Livro Ética e Cidadania –
Caminhos da Filosofia – 20ª Edição
Sílvio Gallo (Coord.) – Grupo
de Estudos sobre Ensino de Filosofia
Unidade 9
Estética: Arte e Vida Cotidiana – p83 a 94
Jorge e Amanda estudavam
juntos: cursavam a 3ª série do ensino médio numa escola pública, pois ambos
trabalhavam. Ele, num banco; ela era vendedora numa loja de roupas. Sempre que
podiam, juntavam uma turma após as aulas e, equipados com algumas latas de tinta
spray , saíam loucos para encontrar
um muro branquinho , onde pudessem fazer uma bela pichação. No começo, a coisa
começou meio na brincadeira: era gostoso
sentir aquele medo de ser pego enquanto expressavam o que queriam.... Mas, com
o tempo, a brincadeira foi ficando cada vez mais séria. As pichações ficaram
cada vez mais elaboradas, com desenhos complexos e coloridos. Quando
terminavam, ficavam admirando sua obra....
Mas, em momento algum, imaginavam que nada mais estavam fazendo do que
expressar um dos sentimentos mais humanos: o gosto pela beleza e a vontade de
criá-la com as próprias mãos.
Nos dias de hoje, a palavra estética é
usada em vários sentidos; todos eles, porém, partem do conceito original usado
pelos gregos antigos, ou seja, designar aquilo que tenha a ver com os
sentimentos, com os sentidos, com a percepção. Assim, a estética também está
ligada à atividade artística, já que se preocupa com as obras que o ser humano
faz com a finalidade de serem belas, e com os sentimentos que elas provocam em
nós. Em termos gerais, podemos dizer que a estética é a área da filosofia que
estuda a arte e suas relações com o ser humano.
A arte em nosso cotidiano
Frequentemente, ouvimos
dizer que arte é uma coisa inútil, ou vemos pessoas zombando de certas obras de
arte de características pouco comuns em nosso dia a dia. Isso se dá porque elas
não conseguem entender o que a obra significa, ou qual a “mensagem” que o
artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser humano, ou
qual a “mensagem” que o artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser
humano, pelas suas características biopsicossociais (o seu corpo, a sua razão e
a sua convivência com outras pessoas), tem a tendência de se manifestar no
mundo de maneira estética, procurando estabelecer em sua vida uma relação de
beleza com tudo que o cerca. Essa manifestação, em alguns casos, tende a ser
muito pessoal, pois o artista irá colocar sua impressão a respeito de um fato
social ou da natureza retratando-o na obra.
O artista pode determinar funções para sua
obra. Alguma delas são:
Políticas:
A obra toma uma posição
crítica a respeito de um fato ou problema social, denunciando uma injustiça,
propondo uma ideologia política, ou simplesmente retratando a realidade de uma
sociedade.
Religiosas:
Servem às necessidades
místicas das pessoas, para afirmar determinada proposta religiosa, fazem parte
do próprio culto em alguns casos, tal como as imagens sagradas da religião
católica.
Pedagógicas:
Têm uma função social de
colaborar na educação das pessoas, levando-as a compreender o mundo por meio
dos objetos artísticos.
Naturalistas:
A obra tem a finalidade
exclusiva de retratar a realidade; por exemplo: a fotografia 3X4 que você tem
no RG
Formalistas:
Se preocupam exclusivamente
com a técnica usada naquele tipo de arte.
Por meio da técnica, o artista faz uso de
conceitos práticos para “construir” sua obra de arte – o pinto mistura tintas
para conseguir uma tonalidade mais clara ou mais escura e que dará mais força a
seu trabalho.
Por meio do conhecimento, o artista faz
uso da experiência adquirida por si mesmo e pelos outros – o mesmo pintor sabe
que misturando as cores amarela e azul irá conseguir a cor verde.
Por meio da expressão, o artista faz uso
da sua sensibilidade, de sua intuição e de sua imaginação para dar a sua obra
um caráter único, fazendo do objeto algo cheio de sentidos, sentidos que irão
tocar a todos que o virem – assim, o pintor irá retratar em sua obra o produto
de sua criatividade pessoal, que comunique aos outros seus sentimentos e
impressões a respeito de um fato qualquer, seja um fato social, seja um fato da
natureza, seja mesmo um fato da sua imaginação.
Arte: Fundamento do mundo
Antes de qualquer
afirmação prematura, faz-se necessária uma interrogação: Por que é a arte o
fundamento do mundo, como o título propõe? Por que a literatura, a música, a
pintura, a escultura, que são manifestações artísticas, constituem a essência
do mundo? Não seria mais correto afirmar que a economia, a dimensão econômica,
seria o fundamento do mundo, já que todo dia e o dia inteiro usamos o dinheiro
na compra de roupas da moda , do lanche no bar, do presente para o (a) namorado
(a)? Vivemos no impassr e na torcida: Será que a inflação aumentará? Será que
teremos aumento salarial? Até quando estaremos empregados?
Ou não seria mais correto afirmar que a
política é o fundamento do mundo, já que nossas vidas
seguem o rumo das decisões tomadas pelos governantes? Vamos imaginar (a
imaginação é um meio de criação artística) a seguinte situação: o governo, para
acabar com o déficit público, decide elevar todos os impostos em
60%, por exemplo. Diante dessa situação, centenas de grandes empresas decidem
fechar suas fábricas aqui, pois o custo de produção seria muito elevado,
transferindo a produção para outro país. Consequência dessa medida: milhares de
desempregados. Quase que anualmente estamos votando para deputado, senador,
vereador, presidente, governador, prefeito, síndico, presidente de sindicato ou
centro comunitário. Vivemos na esperança
de que essas pessoas – que deveriam representar as nossas vontades – tomem
decisões que tornem nossas vidas melhores.
Mas, voltemos a nossa questão inicial e,
para tal, lembremos as palavras do filósofo alemão do final do século XIX ,
Friedrich Nietzsch: “A partir de agora, o domínio da ciência só se produz pela
arte. Trata-se de juízos de valor sobre o saber e o saber muito. Tarefa imensa
e dignidade arte nesta tarefa! Ela deve recriar tudo e recolocar sozinha a vida
no mundo”.
Vivemos,
seguramente, graças ao caráter superficial do nosso intelecto, numa ilusão
perpétua: temos então, para viver, necessidade da arte a cada instante. A nossa
visão prende-nos às formas. Mas se somos nós próprios quem, gradualmente, educa
essa visão, vemos também reinar em nós uma força de artista. Mesmo na natureza
se encontram mecanismos contrários ao saber absoluto: o filósofo reconhece a
linguagem da natureza e diz: “Temos necessidade da arte” e “só precisamos de
uma parte do saber” (O livro do filósofo,
aforismos 39 a 51)
.
É a
arte o fundamento do mundo, pois todas as coisas existentes possuem forma, cor
, textura, peso, cheiro , e esses objetos são apreendidos pelos nossos sentidos
e pela nossa razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando
livre razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre
vazão ao seu imaginário, tornando reais seus desejos, suas fantasias e seus
sonhos.
O homem é um ser sociável, vive circunscrito
numa sociedade e convive com seus semelhantes. As coisas que criamos têm por
objetivo despertar no outro sensações de prazer ou dor; admiração ou repulsa;
aprovação ou desaprovação. Criamos coisas, sejam belas ou feias – não importa,
pois beleza e feiura são conceitos subjetivos - , para despertar sentimentos no
outro. Criamos coisas para tocar no mais íntimo dos sonhos e desejos. Criamos
coisas para serem aprovadas ou desaprovadas, amadas ou odiadas, não importa,
pois o que realmente interessa é que esses objetos toquem o fundo da alma das
pessoas. E é esse justamente o objetivo de toda obra de arte: despertar
sentimentos, sensações, tornar presentes sonhos e desejos que tanto escondemos
e reprimimos.
Quando olhamos uma pessoa que achamos
belíssima, olhamos e ficamos como que hipnotizados por tal beleza de formas e
contornos. Não conseguindo disfarçar o olhar, em nosso íntimo, desejos
perversos, românticos e eróticos de tocar, experimentar, possuir afloram com
intensidade vulcânica. Ou quando olhamos uma foto, em um jornal ou revista, de
uma senhora com avental, chinelos e lenço na cabeça. Ao olharmos tal foto,
somos transportados para um passado distante, para um período de nossa
infância. Essa fotografia nos faz recordar de um momento feliz, das
brincadeiras de rua, da bola, da corda, das paqueras de criança, da ausência de
relógio. Faz recordar a eternidade do passar dos dias, tal a intensidade com
que eram vividos; a liberdade e a
despreocupação com o futuro. Tal fotografia nos faz recordar da vida vivida a
cada instante, do paraíso vivido e perdido.
Imaginemos a seguinte situação: estamos
abarrotados de coisas a serem estudadas para o vestibular no fim do ano.
Estamos trancafiados e sufocados nesse cubículo que é a aprovação num
vestibular, a escolha de uma profissão,
e estamos uma pilha de nervos tal
o grau de responsabilidade, tais as cobranças e as preocupações que recaem em
nossas costas. De repente, uma música invade o quarto, passando pelas sólidas
paredes. Começando a ouvir a música, nossa atenção é desviada dos estudos.
Lutamos para retornar aos livros, mas não conseguimos fechar. A música
invadindo nosso ser, tomando conta dos nossos sentimentos, tornam aflorar
antigas paixões. A música torna presente amores vividos e perdidos, carinhos,
beijos, toques; lugares e momentos desfrutados a dois; uma época em que o outro
é o sentido da vida. E, nesse louco sentimento, entregamo-nos de corpo e alma
aos prazeres ou dores despertados pelas recordações. Nessa viagem pelo passado,
damo-nos conta de que lágrimas brotaram em nossos olhos, tal a intensidade de
tais lembranças e, nesse momento, o que importam os estudos, os vestibulares, a
faculdade , a profissão e o futuro?
No fenômeno artístico, percebemos a
verdadeira natureza da realidade; a arte é a condição de um princípio
ontológico do ser; é a chave que nos permite o acesso à essência do mundo; é o
caminho mais original e autêntico de compreensão da realidade.
A arte é o centro da vida, e é a partir
dela que deciframos o mundo. É somente com os olhos da arte que o homem
consegue apreender a sua essência, pois esta se manifesta sob a forma
artística.
A existência humana, o mundo e todas as
manifestações da vida são, fundamentalmente , fenômenos artísticos. É na arte
que temos a transfiguração de tudo o que existe, seja o belo, o sublime, seja o
horrível, a fealdade. É na arte que encontramos a essência do existente, pois
tudo que vemos e apreendemos é manifestação artística. A arte é a luz que nos permite conhecer a vida e o
mundo, pois tanto a vida como a existência são categorias estéticas. Nós, seres
humanos, somos manifestações artísticas; a vida é uma grande obra de arte; o
mundo é, essencialmente, arte.
Se é pela arte que conhecemos mundo e a
vida, podemos perguntar: Qual é o caminho que a arte adota para conhecer o
mundo? Qual é a categoria interpretativa da arte? A tal interrogação podemos
responder: a intuição. A arte exige a certeza imediata da intuição. As ideias
fundamentais e essenciais possuem a forma de iluminação intuitiva. Nesse
aspecto, a razão é situada num segundo plano, pois o conhecimento racional é
extremamente limitado se comparado com a intuição. A arte é apreendida pela
intuição e não pela razão.
A tragédia de Édipo
Os gregos antigos, ao inventarem o teatro,
criaram duas formas de representar a realidade nos palcos: a comédia, que
procurava representar a vida pela farsa e despertar risos na plateia; e a
tragédia que, ao contrário, trabalhava com o drama e procurava emocionar a
plateia, fazendo com que cada um se reconhecesse nos fatos representados. Para
eles, o teatro não era uma simples forma de diversão, mas um importante fator
de regulação da vida social, uma atividade que representava o cotidiano vivido
pelas pessoas e as ajudava a refletir sobre a vida.
O que entendemos por tragédia? A tragédia
está, fundamentalmente, em relação com a vida concreta, com nossa existência.
Na tragédia, temos a contínua erupção de momentos “aterrorizantes”, em que a
felicidade se dilui se tornando um nada, e de momentos “sublimes”, nos quais o
estado de felicidade é desfrutado. Na tragédia, temos a manifestação concreta
da nossa vida, pois vida é exatamente isto: uma gangorra que ora pende para a felicidade
e ora para a infelicidade; para a paz ou para a angústia. A contínua troca de
estados é a própria natureza da tragédia e da vida.
Para melhor ilustrar esse conceito de
tragédia, reproduziremos, de forma muito sintética, o enredo de uma tragédia
grega clássica escrita por Sófocles e intitulada Édipo-Rei.
Nessa peça de teatro, os acontecimentos se
passam em Tebas, cidade grega, cujo rei – Laio – e sua esposa e rainha –
Jocasta – aguardam o nascimento do futuro herdeiro do trono. Ávidos por
conhecer o futuro e prevenir-se de qualquer acontecimento inesperado, Laio e
Jocasta dirigem-se ao oráculo de Delfos para saber , do deus Apolo, o que o
futuro reservava a ele. Diante do inusitado questionamento, Apolo pronuncia a
seguinte sentença: “O teu filho matará o pai e desposará a mãe.” O filho do
rei, e herdeiro do trono, cometerá dois gravíssimos crimes: parricídio e
incesto. O herdeiro será criminoso e imoral.
Para impedir que a terrível profecia se
concretize, Laio e Jocasta decidem matar o próprio filho, assim que ele venha
ao mundo. Quando do nascimento da criança, cujo nome será Édipo, os reis
ordenam a um escravo que a leve para longe da cidade e a mate.
Com a consciência de que tal acontecimento
– a morte da criança – acabaria com qualquer possibilidade de confirmação da
previsão do oráculo, Laio e Jocasta retornam à tranquilidade de espírito.
Porém, o escravo incumbido de liquidar Édipo acaba por criar um vínculo amoroso
com ele e, com pena de matá-lo, entrega-o a um viajante, que o leva para uma
cidade longínqua – Corinto – onde é adotado pelos reis.
Édipo, sem saber que era filho adotivo,
cresce em Corinto amando seus supostos pais e sendo preparado para ocupar o
trono real. Diante do que lhe guardava o futuro, Édipo deseja conhecer o
amanhã, e se dirige para o oráculo de Delfos. Lá, ouve do deus Apolo a mesma
sentença: “Matarás te pai e te casarás
com tua mãe.” Aterrorizado com tal futuro, Édipo foge de Corinto, foge do futuro, foge da possibilidade de
confirmação da sentença, pensando que lá residiam os seus verdadeiros pais, e
se dirige , fortuitamente, para Tebas.
No caminho que leva a Tebas, Édipo
encontra-se com uma expedição e, entre gozações e provocações, começa a lutar
com o chefe da expedição, acabando por matá-lo. Após tal fato, Édipo continua
sua caminhada para Tebas, sem saber que o homem que acabara de assassinar era
Laio, seu verdadeiro pai.
Ao chegar em Tebas, Édipo encontra a
cidade em destruição. Uma paisagem medonha de doenças, mortes, fome. A cidade
estava mergulhada em uma peste, e ela somente acabaria se o enigma proferido
pela Esfinge, um monstro que devorava todos os que davam uma resposta errada,
fosse solucionado. Diante da Esfinge e de seu enigma (“O que é que de manhã
possui quatro pernas, à tarde duas e à noite três?”), Édipo o soluciona (o ser
humano), e a Esfinge lança-se no abismo, libertando a cidade da maldição. Com
isso, a cidade volta a prosperar e , como prêmio, Édipo recebe a rainha – viúva
então – como esposa,tornando-se rei de Tebas. Édipo, sem saber, casa-se com a
própria mãe cometendo , assim, o incesto.
Tebas prospera; Édipo e Jocasta estão
felizes no casamento, quando uma nova peste assola a cidade, causando fome e
destruição. Ávido por descobrir o culpado por tal fato, Édipo recebe do cego
Tirésias, o sábio da cidade, a aterrorizante resposta: “És tu, Édipo, o culpado
pela peste, pois foi você que matou o próprio pai e casou-se com a mãe”. Diante
de tal descoberta, Jocasta suicida-se e Édipo perfura os próprios olhos e foge
de Tebas.
A tragédia e a representação da vida
Podemos
encontrar nessa obra alguns elementos da tragédia conforme o conceito que
definimos anteriormente. Por exemplo, o tênue fio que separa a felicidade da
infelicidade, a ordem do caos, a paz do conflito. A eterna luta entre a razão e
a paixão, entre o pensamento e o sentimento. E, finalmente, o conflito entre a
liberdade e o destino.
Durante toda a história de Édipo, encontramos o conflito
entre o desejo de ser livre e o destino que nos aprisiona. Laio e Jocasta
tentaram afirmar a própria liberdade ao confrontar o oráculo de Delfos. Ao
ordenar que o filho fosse morto, tentaram dar eles mesmo o rumo da vida,
afirmando a liberdade de escolha, os desejos e , de certa , construindo o
próprio futuro. Contudo, por mais que afirmassem os seus desejos e a liberdade
de escolha, o destino lhes pregava uma peça.
Na tragédia, o homem e seus desejos são
insignificantes se comparados com a complexidade do universo. Na tragédia, como
na vida real, o ser humano é um nada , é diluído e engolido pelo turbilhão da
existência. O que a peça mostra não é, em absoluto, que a vida já esteja
determinada, ela elucida e ilustra a pequenez que é a existência humana se
comparada com a complexidade da vida. O que torna, o ser humano diferente dos
outros animais, e por isso ele dominou a terra, é, justamente, a razão, a
capacidade de articular o conhecimento e expressá-lo em palavras. Contudo, não
é esse conhecimento que resolverá os problemas existenciais do homem, suas
angústias e seus desejos. Laio , Jocasta e Édipo tinham esse conhecimento,
sabiam do futuro, e nem com isso conseguiram ser felizes ou realizar seus
ideais. A vida é trágica e não temos como escapar disso.

