa de protestos de rua, foi espancado na cela na véspera da detenção do prefeito de Caracas. Ao perguntar pelo mandato de prisão, Ledezma ouviu dos agentes do serviço secreto um palavrão e ficou desaparecido por várias horas até ser confirmada a sua detenção. A Anistia reportou dezenas de prisões arbitrárias e indícios de tortura: dissidentes seriam levados para a Tumba, uma prisão muitos metros abaixo do solo, onde reina um frio pavoroso e a música é tonitruante*. São denúncias de parentes e de advogados dos presos, a mesma rede que denunciou a tortura nos porões da ditadura. Dá para ficar calado? O velho e desgastado ditado popular vale como etiqueta para a postura do governo brasileiro: “Quem cala consente.”
Anódino: adj 1. Que instiga dores . 2. Fig – pouco importante ou insignificante, SM 3. Medicamento anódino. Tonitruante – atroador, estrondoso

