Oração transcrita pelo Pe. Luis Eduardo Cestac no dia 13 de janeiro de 1864 em ocasião da aparição de Nossa Senhora
Oração : "Augusta, Rainha dos céus"
Augusta Rainha dos Céus, soberana mestra dos Anjos,
Vós que, desde o princípio, recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás,
Nós vo-lo pedimos humildemente,
Enviai vossas legiões celestes para sob vossas ordens,
e por vosso poder,
Elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte,
Reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo.
Quem é como Deus?
Ó mãe de bondade e ternura,
Vos sereis sempre o nosso Amor e nossa esperança.
Ó mãe divina
Enviai os Santos Anjos para nos defenderem,
E repeli para longe de nós o cruel inimigo
Santos Anjos e Arcanjos
Defendei-nos e guardai-nos.
Amém
sábado, 2 de julho de 2016
terça-feira, 28 de junho de 2016
Conversa com Deus
Das dores que sinto converso com Deus
Peço a Ele forças para superá-las
E compaixão, pois há pessoas com dores maiores.
Peço a Ele forças para superá-las
E compaixão, pois há pessoas com dores maiores.
terça-feira, 10 de março de 2015
SERVIR E SER SIMPLES
Minha intenção é trabalhar este texto com os alunos da NEJA I com o objetivo de trabalhar histórias de vida - Trajetórias individuais dos meus alunos - Quem é o aluno da NEJA? Será que conseguirei?
Destaco que respeito todas as crenças religiosas e até mesmo os Ateus.
Mas peço lhes que tenham o coração aberto a evolução espiritual.
Afinal de contas o que nos distingue dos demais seres vivos e dentro do reino animal é a nossa capacidade de refletir, de pensar quem nós somos e para onde queremos ir. E o que podemos fazer neste momento. A revolução tem que partir dentro para fora? Ou de fora para dentro? Em outras palavras: Você vai esperar a sociedade mudar para mudar seu interior? Ou você mesmo terá a coragem para ser o agente da sua própria mudança?
Livro: Asas para Voar – 2ª edição 2009
Autor: Dom
Cipriano Chagas, OSB
Quem
é Dom Cipriano Chagas?
Dom
Cipriano Chagas, OSB
Nascido
em Passos (MG), em 13 de fevereiro de 1923. Foi casado com a jovem Rachel que o
resgatou para o cristianismo e a Igreja Católica. Deste matrimônio o fruto foi
Eduardo que logo veio a falecer e, um ano depois, Rachel também veio a falecer.
Homem experimentado, encontrou no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, o
novo sentido de sua vida, ser sacerdote do Deus Altíssimo. Trabalhou
durante muitos anos na direção
espiritual de casais e de muitas famílias.. Também é um dos precursores da
Renovação Carismática Católica no Brasil, fundador –presidente da Comunidade
Emanuel (RJ). Fundador da revista Jesus Vive e é o Senhor da Edições
Louva-a-Deus. Tem mais de 40 livros publicados e cerca de 10.000 palestras
gravadas.
Capítulo 8 –
Servir e Ser Simples – págs 91 a 96
Embora Jesus chamasse os discípulos para
estar com ele, eram também enviados a pregar e “a curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar leprosos, expulsar
demônios” (Mt 10,8). Logo que chamou
Simão e André, disse-lhes que os mudaria em pescadores de homens (Mc 1,17). Os
setenta foram enviados no nome de Jesus ocmo mensageiros da paz: “Curai os enfermos... e dizei-lhes: ̔o reino de Deus chegou para vós” (Lc
10,1-20). Jesus tinha vindo para dar a sua vida pelos outros e seus discípulos
deviam fazer exatamente o mesmo.
No entanto, nem sempre o compreenderam.
Jesus descobriu repetidas vezes que seus discípulos caíam em duas tentações
iguais e opostas, que tolhiam seu espírito de serviço. A primeira tentação era
ser ambiciosos. Várias vezes viam-se discutindo
sobre quem era o maior. Quando Tiago e João pediram os lugares de maior
honra no reino dos céus, demonstraram o espírito do mundo que busca status em
vez de serviço. Jesus os repreendeu: “Quem quiser ser grande entre vós,seja vosso
servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o vosso escravo; assim como
o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate de muitos.” (Mt 20, 26-28): Mais tarde demonstrou esse
espírito de serviço de um modo que eles nunca esqueceram: enrolando uma toalha
em sua cintura e ajoelhando-se , lavou os pés dos discípulos.
A segunda tentação deles era a autoridade.”Eis que deixamos nossas casas e vos
seguimos”,protestou Simão Pedro. Mas Jesus lhe assegurou que ele “receberia muitas vezes mais neste tempo, e no mundo vindouro a vida
eterna” (Lc 18,28-30).Embora precisemos ser honestos sobre nossas próprias fraquezas ,no momento em que
caímos na autopiedade, prejudicamos a obra de Deus em nossas vidas. É apenas
quando aceitamos nossa fraqueza humana, sabendo que a graça de Deus é
suficiente, desejando apenas o reino de Deus, poderemos servir os outros com o
espírito amoroso,gracioso e humilde de
Jesus Cristo. O servo não deve exigir certas condições de serviço. Ele
renunciou a seus direitos, e pode bem
ter que passar sem confortos e recompensas normais. Ao crescermos em anos , é
fácil procurar privilégios, posição e respeito. Não foi este o caminho de
Jesus.
Nestes nossos tempos de publicidade é
fácil apresentar Jesus como aquele, que satisfará todas as suas necessidades.
Está ansioso? Jesus lhe trará paz! Está perdido? Jesus o ajudará a encontrar a
verdadeira direção! Está deprimido! Jesus encherá tua vida de alegria! Tudo
isto é parte das boas novas de Jesus,
ele anseia por satisfazer nossas mais profundas necessidades. Mas é apenas
metade da história. Na prática, muitas das nossas necessidades serão
satisfeitas ao dar-nos em serviço a Jesus e aos outros. Aqueles que estão
prontos a perder sua vida, encontrá-la-ão. É ao darmos que Deus nos dará – “uma boa medida, sacudida, transbordante,
será posta em vosso colo. Pois a medida com que medirdes será usada para vos
medir.” (Lc 6,38). Quando os setenta saíram a pregar e a curar, voltaram
cheios de alegria por causa de tudo o que tinham experimentado (Lc 10,17).
As necessidades do mundo são imensas. Deus
quer alcançar todos os que estão clamando por ajuda;mas escolheu agir primeiro
por seus discípulos. Se ficarmos tomados com nossas próprias necessidades
pessoais ou estivermos buscando posição, estatus na igreja ou no mundo, seremos
de pouco ou nenhum uso para Deus.
VIVER COM SIMPLICIDADE – págs 93 e 94
O discípulo de um rabi podia
renunciar a muitos benefícios materiais
para estudar a Torah, mas sabia que seria
por tempo limitado. Seria recompensado financeiramente por sua diligência
quando por sua vez assumisse o papel de mestre. Com Jesus era inteiramente diferente.
Ele pôs de lado toda segurança mundanda e conforto material. Muitas vezes não
tinha onde repousar a cabeça. Chamou seus discípulos também a uma vida de
humildade e pobreza. Embora fosse do bom prazer do Pai dar-lhes o Reino, deviam
vender seus bens e dar em caridade. Jesus lhes disse: “Não levem ouro nem prata, nem
cobre em seus cintos, nenhum saco em vossas viagens, nem duas túnicas, nem
sandálias, sem cajado;pois o operário merece o seu alimento” (Mt 10,9-10).
Como seu Mestre, deviam estar dispostos a deixar suas casas, suas famílias,
suas ocupações e sua segurança pelo Reino de Deus. Mas ao fazerem o Reino sua
meta mais elevada, tudo aquilo de que
precisavam lhes seria provido.
Convém salientar que discipulado tão
radical aplicava-se primariamente àqueles que eram chamados a uma vida de plena
comunidade com ele. Outros discípulos que não eram atraídos a uma comunidade
tão íntima, pareciam ter guardado alguma coisa de seus bens materiais, e ajudavam a prover a Jesus e aos
Doze. Não obstante, os discípulos do
Novo Testamento eram encorajados a viver uma vida simples em que tinham seus
bens “em comum” (At 4,32).
A relativa riqueza de muitos cristãos de
hoje, especialmente no Ocidente , é quase certamente uma pedra de tropeço ao
discipulado efetivo. É improvável que Deus nos confie as verdadeiras riquezas espirituais enquanto não ver que
estamos genuinamente servindo a ele e
não ao dinheiro. É quando podemos aprender a viver no princípio do
contentamento (1Tm 6,6-10) do Novo Testamento que Deus nos confiará os dons de seu Espírito que
enriquecerão nossas próprias vidas bem como as daqueles a quem servimos.
CHAMADOS
A SOFRER –págs 94 a 96
Quando Jesus chamou seus discípulos a
segui-lo, tinham que estar dispostos a seguir o caminho da cruz. Se deviam
partilhar suas vidas uns com os outros, precisavam partilhar a dor e a alegria.
“Pois foi-vos concedido não apenas crer
em Cristo mas também sofrer por ele.” (Fl 1,29)
Jesus tentou prepará-los para isto falando
claramente sobre seus próprios sofrimentos e os que seus seguidores teriam de
suportar. Mas não podiam, ou não
queriam, compreender essas advertências. Lemos em Mateus 16 que “daquele momento em diante Jesus começou a
mostrar a seus discípulos que ele devia ir a
Jerusalém e sofrer muitas coisas da parte dos anciãos e sumos sacerdotes
e escribas, e ser morto...” Pedro
imediatamente protestou: “Que Deus não
permita isto, Senhor! Não, Senhor, isto nunca lhe acontecerá.” Isto lhe
valeu uma repreensão pungente: “Afasta-te , Satanás! És para mim uma pedra
de escândalo! Tu pensas como os homens e não como Deus.” E no caso de os discípulos manterem quaisquer
outras ilusões, Jesus começou falar claramente sobre os sofrimentos deles
também. “Se alguém quer vir após mim, que
se segue a si mesmo, tome sua cruz e
siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida perdê-la-á, e quem perder sua vida
por minha causa encontra´-la-á...”. A vida para o Senhor terminou com
rejeição, dor e morte dolorosíssima. O discípulo nunca deve surpreender-se
seguir Jesus o levar pelo mesmo caminho.
SOFRIMENTO FÍSICO – págs 94
e 95
Muitos sofreram perseguição
física. Pedro e João foram presos e espancados por sua ousadia; Estevão foi
apedrejado até morrer; Tiago foi morto a espada. Pouco tempo depois, “uma grande perseguição levantou-se contra a
igreja em Jerusalém ,e todos foram dispersados”. (At 8,1). Mais tarde, São
Paulo escreveu que fora açoitado cinco vezes com 39 golpes do açoite judaico, três
vezes com varas, e também fora apedrejado. A maioria dos apóstolos sofreu o
martírio de uma forma ou de outra. Durante aqueles primeiros anos de Igreja, pavorosa
perseguição veio de uma série de imperadores romanos: Nero, Domiciano, Trajano,
Plínio, Marco Aurélio, Décio, Dioclesiano. Com vários graus de ferocidade essa
perseguição continuou através da Igreja cristã. Em anos recentes, e mesmo hoje,
milhares de cristãos em todo o mundo têm
sido aprisionados e torturados por sua fé. Estima-se que houve mais martírios
por Jesus no século passado do que no resto da história da Igreja.
Nada disso é surpresa. Jesus advertiu seus
discípulos quanto aos perigos físicos que estavam à sua frente: “Acautelai-vos dos homens; pois vos
entregarão aos conselhos e vos flagelarão em suas sinagogas, e sereis
arrastados diante de governadores e reis por minha causa... Irmão entregará
irmão à morte, e o pai entregará seu filho, e filhos se levantarão contra pais
e os matarão; e sereis odiados por todos por minha causa...” (Mt
10,17.21-22).
DOR MORAL E EMOCIONAL – págs
95 e 96
Não nos é difícil sentir algo da tristeza
de São Paulo quando escreveu: “Dimas, por
amor a este mundo, abandonou-me... Crescêncio foi para a Galácia, Tito para a
Dalmácia.... Alexandre , o ferreiro, fez-me grande mal....” (2Tm 4,10.14) Também nos ferimos e nos
sentimos desapontados uns com os outros
pois somos, no melhor, uma comunidade de pecadores. Frequentemente precisamos
perdoar e ser perdoados, e o perdão é sempre doloroso. Ele custou a Jesus
sua morte na cruz. Para nós, também,
poderá ser uma experiência de cruz perdoar alguém que nos feriu muito.
DOR ESPIRITUAL –p.96
São Paulo uma vez escreveu sobre o
esmagador fardo que sentia por seus irmãos judeus que não criam em Jesus como
seu Messias: “Sinto grande pesar, incessante amargura no coração. Porque eu mesmo
desejaria ser reprovado,separado de Cristo, por amor dos meus irmãos, que são
do mesmo sangue que eu, segundo a carne.” (Rm 9,2-3) E durante seu ministério em Éfeso
disse que “por três anos cessei, noite e dia, de admoestar,
com lágrimas, a cada um de vós.” (At 20,31). Deus, em sua grande
compaixão, “estende suas mãos todo dia a um povo rebelde”. Tendo-nos feito à
sua imagem, ele anseia por que partilhemos de seu amor. Pois que o amor nunca
se forçará a pessoas que não o desejem, Deus nos vê afastar-nos dele e uns dos
outros; ele nos vê ressentindo-nos, odiando-nos, matando-nos uns aos outros. Enviou
seu Filho para trazer paz à Terra, mas porque não queremos que ele reine sobre
nós, a desconfiança, a confusão, a
amargura e a guerra poluem a face da terra.
Será surpresa que um Deus amoroso esteja
sentindo? Quando Jesus chora por seu corpo, a igreja dividida, ferida,
quebrada, não nos comoveremos? Quando Jesus chora, como uma vez o fez diante do
túmulo de Lázaro, ao ver os estragos causados hoje pelo pecado do homem,
ficaremos apáticos? Quanto mais amarmos Jesus, quanto mais próximos estivermos
de seu grande coração de amor, tanto menos nos surpreenderemos de sentir a sua
dor.
O sofrimento está inevitavelmente
entretecido no discipulado, finamente entrecruzando-se com a alegria. Mas é no
sofrimento que Deus trabalha mais profundamente em nossas vidas. Aqueles que
têm maior sensibilidade e profundidade espiritual têm experimentado maiores
sofrimentos.
quarta-feira, 4 de março de 2015
SER HUMANO UM SER SÓCIO CULTURAL
Sociedade e Cultura –
Apostila de Sociologia
Texto - Ser
humano um ser sócio – cultural:
O que significa isso,
sócio-cultural? E qual a importância da cultura?
Quando falamos que o ser humano é um ser
sócio-cultural na realidade estamos chamando atenção para o fato de que o ser
humano precisa estar dentro de uma sociedade e necessita pertencer a uma
determinada cultura. Sócio porque o ser humano, o indivíduo depende dos outros
para viver e precisa viver em sociedade para sua própria sobrevivência, por isso precisa fazer parte
de um certo grupo social ; por exemplo: a família é considerada o primeiro
grupo social (grupo social primário), ao nascer o indivíduo já está automaticamente
inserido dentro de um grupo que faz parte da sociedade. Mas o que é sociedade?
Vejamos algumas definições de sociedade:
Sociedade
“Sociedade é um conceito fundamental em sociologia porque é nesse nível
que são criados e organizados os elementos mais importantes da vida social.
Virtualmente , todos os sistemas sociais de que participamos – da família e
religião às ocupações e aos esportes – são, de certa maneira, subsistemas de
uma sociedade que define seu caráter básico.”[1]
“Para Fichter, a sociedade é uma “estrutura formada pelos grupos principais,
ligados entre si, considerados como uma unidade e participando todos de uma
cultura comum”.[2]
Então, essa sociedade está definida
geograficamente num determinado espaço, ou seja, num território que representa
uma nação e que forma um Estado[3]. E
essa nação tem uma cultura, fala uma língua, tem seus hábitos , suas regras
sociais e sua história. Assim, se nascemos no Brasil, somos brasileiros, isso
significa que estamos vivendo no Brasil e estamos sendo socializados dentro da cultura brasileira.
Por isso, o ser humano é um ser sócio cultural, o indivíduo ao nascer já está
dentro de um grupo social, a família , considerada um “subsistema” da
sociedade, ou seja, já nasce dentro da sociedade, mas esta sociedade tem sua
cultura e é através da vida em sociedade e da socialização que o indivíduo vai
cada vez mais assimilando a sua cultura.
Cultural, porque o ser humano ou o indivíduo ao nascer, além de já estar
inserido dentro de um grupo social que é a família, ele automaticamente também
está dentro de uma sociedade , que tem como representação política um Estado e
que fisicamente está sobre um território que fala uma determinada língua e que
tem certos costumes, ou seja uma nação.
Essa nação tem uma cultura, fala uma língua, tem sua história , seus
costumes e regras. Vejamos, se nascemos no Brasil, somos brasileiros, isso
significa que estamos dentro da cultura brasileira e que aqui aprendemos a
falar, ler e escrever na língua portuguesa, que a língua oficial de nosso país.
Lembrando que para vivermos em sociedade somos obrigados a entrar em contato
com vários grupos sociais.
Qual a importância da cultura? É através
da cultura que vamos nos completando e aprimorando uma característica única do
ser humano que é a linguagem
principalmente a verbal.
A medida em que aprendemos a falar, vamos
assimilando a língua de nosso país e ao mesmo tempo vamos sendo socializados. É
importante chamar atenção para o processo de socialização e também para a
aprendizagem da língua, que faz parte da socialização, pois através dele
começamos a educação e a transmissão de valores , costumes e regras de uma geração para outra. Gilberto
Freyre chama atenção para o seguinte: “É
pelo grupo que a cultura se comunica ao indivíduo e pela vida em grupo que o
indivíduo passa de indivíduo biológico a indivíduo social”. Portanto,
podemos dizer que a cultura é transmitida através da socialização, e que a
socialização é fundamental para fazermos
a passagem do natural/biológico para o cultural. Emille Durkheim,
sociólogo francês do século XIX argumentava que a cultura já estava lá antes do
indivíduo nascer e continuará mesmo depois de sua morte, quer dizer, a língua portuguesa , os costumes, as
tradições, as regras já existiam antes do indivíduo continuaram a existir depois
dele morrer. Por isso ele afirmava: os
indivíduos passam, mas a sociedade permanece.
“A pessoa social ou humana, ou simplesmente pessoa, é resultado de
processos sociais e de cultura anteriores ao aparecimento do indivíduo e
sobreviventes ao seu desenvolvimento individual ou puramente físico-químico e
biológico no espaço e no tempo. O indivíduo nasce dono do que os biólogos
chamam a “base orgânica” para necessária
para desenvolver –se em pessoa ou em pessoas sociais: senhor de órgãos e sentidos que estabelecerão o contato entre o
que é nele verdadeiramente hereditário, natural e individual e a vida social e
a cultura. Mas aquele desenvolvimento se opera em grande parte, através da
organização social e da cultura dentro das quais o indivíduo se torne socius ou
pessoa. Organização de que ele depende, antes mesmo de nascer, e que vai
depender dele, mesmo depois dele morrer.”[4]
A citação acima entre
aspas serve para reforçar o que foi dito por Durkheim, “os indivíduos passam, a sociedade permanece”, e para mostrar que todo ser humano já nasce
com o “equipamento biológico” mas é com o passar do tempo que ele vai tornar-se
socius ou pessoa, e isso só ocorre a medida em que ele vai sendo socializado
em determinada sociedade que tenha uma
certa cultura. Como isso ocorre? Através da linguagem (principalmente da
língua).
Eis a questão: O que é
natural/biológico e o que é cultural?
Vejamos o que Gilberto Freyre fala sobre
esta questão:
“O
indivíduo nasce dono do que os biólogos chamam a “base orgânica” necessária
para desenvolver-se em pessoa ou em pessoas sociais: senhor de órgãos e
sentidos que estabelecerão o contato entre o que ele é nele verdadeiramente
hereditário, natural e individual e a vida social e a cultura. Mas aquele
desenvolvimento se opera em grande parte, através da organização social e da
cultura dentro das quais os indivíduos se torne socius ou pessoa. Organização
de que ele depende, antes mesmo de nascer, e que vai depender dele, mesmo
depois dele morrer”.
Podemos entender como “base orgânica” ou
“equipamento biológico” o corpo humano, com suas células, seus órgãos e os
sentidos; ou seja, aquilo que todo ser vivo e ser humano tem. Quando falamos que todo ser humano já nasce com o “equipamento biológico”
estamos nos referindo ao corpo humano e os sentidos, mas só com o tempo vai tornar-se “um ser social”, isso ocorre a medida em que ele vai sendo
socializado em determinada sociedade com uma dada cultura que têm uma
determinada língua e certos costumes. Dito de outra maneira, só com o
tempo e através do processo de
socialização que o indivíduo vai se tornando pessoa social, e isso só ocorre
através da interação deste indivíduo com os grupos sociais, no caso, o primeiro
a família e continua vida a fora a medida que o individuo vai entrando em
outros grupos sociais e assimilando suas normas. Não é por menos que Gilberto
Freyre afirma “É pelo grupo que a cultura
se comunica ao indivíduo e pela vida em grupo que o indivíduo passa de
indivíduo biológico a indivíduo social”
*”base orgânica”, “equipamento
biológico” = corpo humano/ células – órgãos – os sentidos.
*Só com o tempo e através do
processo de socialização (quando o indivíduo através de seu grupo social que
vive dentro de uma sociedade, com determinada cultura vai sendo socializado).
Voltando a questão acima , natural
/biológico é importante chamar atenção que este refere-se ao que todo ser
humano tem de igual, ou seja, todos nós nascemos com corpo, temos células e
órgãos e os sentidos. Precisamos de ar ,
precisamos de comida, sentimos frio, sentimos calor neste ponto somos todos
animais e pertencemos ao Reino Animal. Cultural é aquilo que é criado e
transformado pelo homem, formigas não tem cultura, agem por instinto; já o ser
humano não. A cultura de uma dada sociedade é que também vai orientar seu
comportamento, sua vida em grupo; por exemplo: japoneses comem de palitinho,
nós , brasileiros comemos com talhares. E o próprio ato de aprender a comer com
talhares ou de palitinhos já mostra a importância da socialização para o ser
humano. Deste ponto de vista podemos dizer que há uma igualdade, afinal todos
nós sentimos frio, calor... e precisamos de afeto, essa condição é de igualdade
entre todos os seres humanos.
O que nos diferencia dos demais animais é
justamente a capacidade de dar significado as coisas, de falar, de usar a
linguagem de várias formas. É através da cultura que nos tornamos de fato seres
humanos, pois o que diferencia o ser humano é a sua capacidade de dar isso
ocorre através principalmente através da fala (linguagem verbal), ao
aprendermos nossa língua e ao assimilarmos nossos costumes e valores estamos
entrando também em nossa cultura e vivendo intensamente o processo de socialização.
Obs: Como há inúmeras
definições para cultura, vamos buscar entender cultura como sendo a capacidade
que o ser humano tem de dar significado às coisas, aos sentimentos e aos
acontecimentos.
Obs: Ao estudarmos Sociologia
começamos a ficar mais atentos às palavras. Ou seja, estamos trabalhando com
conceitos, o que significa dizer, que uma palavra pode ter vários significados.
Por exemplo: quando falamos de igualdade, é interessante perguntarmos : De que
igualdade estamos falando? Igualdade racial? Igualdade de gênero? Igualdade
econômica?
[1]
Fonte- livro Sociologia – Educação e conhecimento integrados 1, capítulo 7 –
Indivíduo e sociedade: sociabilidade e socialização, p.55. Retirado de JOHNSON,
Allan G. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
[2]
Fonte- livro Sociologia – Educação e conhecimento integrados 1, capítulo 7 –
Indivíduo e sociedade: sociabilidade e socialização, p.55
[3]
Importante : aqui é interessante termos algum conhecimento sobre a formação dos
Estados Nacionais.
[4]
Desculpas, mas não sei de onde tirei essa citação, acho que de Gilberto Freyre
terça-feira, 3 de março de 2015
Estética: Arte e Vida Cotidiana
Livro Ética e Cidadania –
Caminhos da Filosofia – 20ª Edição
Sílvio Gallo (Coord.) – Grupo
de Estudos sobre Ensino de Filosofia
Unidade 9
Estética: Arte e Vida Cotidiana – p83 a 94
Jorge e Amanda estudavam
juntos: cursavam a 3ª série do ensino médio numa escola pública, pois ambos
trabalhavam. Ele, num banco; ela era vendedora numa loja de roupas. Sempre que
podiam, juntavam uma turma após as aulas e, equipados com algumas latas de tinta
spray , saíam loucos para encontrar
um muro branquinho , onde pudessem fazer uma bela pichação. No começo, a coisa
começou meio na brincadeira: era gostoso
sentir aquele medo de ser pego enquanto expressavam o que queriam.... Mas, com
o tempo, a brincadeira foi ficando cada vez mais séria. As pichações ficaram
cada vez mais elaboradas, com desenhos complexos e coloridos. Quando
terminavam, ficavam admirando sua obra....
Mas, em momento algum, imaginavam que nada mais estavam fazendo do que
expressar um dos sentimentos mais humanos: o gosto pela beleza e a vontade de
criá-la com as próprias mãos.
Nos dias de hoje, a palavra estética é
usada em vários sentidos; todos eles, porém, partem do conceito original usado
pelos gregos antigos, ou seja, designar aquilo que tenha a ver com os
sentimentos, com os sentidos, com a percepção. Assim, a estética também está
ligada à atividade artística, já que se preocupa com as obras que o ser humano
faz com a finalidade de serem belas, e com os sentimentos que elas provocam em
nós. Em termos gerais, podemos dizer que a estética é a área da filosofia que
estuda a arte e suas relações com o ser humano.
A arte em nosso cotidiano
Frequentemente, ouvimos
dizer que arte é uma coisa inútil, ou vemos pessoas zombando de certas obras de
arte de características pouco comuns em nosso dia a dia. Isso se dá porque elas
não conseguem entender o que a obra significa, ou qual a “mensagem” que o
artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser humano, ou
qual a “mensagem” que o artista quis passar. É preciso deixar claro que o ser
humano, pelas suas características biopsicossociais (o seu corpo, a sua razão e
a sua convivência com outras pessoas), tem a tendência de se manifestar no
mundo de maneira estética, procurando estabelecer em sua vida uma relação de
beleza com tudo que o cerca. Essa manifestação, em alguns casos, tende a ser
muito pessoal, pois o artista irá colocar sua impressão a respeito de um fato
social ou da natureza retratando-o na obra.
O artista pode determinar funções para sua
obra. Alguma delas são:
Políticas:
A obra toma uma posição
crítica a respeito de um fato ou problema social, denunciando uma injustiça,
propondo uma ideologia política, ou simplesmente retratando a realidade de uma
sociedade.
Religiosas:
Servem às necessidades
místicas das pessoas, para afirmar determinada proposta religiosa, fazem parte
do próprio culto em alguns casos, tal como as imagens sagradas da religião
católica.
Pedagógicas:
Têm uma função social de
colaborar na educação das pessoas, levando-as a compreender o mundo por meio
dos objetos artísticos.
Naturalistas:
A obra tem a finalidade
exclusiva de retratar a realidade; por exemplo: a fotografia 3X4 que você tem
no RG
Formalistas:
Se preocupam exclusivamente
com a técnica usada naquele tipo de arte.
Por meio da técnica, o artista faz uso de
conceitos práticos para “construir” sua obra de arte – o pinto mistura tintas
para conseguir uma tonalidade mais clara ou mais escura e que dará mais força a
seu trabalho.
Por meio do conhecimento, o artista faz
uso da experiência adquirida por si mesmo e pelos outros – o mesmo pintor sabe
que misturando as cores amarela e azul irá conseguir a cor verde.
Por meio da expressão, o artista faz uso
da sua sensibilidade, de sua intuição e de sua imaginação para dar a sua obra
um caráter único, fazendo do objeto algo cheio de sentidos, sentidos que irão
tocar a todos que o virem – assim, o pintor irá retratar em sua obra o produto
de sua criatividade pessoal, que comunique aos outros seus sentimentos e
impressões a respeito de um fato qualquer, seja um fato social, seja um fato da
natureza, seja mesmo um fato da sua imaginação.
Arte: Fundamento do mundo
Antes de qualquer
afirmação prematura, faz-se necessária uma interrogação: Por que é a arte o
fundamento do mundo, como o título propõe? Por que a literatura, a música, a
pintura, a escultura, que são manifestações artísticas, constituem a essência
do mundo? Não seria mais correto afirmar que a economia, a dimensão econômica,
seria o fundamento do mundo, já que todo dia e o dia inteiro usamos o dinheiro
na compra de roupas da moda , do lanche no bar, do presente para o (a) namorado
(a)? Vivemos no impassr e na torcida: Será que a inflação aumentará? Será que
teremos aumento salarial? Até quando estaremos empregados?
Ou não seria mais correto afirmar que a
política é o fundamento do mundo, já que nossas vidas
seguem o rumo das decisões tomadas pelos governantes? Vamos imaginar (a
imaginação é um meio de criação artística) a seguinte situação: o governo, para
acabar com o déficit público, decide elevar todos os impostos em
60%, por exemplo. Diante dessa situação, centenas de grandes empresas decidem
fechar suas fábricas aqui, pois o custo de produção seria muito elevado,
transferindo a produção para outro país. Consequência dessa medida: milhares de
desempregados. Quase que anualmente estamos votando para deputado, senador,
vereador, presidente, governador, prefeito, síndico, presidente de sindicato ou
centro comunitário. Vivemos na esperança
de que essas pessoas – que deveriam representar as nossas vontades – tomem
decisões que tornem nossas vidas melhores.
Mas, voltemos a nossa questão inicial e,
para tal, lembremos as palavras do filósofo alemão do final do século XIX ,
Friedrich Nietzsch: “A partir de agora, o domínio da ciência só se produz pela
arte. Trata-se de juízos de valor sobre o saber e o saber muito. Tarefa imensa
e dignidade arte nesta tarefa! Ela deve recriar tudo e recolocar sozinha a vida
no mundo”.
Vivemos,
seguramente, graças ao caráter superficial do nosso intelecto, numa ilusão
perpétua: temos então, para viver, necessidade da arte a cada instante. A nossa
visão prende-nos às formas. Mas se somos nós próprios quem, gradualmente, educa
essa visão, vemos também reinar em nós uma força de artista. Mesmo na natureza
se encontram mecanismos contrários ao saber absoluto: o filósofo reconhece a
linguagem da natureza e diz: “Temos necessidade da arte” e “só precisamos de
uma parte do saber” (O livro do filósofo,
aforismos 39 a 51)
.
É a
arte o fundamento do mundo, pois todas as coisas existentes possuem forma, cor
, textura, peso, cheiro , e esses objetos são apreendidos pelos nossos sentidos
e pela nossa razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando
livre razão. Ao construir algo – qualquer coisa – o criador está dando livre
vazão ao seu imaginário, tornando reais seus desejos, suas fantasias e seus
sonhos.
O homem é um ser sociável, vive circunscrito
numa sociedade e convive com seus semelhantes. As coisas que criamos têm por
objetivo despertar no outro sensações de prazer ou dor; admiração ou repulsa;
aprovação ou desaprovação. Criamos coisas, sejam belas ou feias – não importa,
pois beleza e feiura são conceitos subjetivos - , para despertar sentimentos no
outro. Criamos coisas para tocar no mais íntimo dos sonhos e desejos. Criamos
coisas para serem aprovadas ou desaprovadas, amadas ou odiadas, não importa,
pois o que realmente interessa é que esses objetos toquem o fundo da alma das
pessoas. E é esse justamente o objetivo de toda obra de arte: despertar
sentimentos, sensações, tornar presentes sonhos e desejos que tanto escondemos
e reprimimos.
Quando olhamos uma pessoa que achamos
belíssima, olhamos e ficamos como que hipnotizados por tal beleza de formas e
contornos. Não conseguindo disfarçar o olhar, em nosso íntimo, desejos
perversos, românticos e eróticos de tocar, experimentar, possuir afloram com
intensidade vulcânica. Ou quando olhamos uma foto, em um jornal ou revista, de
uma senhora com avental, chinelos e lenço na cabeça. Ao olharmos tal foto,
somos transportados para um passado distante, para um período de nossa
infância. Essa fotografia nos faz recordar de um momento feliz, das
brincadeiras de rua, da bola, da corda, das paqueras de criança, da ausência de
relógio. Faz recordar a eternidade do passar dos dias, tal a intensidade com
que eram vividos; a liberdade e a
despreocupação com o futuro. Tal fotografia nos faz recordar da vida vivida a
cada instante, do paraíso vivido e perdido.
Imaginemos a seguinte situação: estamos
abarrotados de coisas a serem estudadas para o vestibular no fim do ano.
Estamos trancafiados e sufocados nesse cubículo que é a aprovação num
vestibular, a escolha de uma profissão,
e estamos uma pilha de nervos tal
o grau de responsabilidade, tais as cobranças e as preocupações que recaem em
nossas costas. De repente, uma música invade o quarto, passando pelas sólidas
paredes. Começando a ouvir a música, nossa atenção é desviada dos estudos.
Lutamos para retornar aos livros, mas não conseguimos fechar. A música
invadindo nosso ser, tomando conta dos nossos sentimentos, tornam aflorar
antigas paixões. A música torna presente amores vividos e perdidos, carinhos,
beijos, toques; lugares e momentos desfrutados a dois; uma época em que o outro
é o sentido da vida. E, nesse louco sentimento, entregamo-nos de corpo e alma
aos prazeres ou dores despertados pelas recordações. Nessa viagem pelo passado,
damo-nos conta de que lágrimas brotaram em nossos olhos, tal a intensidade de
tais lembranças e, nesse momento, o que importam os estudos, os vestibulares, a
faculdade , a profissão e o futuro?
No fenômeno artístico, percebemos a
verdadeira natureza da realidade; a arte é a condição de um princípio
ontológico do ser; é a chave que nos permite o acesso à essência do mundo; é o
caminho mais original e autêntico de compreensão da realidade.
A arte é o centro da vida, e é a partir
dela que deciframos o mundo. É somente com os olhos da arte que o homem
consegue apreender a sua essência, pois esta se manifesta sob a forma
artística.
A existência humana, o mundo e todas as
manifestações da vida são, fundamentalmente , fenômenos artísticos. É na arte
que temos a transfiguração de tudo o que existe, seja o belo, o sublime, seja o
horrível, a fealdade. É na arte que encontramos a essência do existente, pois
tudo que vemos e apreendemos é manifestação artística. A arte é a luz que nos permite conhecer a vida e o
mundo, pois tanto a vida como a existência são categorias estéticas. Nós, seres
humanos, somos manifestações artísticas; a vida é uma grande obra de arte; o
mundo é, essencialmente, arte.
Se é pela arte que conhecemos mundo e a
vida, podemos perguntar: Qual é o caminho que a arte adota para conhecer o
mundo? Qual é a categoria interpretativa da arte? A tal interrogação podemos
responder: a intuição. A arte exige a certeza imediata da intuição. As ideias
fundamentais e essenciais possuem a forma de iluminação intuitiva. Nesse
aspecto, a razão é situada num segundo plano, pois o conhecimento racional é
extremamente limitado se comparado com a intuição. A arte é apreendida pela
intuição e não pela razão.
A tragédia de Édipo
Os gregos antigos, ao inventarem o teatro,
criaram duas formas de representar a realidade nos palcos: a comédia, que
procurava representar a vida pela farsa e despertar risos na plateia; e a
tragédia que, ao contrário, trabalhava com o drama e procurava emocionar a
plateia, fazendo com que cada um se reconhecesse nos fatos representados. Para
eles, o teatro não era uma simples forma de diversão, mas um importante fator
de regulação da vida social, uma atividade que representava o cotidiano vivido
pelas pessoas e as ajudava a refletir sobre a vida.
O que entendemos por tragédia? A tragédia
está, fundamentalmente, em relação com a vida concreta, com nossa existência.
Na tragédia, temos a contínua erupção de momentos “aterrorizantes”, em que a
felicidade se dilui se tornando um nada, e de momentos “sublimes”, nos quais o
estado de felicidade é desfrutado. Na tragédia, temos a manifestação concreta
da nossa vida, pois vida é exatamente isto: uma gangorra que ora pende para a felicidade
e ora para a infelicidade; para a paz ou para a angústia. A contínua troca de
estados é a própria natureza da tragédia e da vida.
Para melhor ilustrar esse conceito de
tragédia, reproduziremos, de forma muito sintética, o enredo de uma tragédia
grega clássica escrita por Sófocles e intitulada Édipo-Rei.
Nessa peça de teatro, os acontecimentos se
passam em Tebas, cidade grega, cujo rei – Laio – e sua esposa e rainha –
Jocasta – aguardam o nascimento do futuro herdeiro do trono. Ávidos por
conhecer o futuro e prevenir-se de qualquer acontecimento inesperado, Laio e
Jocasta dirigem-se ao oráculo de Delfos para saber , do deus Apolo, o que o
futuro reservava a ele. Diante do inusitado questionamento, Apolo pronuncia a
seguinte sentença: “O teu filho matará o pai e desposará a mãe.” O filho do
rei, e herdeiro do trono, cometerá dois gravíssimos crimes: parricídio e
incesto. O herdeiro será criminoso e imoral.
Para impedir que a terrível profecia se
concretize, Laio e Jocasta decidem matar o próprio filho, assim que ele venha
ao mundo. Quando do nascimento da criança, cujo nome será Édipo, os reis
ordenam a um escravo que a leve para longe da cidade e a mate.
Com a consciência de que tal acontecimento
– a morte da criança – acabaria com qualquer possibilidade de confirmação da
previsão do oráculo, Laio e Jocasta retornam à tranquilidade de espírito.
Porém, o escravo incumbido de liquidar Édipo acaba por criar um vínculo amoroso
com ele e, com pena de matá-lo, entrega-o a um viajante, que o leva para uma
cidade longínqua – Corinto – onde é adotado pelos reis.
Édipo, sem saber que era filho adotivo,
cresce em Corinto amando seus supostos pais e sendo preparado para ocupar o
trono real. Diante do que lhe guardava o futuro, Édipo deseja conhecer o
amanhã, e se dirige para o oráculo de Delfos. Lá, ouve do deus Apolo a mesma
sentença: “Matarás te pai e te casarás
com tua mãe.” Aterrorizado com tal futuro, Édipo foge de Corinto, foge do futuro, foge da possibilidade de
confirmação da sentença, pensando que lá residiam os seus verdadeiros pais, e
se dirige , fortuitamente, para Tebas.
No caminho que leva a Tebas, Édipo
encontra-se com uma expedição e, entre gozações e provocações, começa a lutar
com o chefe da expedição, acabando por matá-lo. Após tal fato, Édipo continua
sua caminhada para Tebas, sem saber que o homem que acabara de assassinar era
Laio, seu verdadeiro pai.
Ao chegar em Tebas, Édipo encontra a
cidade em destruição. Uma paisagem medonha de doenças, mortes, fome. A cidade
estava mergulhada em uma peste, e ela somente acabaria se o enigma proferido
pela Esfinge, um monstro que devorava todos os que davam uma resposta errada,
fosse solucionado. Diante da Esfinge e de seu enigma (“O que é que de manhã
possui quatro pernas, à tarde duas e à noite três?”), Édipo o soluciona (o ser
humano), e a Esfinge lança-se no abismo, libertando a cidade da maldição. Com
isso, a cidade volta a prosperar e , como prêmio, Édipo recebe a rainha – viúva
então – como esposa,tornando-se rei de Tebas. Édipo, sem saber, casa-se com a
própria mãe cometendo , assim, o incesto.
Tebas prospera; Édipo e Jocasta estão
felizes no casamento, quando uma nova peste assola a cidade, causando fome e
destruição. Ávido por descobrir o culpado por tal fato, Édipo recebe do cego
Tirésias, o sábio da cidade, a aterrorizante resposta: “És tu, Édipo, o culpado
pela peste, pois foi você que matou o próprio pai e casou-se com a mãe”. Diante
de tal descoberta, Jocasta suicida-se e Édipo perfura os próprios olhos e foge
de Tebas.
A tragédia e a representação da vida
Podemos
encontrar nessa obra alguns elementos da tragédia conforme o conceito que
definimos anteriormente. Por exemplo, o tênue fio que separa a felicidade da
infelicidade, a ordem do caos, a paz do conflito. A eterna luta entre a razão e
a paixão, entre o pensamento e o sentimento. E, finalmente, o conflito entre a
liberdade e o destino.
Durante toda a história de Édipo, encontramos o conflito
entre o desejo de ser livre e o destino que nos aprisiona. Laio e Jocasta
tentaram afirmar a própria liberdade ao confrontar o oráculo de Delfos. Ao
ordenar que o filho fosse morto, tentaram dar eles mesmo o rumo da vida,
afirmando a liberdade de escolha, os desejos e , de certa , construindo o
próprio futuro. Contudo, por mais que afirmassem os seus desejos e a liberdade
de escolha, o destino lhes pregava uma peça.
Na tragédia, o homem e seus desejos são
insignificantes se comparados com a complexidade do universo. Na tragédia, como
na vida real, o ser humano é um nada , é diluído e engolido pelo turbilhão da
existência. O que a peça mostra não é, em absoluto, que a vida já esteja
determinada, ela elucida e ilustra a pequenez que é a existência humana se
comparada com a complexidade da vida. O que torna, o ser humano diferente dos
outros animais, e por isso ele dominou a terra, é, justamente, a razão, a
capacidade de articular o conhecimento e expressá-lo em palavras. Contudo, não
é esse conhecimento que resolverá os problemas existenciais do homem, suas
angústias e seus desejos. Laio , Jocasta e Édipo tinham esse conhecimento,
sabiam do futuro, e nem com isso conseguiram ser felizes ou realizar seus
ideais. A vida é trágica e não temos como escapar disso.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Movimento contra a liberdade de imprensa
Matéria - Movimento contra a liberdade de imprensa
– Jornal O Globo 25.2.2015, opinião p.19
João Ricardo Moderno
O desprezo pela liberdade de imprensa e de
expressão cresce nos políticos radicais brasileiros; e , no Facebook,
valendo-se da liberdade da internet, militantes engrossam a voz contra a mídia.
O sonho totalitário é tornar a grande imprensa brasileira de timbre estatal,
buscando a “harmonia” ditatorial. Assim,
jamais teríamos reportagens estarrecedoras sobre a progressiva e interminável
cultura da corrupção, do furto aberto ao dinheiro público e a desavergonhada
sucessão de crimes, em uma escalada reconhecida por especialistas como talvez a
maior da história da humanidade
Contudo, nada parece abalar a convicção
que a preservação e a expansão política e demográfica do homo corruptus depende da destruição da liberdade. Em latim, corrumpere significa destruir. Assim,
corromper a liberdade é a garantia quase constitucional de expandir a corrupção
do dinheiro público. O mantra liberticida faz alusão ao “controle social da mídia” ou “regulamentação
da mídia” , eufemismo para a repressão. Controle social da mídia faz o
consumidor, que escolhe livremente seus veículos de comunicação. Os trabalhadores dos meios de comunicação de
massa são oriundos dos mais diversos estados da federação, das mais diferentes
origens sociais, econômicas , ideológicas, culturais e políticas.
A guerra de posição gramsciana contra a
liberdade de imprensa já começou por meios econômicos, políticos, psicossociais
e culturais. Quanto mais são divulgados, os malfeitos criminosos, maior o
movimento contra a imprensa livre. O “crime” da
mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o
Brasil. A chamada revolução bolivariana na América Latina tem especial objetivo
calar a liberdade para implantar uma imprensa subserviente, obediente,
corrupta, chapa-branca e autoritária. A liberdade de expressão é a pedra no
sapato dos totalitarismos. Por isso, todos os países do eixo-bolivariano formam
um bloco unido contra a crítica da imprensa.
A guerra contra a mídia atinge diretamente
a liberdade da arte, da cultura, da ciência, da religião, da economia, da
política, do esporte e demais atividades humanas. O fanatismo ideológico
associado ao furor da paixão pelo crime financeiro, o materialismo mais
hediondo da adoração ao bezerro de ouro e uma vontade patológica de poder se
associam para condenar os mais elevados valores e princípios do Estado
Democrático de Direito. É nosso dever, pois, defender a liberdade de imprensa e
de expressão de toda tentativa de repressão
autoritária, e de todas as agressões explícitas ou dissimuladas. Mais vale
corrigir alguns excessos inerentes à democracia que aprovar a exceção do fim da
liberdade no Brasil. Democracia é contradição.
Autor- João Ricardo Moderno é
presidente da Academia Brasileira de Filosofia.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Quem cala consente
Volta ao Mundo – Helena Celestino
Quem cala consente - Jornal O Globo 4ª feira 25.2.2015 - jornalista Helena Celestino
Anódino: adj 1. Que instiga dores . 2. Fig – pouco importante ou insignificante, SM 3. Medicamento anódino. Tonitruante – atroador, estrondoso
Quem cala consente - Jornal O Globo 4ª feira 25.2.2015 - jornalista Helena Celestino
Pressão é o nome do jogo. A Cruz Vermelha recebeu carta de ex-primeiros-ministros do Peru pedindo investigação sobre as denúncias de tortura de presos políticos na Venezuela. A União Europeia considerou um motivo de alarme a prisão do prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, e pediu atenção à suposta intimidação e maus-tratos de outros líderes da oposição. Dezenas de países da América do Sul e Europa emitiram notas duras contra a deriva autoritária do governo Nicolás Maduro. Como os brasileiros, argentinos , chilenos e uruguaios na década de 60 e 70 , venezuelanos de oposição recorrem à opinião pública internacional para denunciar a violação de direitos humanos em seu país.
A geração da presidente Dilma Rousseff e do secretário especial Marco Aurélio Garcia conhece esse roteiro. Décadas antes, eles estavam entre as vítimas da truculência da ditadura brasileira e receberam a solidariedade de países democráticos e ONGs internacionais, em campanhas internacionais ou negociações diplomáticas que cobravam respeito aos direitos humanos no Brasil. Faz muito tempo, mas a primeira lua política a gente não esquece. Só que não. Agora, no poder, a presidente escolhe uma cautela extrema e hesita em condenar o desrespeito às liberdades democráticas na Venezuela.
Em boca fechada não entra mosca, certo? A atitude não combina com pretensões do país em liderar o continente nem leva à conquista de prestígio na cena internacional. O Itamaraty só se pronunciou sobre a crise no vizinho porque foi surpreendido pelo anúncio do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, de que os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia se reuniriam para mediar o conflito político. Ontem, uma segunda nota foi divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, um texto de 12 linhas quase anódino*: sob o título “Situação na Venezuela”, expressa “grande preocupação” do governo brasileiro com o país vizinho e, sem se referir às prisões arbitrárias, informa que acompanha os acontecimentos junto com a comissão da Unasul. Meia verdade. Maduro ainda não aceitou a mediação do grupo, a comissão não tem data para se reunir e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, está em Londres e domingo vai à posse do novo presidente do Uruguai.
A Venezuela está entre as alianças estratégias partidárias e cabe ao assessor especial Marco Aurélio Garcia liderar a rede diplomática com o regime bolivariano. Os chefes da oposição ao governo Maduro – sabemos – não são idealistas lutando pela liberdade como foram os jovens brasileiros nos anos de chumbo. O prefeito encarcerado é acusado de ter participado do golpe contra Chávez em 2002. Nunca nada foi provado contra ele, mas Ledezma teria estado com os golpistas no Palácio Miraflores nos dois dias em que o presidente deposto esteve preso, tempo suficiente também para o novo governo ser reconhecido pelos EUA. Chávez voltou ao poder e lá ficou até a morte mas, desde então, a cada crise, invoca-se o fantasma da intervenção externa na política venezuelana. Maduro, no dia seguinte à prisão do prefeito de Caracas, apareceu vestido de bandeira da Venezuela, ao lado de generais e ministros, acusando Ledezma – duas vezes eleito prefeito de Caracas – de planejar a derrubada do regime. A prova mais contundente, citada por Maduro, seria sua assinatura no “chamado aos venezuelanos para um governo de transição”, documento em defesa de um pacto nacional contra a crise, com propostas banais para qualquer partido de oposição ao redor do mundo. “A direita em Madri, a extrema-direita em Bogotá e a ultradireita em Miami forjaram um eixo para conspirar contra nosso país”, disse Maduro na televisão.
Falta provar. Por enquanto a acusação foi rechaçada por organizações internacionais e governos de todos os países acusados. O regime do paranoico herdeiro de Chávez se esfacela, mas não por culpa de um “grande irmão”. As causas são as conhecidas: a derrubada dos preços do petróleo, mais anos de incompetência administrativa e corrupção que desarrumaram a economia, causaram desabastecimento e reduziram a qualidade de vida dos venezuelanos. As conquistas econômicas e sociais da população mais pobre – impulsionadas pelos programas sociais de Chávez – estão em perigo com uma inflação de 68% e desvalorização cambial de 70%.
A reação de Madura à crise é prender os suspeitos habituais, recorrendo a métodos cada vez mais violentos. Leopoldo López, preso há um ano por causa de protestos de rua, foi espancado na cela na véspera da detenção do prefeito de Caracas. Ao perguntar pelo mandato de prisão, Ledezma ouviu dos agentes do serviço secreto um palavrão e ficou desaparecido por várias horas até ser confirmada a sua detenção. A Anistia reportou dezenas de prisões arbitrárias e indícios de tortura: dissidentes seriam levados para a Tumba, uma prisão muitos metros abaixo do solo, onde reina um frio pavoroso e a música é tonitruante*. São denúncias de parentes e de advogados dos presos, a mesma rede que denunciou a tortura nos porões da ditadura. Dá para ficar calado? O velho e desgastado ditado popular vale como etiqueta para a postura do governo brasileiro: “Quem cala consente.”
Anódino: adj 1. Que instiga dores . 2. Fig – pouco importante ou insignificante, SM 3. Medicamento anódino. Tonitruante – atroador, estrondoso
Assinar:
Postagens (Atom)

