Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

terça-feira, 3 de março de 2015

Estética: Arte e Vida Cotidiana

Livro Ética e Cidadania – Caminhos da Filosofia – 20ª Edição
Sílvio Gallo (Coord.) – Grupo de Estudos sobre Ensino de Filosofia

Unidade 9
Estética: Arte e Vida Cotidiana – p83 a 94

Jorge e Amanda estudavam juntos: cursavam a 3ª série do ensino médio numa escola pública, pois ambos trabalhavam. Ele, num banco; ela era vendedora numa loja de roupas. Sempre que podiam, juntavam uma turma após as aulas e, equipados com algumas latas de tinta spray , saíam loucos para encontrar um muro branquinho , onde pudessem fazer uma bela pichação. No começo, a coisa começou  meio na brincadeira: era gostoso sentir aquele medo de ser pego enquanto expressavam o que queriam.... Mas, com o tempo, a brincadeira foi ficando cada vez mais séria. As pichações ficaram cada vez mais elaboradas, com desenhos complexos e coloridos. Quando terminavam, ficavam admirando sua obra....  Mas, em momento algum, imaginavam que nada mais estavam fazendo do que expressar um dos sentimentos mais humanos: o gosto pela beleza e a vontade de criá-la com as próprias mãos.

     Nos dias de hoje, a palavra estética é usada em vários sentidos; todos eles, porém, partem do conceito original usado pelos gregos antigos, ou seja, designar aquilo que tenha a ver com os sentimentos, com os sentidos, com a percepção. Assim, a estética também está ligada à atividade artística, já que se preocupa com as obras que o ser humano faz com a finalidade de serem belas, e com os sentimentos que elas provocam em nós. Em termos gerais, podemos dizer que a estética é a área da filosofia que estuda a arte e suas relações com o ser humano.


A arte em nosso cotidiano

     Frequentemente, ouvimos dizer que arte é uma coisa inútil, ou vemos pessoas zombando de certas obras de arte de características pouco comuns em nosso dia a dia. Isso se dá porque elas não conseguem entender o que a obra significa, ou qual a “mensagem” que o artista  quis passar.  É preciso deixar claro que o ser humano, ou qual a “mensagem” que o artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser humano, pelas suas características biopsicossociais (o seu corpo, a sua razão e a sua convivência com outras pessoas), tem a tendência de se manifestar no mundo de maneira estética, procurando estabelecer em sua vida uma relação de beleza com tudo que o cerca. Essa manifestação, em alguns casos, tende a ser muito pessoal, pois o artista irá colocar sua impressão a respeito de um fato social ou da natureza retratando-o na obra.

     O artista pode determinar funções para sua obra. Alguma delas são:

Políticas:
A obra toma uma posição crítica a respeito de um fato ou problema social, denunciando uma injustiça, propondo uma ideologia política, ou simplesmente retratando a realidade de uma sociedade.

Religiosas:
Servem às necessidades místicas das pessoas, para afirmar determinada proposta religiosa, fazem parte do próprio culto em alguns casos, tal como as imagens sagradas da religião católica.

Pedagógicas:
Têm uma função social de colaborar na educação das pessoas, levando-as a compreender o mundo por meio dos objetos artísticos.

Naturalistas:
A obra tem a finalidade exclusiva de retratar a realidade; por exemplo: a fotografia 3X4 que você tem no RG

Formalistas:
Se preocupam exclusivamente com a técnica usada naquele tipo de arte.

     Por meio da técnica, o artista faz uso de conceitos práticos para “construir” sua obra de arte – o pinto mistura tintas para conseguir uma tonalidade mais clara ou mais escura e que dará mais força a seu trabalho.

     Por meio do conhecimento, o artista faz uso da experiência adquirida por si mesmo e pelos outros – o mesmo pintor sabe que misturando as cores amarela e azul irá conseguir a cor verde.
     Por meio da expressão, o artista faz uso da sua sensibilidade, de sua intuição e de sua imaginação para dar a sua obra um caráter único, fazendo do objeto algo cheio de sentidos, sentidos que irão tocar a todos que o virem – assim, o pintor irá retratar em sua obra o produto de sua criatividade pessoal, que comunique aos outros seus sentimentos e impressões a respeito de um fato qualquer, seja um fato social, seja um fato da natureza, seja mesmo um fato da sua imaginação.



Arte: Fundamento do mundo

     Antes de qualquer afirmação prematura, faz-se necessária uma interrogação: Por que é a arte o fundamento do mundo, como o título propõe? Por que a literatura, a música, a pintura, a escultura, que são manifestações artísticas, constituem a essência do mundo? Não seria mais correto afirmar que a economia, a dimensão econômica, seria o fundamento do mundo, já que todo dia e o dia inteiro usamos o dinheiro na compra de roupas da moda , do lanche no bar, do presente para o (a) namorado (a)? Vivemos no impassr e na torcida: Será que a inflação aumentará? Será que teremos aumento salarial? Até quando estaremos empregados?

     Ou não seria mais correto afirmar que a política  é  o fundamento do mundo, já que nossas vidas seguem o rumo das decisões tomadas pelos governantes? Vamos imaginar (a imaginação é um meio de criação artística) a seguinte situação: o governo, para acabar com o déficit  público, decide elevar todos os impostos em 60%, por exemplo. Diante dessa situação, centenas de grandes empresas decidem fechar suas fábricas aqui, pois o custo de produção seria muito elevado, transferindo a produção para outro país. Consequência dessa medida: milhares de desempregados. Quase que anualmente estamos votando para deputado, senador, vereador, presidente, governador, prefeito, síndico, presidente de sindicato ou centro  comunitário. Vivemos na esperança de que essas pessoas – que deveriam representar as nossas vontades – tomem decisões que tornem nossas vidas melhores.

     Mas, voltemos a nossa questão inicial e, para tal, lembremos as palavras do filósofo alemão do final do século XIX , Friedrich Nietzsch: “A partir de agora, o domínio da ciência só se produz pela arte. Trata-se de juízos de valor sobre o saber e o saber muito. Tarefa imensa e dignidade arte nesta tarefa! Ela deve recriar tudo e recolocar sozinha a vida no mundo”.

Vivemos, seguramente, graças ao caráter superficial do nosso intelecto, numa ilusão perpétua: temos então, para viver, necessidade da arte a cada instante. A nossa visão prende-nos às formas. Mas se somos nós próprios quem, gradualmente, educa essa visão, vemos também reinar em nós uma força de artista. Mesmo na natureza se encontram mecanismos contrários ao saber absoluto: o filósofo reconhece a linguagem da natureza e diz: “Temos necessidade da arte” e “só precisamos de uma parte do saber” (O livro do filósofo, aforismos 39 a 51)
.

     É a arte o fundamento do mundo, pois todas as coisas existentes possuem forma, cor , textura, peso, cheiro , e esses objetos são apreendidos pelos nossos sentidos e pela nossa razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre vazão ao seu imaginário, tornando reais seus desejos, suas fantasias e seus sonhos.

     O homem é um ser sociável, vive circunscrito numa sociedade e convive com seus semelhantes. As coisas que criamos têm por objetivo despertar no outro sensações de prazer ou dor; admiração ou repulsa; aprovação ou desaprovação. Criamos coisas, sejam belas ou feias – não importa, pois beleza e feiura são conceitos subjetivos - , para despertar sentimentos no outro. Criamos coisas para tocar no mais íntimo dos sonhos e desejos. Criamos coisas para serem aprovadas ou desaprovadas, amadas ou odiadas, não importa, pois o que realmente interessa é que esses objetos toquem o fundo da alma das pessoas. E é esse justamente o objetivo de toda obra de arte: despertar sentimentos, sensações, tornar presentes sonhos e desejos que tanto escondemos e reprimimos.

     Quando olhamos uma pessoa que achamos belíssima, olhamos e ficamos como que hipnotizados por tal beleza de formas e contornos. Não conseguindo disfarçar o olhar, em nosso íntimo, desejos perversos, românticos e eróticos de tocar, experimentar, possuir afloram com intensidade vulcânica. Ou quando olhamos uma foto, em um jornal ou revista, de uma senhora com avental, chinelos e lenço na cabeça. Ao olharmos tal foto, somos transportados para um passado distante, para um período de nossa infância. Essa fotografia nos faz recordar de um momento feliz, das brincadeiras de rua, da bola, da corda, das paqueras de criança, da ausência de relógio. Faz recordar a eternidade do passar dos dias, tal a intensidade com que eram vividos;  a liberdade e a despreocupação com o futuro. Tal fotografia nos faz recordar da vida vivida a cada instante, do paraíso vivido e perdido.

     Imaginemos a seguinte situação: estamos abarrotados de coisas a serem estudadas para o vestibular no fim do ano. Estamos trancafiados e sufocados nesse cubículo que é a aprovação num vestibular, a escolha de uma profissão,  e estamos  uma pilha de nervos tal o grau de responsabilidade, tais as cobranças e as preocupações que recaem em nossas costas. De repente, uma música invade o quarto, passando pelas sólidas paredes. Começando a ouvir a música, nossa atenção é desviada dos estudos. Lutamos para retornar aos livros, mas não conseguimos fechar. A música invadindo nosso ser, tomando conta dos nossos sentimentos, tornam aflorar antigas paixões. A música torna presente amores vividos e perdidos, carinhos, beijos, toques; lugares e momentos desfrutados a dois; uma época em que o outro é o sentido da vida. E, nesse louco sentimento, entregamo-nos de corpo e alma aos prazeres ou dores despertados pelas recordações. Nessa viagem pelo passado, damo-nos conta de que lágrimas brotaram em nossos olhos, tal a intensidade de tais lembranças e, nesse momento, o que importam os estudos, os vestibulares, a faculdade , a profissão e o futuro?

     No fenômeno artístico, percebemos a verdadeira natureza da realidade; a arte é a condição de um princípio ontológico do ser; é a chave que nos permite o acesso à essência do mundo; é o caminho mais original e autêntico de compreensão da realidade.

     A arte é o centro da vida, e é a partir dela que deciframos o mundo. É somente com os olhos da arte que o homem consegue apreender a sua essência, pois esta se manifesta sob a forma artística.

     A existência humana, o mundo e todas as manifestações da vida são, fundamentalmente , fenômenos artísticos. É na arte que temos a transfiguração de tudo o que existe, seja o belo, o sublime, seja o horrível, a fealdade. É na arte que encontramos a essência do existente, pois tudo que vemos e apreendemos é manifestação artística. A arte é  a luz que nos permite conhecer a vida e o mundo, pois tanto a vida como a existência são categorias estéticas. Nós, seres humanos, somos manifestações artísticas; a vida é uma grande obra de arte; o mundo é, essencialmente, arte.

     Se é pela arte que conhecemos mundo e a vida, podemos perguntar: Qual é o caminho que a arte adota para conhecer o mundo? Qual é a categoria interpretativa da arte? A tal interrogação podemos responder: a intuição. A arte exige a certeza imediata da intuição. As ideias fundamentais e essenciais possuem a forma de iluminação intuitiva. Nesse aspecto, a razão é situada num segundo plano, pois o conhecimento racional é extremamente limitado se comparado com a intuição. A arte é apreendida pela intuição e não pela razão.



A tragédia de Édipo

     Os gregos antigos, ao inventarem o teatro, criaram duas formas de representar a realidade nos palcos: a comédia, que procurava representar a vida pela farsa e despertar risos na plateia; e a tragédia que, ao contrário, trabalhava com o drama e procurava emocionar a plateia, fazendo com que cada um se reconhecesse nos fatos representados. Para eles, o teatro não era uma simples forma de diversão, mas um importante fator de regulação da vida social, uma atividade que representava o cotidiano vivido pelas pessoas e as ajudava a refletir sobre a vida.

     O que entendemos por tragédia? A tragédia está, fundamentalmente, em relação com a vida concreta, com nossa existência. Na tragédia, temos a contínua erupção de momentos “aterrorizantes”, em que a felicidade se dilui se tornando um nada, e de momentos “sublimes”, nos quais o estado de felicidade é desfrutado. Na tragédia, temos a manifestação concreta da nossa vida, pois vida é exatamente isto: uma gangorra que ora pende para a felicidade e ora para a infelicidade; para a paz ou para a angústia. A contínua troca de estados é a própria natureza da tragédia e da vida.

     Para melhor ilustrar esse conceito de tragédia, reproduziremos, de forma muito sintética, o enredo de uma tragédia grega clássica escrita por Sófocles e intitulada Édipo-Rei.
     Nessa peça de teatro, os acontecimentos se passam em Tebas, cidade grega, cujo rei – Laio – e sua esposa e rainha – Jocasta – aguardam o nascimento do futuro herdeiro do trono. Ávidos por conhecer o futuro e prevenir-se de qualquer acontecimento inesperado, Laio e Jocasta dirigem-se ao oráculo de Delfos para saber , do deus Apolo, o que o futuro reservava a ele. Diante do inusitado questionamento, Apolo pronuncia a seguinte sentença: “O teu filho matará o pai e desposará a mãe.” O filho do rei, e herdeiro do trono, cometerá dois gravíssimos crimes: parricídio e incesto. O herdeiro será criminoso e imoral.

     Para impedir que a terrível profecia se concretize, Laio e Jocasta decidem matar o próprio filho, assim que ele venha ao mundo. Quando do nascimento da criança, cujo nome será Édipo, os reis ordenam a um escravo que a leve para longe da cidade e a mate.

     Com a consciência de que tal acontecimento – a morte da criança – acabaria com qualquer possibilidade de confirmação da previsão do oráculo, Laio e Jocasta retornam à tranquilidade de espírito. Porém, o escravo incumbido de liquidar Édipo acaba por criar um vínculo amoroso com ele e, com pena de matá-lo, entrega-o a um viajante, que o leva para uma cidade longínqua – Corinto – onde é adotado pelos reis.

     Édipo, sem saber que era filho adotivo, cresce em Corinto amando seus supostos pais e sendo preparado para ocupar o trono real. Diante do que lhe guardava o futuro, Édipo deseja conhecer o amanhã, e se dirige para o oráculo de Delfos. Lá, ouve do deus Apolo a mesma sentença: “Matarás te pai e te  casarás com tua mãe.” Aterrorizado com tal futuro, Édipo foge de Corinto,  foge do futuro, foge da possibilidade de confirmação da sentença, pensando que lá residiam os seus verdadeiros pais, e se dirige , fortuitamente, para Tebas.

     No caminho que leva a Tebas, Édipo encontra-se com uma expedição e, entre gozações e provocações, começa a lutar com o chefe da expedição, acabando por matá-lo. Após tal fato, Édipo continua sua caminhada para Tebas, sem saber que o homem que acabara de assassinar era Laio, seu verdadeiro pai.

      Ao chegar em Tebas, Édipo encontra a cidade em destruição. Uma paisagem medonha de doenças, mortes, fome. A cidade estava mergulhada em uma peste, e ela somente acabaria se o enigma proferido pela Esfinge, um monstro que devorava todos os que davam uma resposta errada, fosse solucionado. Diante da Esfinge e de seu enigma (“O que é que de manhã possui quatro pernas, à tarde duas e à noite três?”), Édipo o soluciona (o ser humano), e a Esfinge lança-se no abismo, libertando a cidade da maldição. Com isso, a cidade volta a prosperar e , como prêmio, Édipo recebe a rainha – viúva então – como esposa,tornando-se rei de Tebas. Édipo, sem saber, casa-se com a própria mãe cometendo , assim, o incesto.

     Tebas prospera; Édipo e Jocasta estão felizes no casamento, quando uma nova peste assola a cidade, causando fome e destruição. Ávido por descobrir o culpado por tal fato, Édipo recebe do cego Tirésias, o sábio da cidade, a aterrorizante resposta: “És tu, Édipo, o culpado pela peste, pois foi você que matou o próprio pai e casou-se com a mãe”. Diante de tal descoberta, Jocasta suicida-se e Édipo perfura os próprios olhos e foge de Tebas.



A tragédia e a representação da vida

     Podemos encontrar nessa obra alguns elementos da tragédia conforme o conceito que definimos anteriormente. Por exemplo, o tênue fio que separa a felicidade da infelicidade, a ordem do caos, a paz do conflito. A eterna luta entre a razão e a paixão, entre o pensamento e o sentimento. E, finalmente, o conflito entre a liberdade e o destino.

     Durante toda  a história de Édipo, encontramos o conflito entre o desejo de ser livre e o destino que nos aprisiona. Laio e Jocasta tentaram afirmar a própria liberdade ao confrontar o oráculo de Delfos. Ao ordenar que o filho fosse morto, tentaram dar eles mesmo o rumo da vida, afirmando a liberdade de escolha, os desejos e , de certa , construindo o próprio futuro. Contudo, por mais que afirmassem os seus desejos e a liberdade de escolha, o destino lhes pregava uma peça.

     Na tragédia, o homem e seus desejos são insignificantes se comparados com a complexidade do universo. Na tragédia, como na vida real, o ser humano é um nada , é diluído e engolido pelo turbilhão da existência. O que a peça mostra não é, em absoluto, que a vida já esteja determinada, ela elucida e ilustra a pequenez que é a existência humana se comparada com a complexidade da vida. O que torna, o ser humano diferente dos outros animais, e por isso ele dominou a terra, é, justamente, a razão, a capacidade de articular o conhecimento e expressá-lo em palavras. Contudo, não é esse conhecimento que resolverá os problemas existenciais do homem, suas angústias e seus desejos. Laio , Jocasta e Édipo tinham esse conhecimento, sabiam do futuro, e nem com isso conseguiram ser felizes ou realizar seus ideais. A vida é trágica e não temos como escapar disso.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Movimento contra a liberdade de imprensa

Matéria Movimento contra a liberdade de imprensa – Jornal O Globo 25.2.2015,  opinião p.19
João Ricardo Moderno

     O desprezo pela liberdade de imprensa e de expressão cresce nos políticos radicais brasileiros; e , no Facebook, valendo-se da liberdade da internet, militantes engrossam a voz contra a mídia. O sonho totalitário é tornar a grande imprensa brasileira de timbre estatal, buscando a “harmonia” ditatorial.  Assim, jamais teríamos reportagens estarrecedoras sobre a progressiva e interminável cultura da corrupção, do furto aberto ao dinheiro público e a desavergonhada sucessão de crimes, em uma escalada reconhecida por especialistas como talvez a maior da história da humanidade

     Contudo, nada parece abalar a convicção que a preservação e a expansão política e demográfica do homo corruptus depende da destruição da liberdade. Em latim, corrumpere significa destruir. Assim, corromper a liberdade é a garantia quase constitucional de expandir a corrupção do dinheiro público. O mantra liberticida faz alusão ao  “controle social da mídia” ou “regulamentação da mídia” , eufemismo para a repressão. Controle social da mídia faz o consumidor, que escolhe livremente seus veículos de comunicação.  Os trabalhadores dos meios de comunicação de massa são oriundos dos mais diversos estados da federação, das mais diferentes origens sociais, econômicas , ideológicas, culturais e políticas.

     A guerra de posição gramsciana contra a liberdade de imprensa já começou por meios econômicos, políticos, psicossociais e culturais. Quanto mais são divulgados, os malfeitos criminosos, maior o movimento contra a imprensa livre. O “crime” da  mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o Brasil. A chamada revolução bolivariana na América Latina tem especial objetivo calar a liberdade para implantar uma imprensa subserviente, obediente, corrupta, chapa-branca e autoritária. A liberdade de expressão é a pedra no sapato dos totalitarismos. Por isso, todos os países do eixo-bolivariano formam um bloco unido contra a crítica da imprensa.

     A guerra contra a mídia atinge diretamente a liberdade da arte, da cultura, da ciência, da religião, da economia, da política, do esporte e demais atividades humanas. O fanatismo ideológico associado ao furor da paixão pelo crime financeiro, o materialismo mais hediondo da adoração ao bezerro de ouro e uma vontade patológica de poder se associam para condenar os mais elevados valores e princípios do Estado Democrático de Direito. É nosso dever, pois, defender a liberdade de imprensa e de expressão de toda tentativa de repressão  autoritária, e de todas as agressões explícitas ou dissimuladas. Mais vale corrigir alguns excessos inerentes à democracia que aprovar a exceção do fim da liberdade no Brasil. Democracia é contradição.


Autor- João Ricardo Moderno é presidente da Academia Brasileira de Filosofia.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quem cala consente

Volta ao Mundo – Helena Celestino

 Quem cala consente - Jornal O Globo 4ª feira 25.2.2015 - jornalista Helena Celestino

 Pressão é o nome do jogo. A Cruz Vermelha recebeu carta de ex-primeiros-ministros do Peru pedindo investigação sobre as denúncias de tortura de presos políticos na Venezuela. A União Europeia considerou um motivo de alarme a prisão do prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, e pediu atenção à suposta intimidação e maus-tratos de outros líderes da oposição. Dezenas de países da América do Sul e Europa emitiram notas duras contra a deriva autoritária do governo Nicolás Maduro. Como os brasileiros, argentinos , chilenos e uruguaios na década de 60 e 70 , venezuelanos de oposição recorrem à opinião pública internacional para denunciar a violação de direitos humanos em seu país. 

 A geração da presidente Dilma Rousseff e do secretário especial Marco Aurélio Garcia conhece esse roteiro. Décadas antes, eles estavam entre as vítimas da truculência da ditadura brasileira e receberam a solidariedade de países democráticos e ONGs internacionais, em campanhas internacionais ou negociações diplomáticas que cobravam respeito aos direitos humanos no Brasil. Faz muito tempo, mas a primeira lua política a gente não esquece. Só que não. Agora, no poder, a presidente escolhe uma cautela extrema e hesita em condenar o desrespeito às liberdades democráticas na Venezuela. 

Em boca fechada não entra mosca, certo? A atitude não combina com pretensões do país em liderar o continente nem leva à conquista de prestígio na cena internacional. O Itamaraty só se pronunciou sobre a crise no vizinho porque foi surpreendido pelo anúncio do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, de que os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia se reuniriam para mediar o conflito político. Ontem, uma segunda nota foi divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, um texto de 12 linhas quase anódino*: sob o título “Situação na Venezuela”, expressa “grande preocupação” do governo brasileiro com o país vizinho e, sem se referir às prisões arbitrárias, informa que acompanha os acontecimentos junto com a comissão da Unasul. Meia verdade. Maduro ainda não aceitou a mediação do grupo, a comissão não tem data para se reunir e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, está em Londres e domingo vai à posse do novo presidente do Uruguai.

 A Venezuela está entre as alianças estratégias partidárias e cabe ao assessor especial Marco Aurélio Garcia liderar a rede diplomática com o regime bolivariano. Os chefes da oposição ao governo Maduro – sabemos – não são idealistas lutando pela liberdade como foram os jovens brasileiros nos anos de chumbo. O prefeito encarcerado é acusado de ter participado do golpe contra Chávez em 2002. Nunca nada foi provado contra ele, mas Ledezma teria estado com os golpistas no Palácio Miraflores nos dois dias em que o presidente deposto esteve preso, tempo suficiente também para o novo governo ser reconhecido pelos EUA. Chávez voltou ao poder e lá ficou até a morte mas, desde então, a cada crise, invoca-se o fantasma da intervenção externa na política venezuelana. Maduro, no dia seguinte à prisão do prefeito de Caracas, apareceu vestido de bandeira da Venezuela, ao lado de generais e ministros, acusando Ledezma – duas vezes eleito prefeito de Caracas – de planejar a derrubada do regime. A prova mais contundente, citada por Maduro, seria sua assinatura no “chamado aos venezuelanos para um governo de transição”, documento em defesa de um pacto nacional contra a crise, com propostas banais para qualquer partido de oposição ao redor do mundo. “A direita em Madri, a extrema-direita em Bogotá e a ultradireita em Miami forjaram um eixo para conspirar contra nosso país”, disse Maduro na televisão. 

 Falta provar. Por enquanto a acusação foi rechaçada por organizações internacionais e governos de todos os países acusados. O regime do paranoico herdeiro de Chávez se esfacela, mas não por culpa de um “grande irmão”. As causas são as conhecidas: a derrubada dos preços do petróleo, mais anos de incompetência administrativa e corrupção que desarrumaram a economia, causaram desabastecimento e reduziram a qualidade de vida dos venezuelanos. As conquistas econômicas e sociais da população mais pobre – impulsionadas pelos programas sociais de Chávez – estão em perigo com uma inflação de 68% e desvalorização cambial de 70%.

 A reação de Madura à crise é prender os suspeitos habituais, recorrendo a métodos cada vez mais violentos. Leopoldo López, preso há um ano por causa de protestos de rua, foi espancado na cela na véspera da detenção do prefeito de Caracas. Ao perguntar pelo mandato de prisão, Ledezma ouviu dos agentes do serviço secreto um palavrão e ficou desaparecido por várias horas até ser confirmada a sua detenção. A Anistia reportou dezenas de prisões arbitrárias e indícios de tortura: dissidentes seriam levados para a Tumba, uma prisão muitos metros abaixo do solo, onde reina um frio pavoroso e a música é tonitruante*. São denúncias de parentes e de advogados dos presos, a mesma rede que denunciou a tortura nos porões da ditadura. Dá para ficar calado? O velho e desgastado ditado popular vale como etiqueta para a postura do governo brasileiro: “Quem cala consente.”


 Anódino: adj 1. Que instiga dores . 2. Fig – pouco importante ou insignificante, SM 3. Medicamento anódino. Tonitruante – atroador, estrondoso

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um pouco de história

Texto: 02
Um pouco de História

     A Revolução Industrial na Inglaterra (século XIX) foi decorrência das várias inovações técnicas que começaram a ocorrer no século XVII com a Revolução Científica, portanto, não foi algo que aconteceu do dia para a noite. Mas foi no século XIX que a Revolução Industrial gerou profundas mudanças econômicas e sociais, muitos pensadores a consideram como a vitória do modo de produção capitalista sobre o sistema feudal e a primeira grande revolução tecnológica. No que se refere às mudanças econômicas e sociais , ocorre uma mudança na estrutura da sociedade com a nova divisão social do trabalho decorrente do modo de produção capitalista e consequentemente nas relações sociais principalmente no trabalho.  Se durante o feudalismo a sociedade era estamental a partir do século XIX com o advento da Revolução Industrial e a divisão social do trabalho, a sociedade passa a ser de classes, que segundo Karl Marx: de um lado os proletários (sem propriedade privada) e do outro burgueses (proprietários). Para Karl Marx as relações de trabalho ao longo da história sempre foram de exploração, mas é no modo de produção capitalista que a desigualdade social  e econômica é maior definido à propriedade privada.

        Pode-se dizer portanto que a sociologia nasce do conflito entre a burguesia e o proletariado de um lado (das condições de vida do proletariado), marcada portanto, pela questão social. Vale lembrar que estamos falando do século XIX, quando vários países europeus estavam vivendo a Revolução Industrial e sequer tinham certos direitos básicos, como os direitos sociais e políticos, por exemplo.  Não é por menos, que Karl Marx chama atenção para a consciência de classe do operário e os conclama a fazer uma revolução, a Revolução Proletária. Em outras palavras, alerta aos operários para a necessidade de transformar a sociedade, de mudar a sociedade e transformá-la numa sociedade socialista com a abolição da propriedade privada e das classes sociais.


Mas o que é Revolução?

     “Transformação radical de um sistema político, econômico e social considerado injusto, consistindo, numa primeira fase, na destruição da ordem vigente seguindo-se a imposição de uma nova ordem, geralmente por meio da violência armada” – Sergio A de A Coutinho

     Revolução no sentido acima tem um significado negativo aqui estamos nos referindo aos processos sociais que podem ser associativos e dissociativos. O que é um processo social dissociativo? O que é um processo social associativo?

     E como podemos promover mudança social? A mudança social ou transformação social deve começar pela sociedade ou pode partir da iniciativa do próprio indivíduo? E a pergunta continua: mas afinal de contas o que é sociedade? É possível transformar a sociedade radicalmente?

Atualidades: Século XXI
     Como as redes sociais podem ser usadas para promover mudanças sociais?
    


     Cabo Frio 19 de fevereiro de 2015

Breve introdução à Sociologia

Texto – Introdução à Sociologia
Breve Histórico da Sociologia: Quando a sociologia surgiu?

     A Sociologia definida como a ciência que estuda a sociedade nasceu somente no século XIX como resultado das muitas transformações que estavam ocorrendo nas sociedades europeias nesta época. As principais transformações foram a Revolução Industrial e a divisão social do trabalho principalmente nas fábricas (particularmente na Inglaterra).

      Nessa época aparecem pensadores que estavam preocupados em entender as causas e as consequências da Revolução Industrial nas sociedades. Em outras palavras, pensadores como Emille Durkheim (1858-1917), sociólogo francês; Karl Marx (1818-1883), sociólogo e filósofo alemão e Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão tentaram responder à seguinte pergunta: Com a Revolução Industrial e o modo de produção capitalista que mudanças geraram na sociedade europeia do século XIX? Cada um desses sociólogos apresentou a sua interpretação dos acontecimentos naquela época, e tem sua interpretação do que é sociedade e como promover a mudança social ou transformação social. Eles são considerados os clássicos da sociologia justamente por terem sido os primeiros a tentarem entender e explicar o que estava acontecendo naquela época.

     Com o passar dos anos e o avançar dos estudos da sociologia, pouco a pouco muitos estudos   buscam compreender a sociedade não de maneira geral, mas a partir da relação indivíduo e sociedade. Um dos sociólogos pioneiros neste objeto de estudo é o sociólogo americano Mill, para quem o estudo desta relação pode ser útil também ao indivíduo, uma vez que ele poderá analisar melhor suas vivências , experiências e aprender a lidar com diferentes situações.

Para entender melhor:
1)O que foi  a Revolução Industrial no século XIX?
O aluno precisará ter a base de história para acompanhar.
2) Que transformações ocorreram nas sociedades europeias daquela época?
(O aluno precisará ter a base de história para acompanhar)
3) O que é Revolução?

O que a Sociologia estuda?

     E ai o que a Sociologia estuda? Responder que a “sociologia estuda a sociedade” significa diminuir a sua importância para a compreensão da realidade que nos cerca. Afinal de contas o que é sociedade? A sociedade é algo estático parado no tempo? Ou ela vive em constante movimento? Então é importante compreendermos uma coisa que se a sociologia busca entender a sociedade dentro de uma realidade (mas é preciso compreendermos que temos muitas “realidades”, a minha realidade pode ser completamente diferente da sua), e se esta sociedade passa por mudanças, a sociologia busca portanto compreender e explicar a dinâmica social.
    Em  linhas gerais a Sociologia estuda a relação do indivíduo com a sociedade (as diferentes formas de interação social e relação social entre os indivíduos e seus diferentes grupos sociais), os processos sociais e a dinâmica social. Veremos com mais calma isso ao longo do curso.
Para compreender melhor:

1)O que se entende por sociedade?
2)O que são processos sociais?
3) O que é dinâmica social?
4)Como funciona essa coisa da relação indivíduo e a sociedade?

Para que serve a Sociologia?


     A Sociologia serve para compreendermos e explicarmos pedaços da realidade. Para isso ela usa métodos qualitativos (entrevistas) e quantitativos (métodos estatísticos). Ela é útil para compreender os processos sociais e a relação indivíduo-sociedade. Em termos teóricos ela usa um vocabulário próprio o que significa dizer que uma simples palavra pode ter várias interpretações, por exemplo, quando falamos de liberdade ou de igualdade: Que tipo de liberdade estamos falando? E que tipo de igualdade estamos falando? Assim como a compreensão do que se entende por sociedade e mudança  transformação social. Todo cuidado é pouco com as palavras, pois uma palavra pode ter vários conceitos (significados ou interpretações). E termos práticos ela pode ser usada como instrumento de mudança social ou transformação social.


Cabo Frio 19 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Texto - A Felicidade..

O texto abaixo é bem interessante para pensarmos sobre nossas próprias vidas. Eu particularmente tenho ao menos uma consideração a fazer, percebo em Sócrates o primeiro filósofo a se preocupar com a questão agir humano, do comportamento humano em sociedade, ele não deixou nada escrito muito ou quase tudo que sabemos dele devemos aos seus discípulos Platão e Aristóteles.

Bom deixando de lado essa consideração o que importa é que todos nós queremos ser felizes. Mas o que significa felicidade para mim pode não ser a mesma coisa para as outras pessoas. E para você o que significa felicidade? O que te deixa feliz?

Pretendo trabalhar este texto na primeira aula de sociologia da NEJA tanto a I quanto a II.
Mesmo não dando mais aulas de filosofia esta pergunta é fundamental e perpassa todas as sociedades e faz parte de nosso processo civilizatório.

Lá vai o texto

     Os seres humanos agem conscientemente, e cada um de nós é senhor de sua própria vida. Mas como resolvemos o que fazer? Você em algum momento já pensou em como você toma as decisões sobre o que fazer em determinada situação ? Você age impulsivamente, fazendo “o que der na telha” ou analisa cuidadosamente as possibilidades e as consequências, para depois resolver o que fazer?
     A filosofia pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria vida. Chama-se ética a parte da filosofia que se dedica a pensar as ações humanas e os seus fundamentos. Um dos primeiros filósofos a pensar a ética foi Aristóteles, que viveu na Grécia no século IV a.C. Esse filósofo ensinava numa escola à qual deu  nome de Liceu, e muitas de suas obras são resultado das anotações que os alunos faziam de suas aulas. As explicações sobre ética foram anotadas pelo filho de Aristóteles chamado Nicômaco, e por isso esse livro é conhecido por nós com o título de Ética a Nicômaco.
     Em suas aulas, Aristóteles fez uma análise do agir humano que marcou decisivamente o modo de pensar ocidental. O filósofo ensinava que todo conhecimento e todo trabalho visa algum bem. O bem é a finalidade de toda ação. A busca do bem é o que difere a ação humana da de outros animais.
     Ele perguntou: Qual é o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação? E como resposta encontrou: a felicidade. Essa resposta formulada pelo filósofo encontra eco até nossos dias. Tanto o homem do cotidiano como todos os grandes pensadores estão de acordo que a finalidade da vida é ser feliz. Identifica-se o bem viver e o bem agir com o ser feliz.
    No entanto, disse Aristóteles, a pergunta sobre o que é felicidade não é respondida igualmente por todos. Cada um de nós responde de uma forma singular. Essa singularidade na reposta é partilhada por outros indivíduos com os quais convivemos. Portanto, no processo de nossa educação familiar, religiosa e escolar aprendemos a identificar o ser feliz com os valores que sustentam nossas ações.
     Toda produção histórica dos seres humanos consiste em criar condições para que o homem seja feliz. Todas as religiões, as filosofias de todos os tempos, as conquistas tecnológicas, as teorias científicas e toda a arte são criações humanas que procuraram apresentar condições para a conquista da felicidade.   O processo civilizatório iniciou-se com a promessa de felicidade.

Fonte: livro Ética e Cidade, Sílvio Gallo (coordenador); Unidade  5 – Ética e Civilização pág 54