Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

Filhos de Gaia (gata desaparecida desde março de 2007)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Não julgue para não sereis julgado!

     O ato de julgar o outro é além de ser um subterfúgio para que não tenhamos que lidar com a nossas próprias inquietudes, é também uma das maiores portas para o erro. A dor de ser algo de julgamento alheio, nunca é maior do que o remorso em descobrir que fomos injustos com alguém. A fábula do escritor Mário Salvador, ilustra bem a passagem do Evangelho de São Mateus.

     Naqueles tempos, um caçador encontrou na floresta uma raposa morta e junto ao seu corpo estava seu filhote. Então, o caçador pegou o filhote e o levou para sua casa. Não tardou para que a vizinhança começasse o falatório:

A vizinhança:

- Este animal é bravio, é uma fera! Quando este filhote crescer poderá machucar e quem sabe até mesmo matar seu filho, o recém-nascido.

     O tempo foi passando e o caçador continuava cuidando daquele filhote, que ai final de um tempo acabou tornando-se uma forte e bela raposa adulta, não bravia como os vizinhos haviam falado há tempos atrás. Todavia, a vizinhança continuava cismada e não acreditava que uma raposa poderia ser dócil e sempre que tinha a oportunidade deixava o caçador de antena ligada, dizendo:

A vizinhança:

- Você pode não entender, mas este animal é uma fera! E ainda vai lhe causar dissabores.

     De manhã bem cedinho, quando o caçador chegou em casa, observou que sua raposa criada com tanto carinho estava com a boca cheia de sangue, e logo veio em sua memória o falatório da vizinhança:

O falatório da vizinhança na memória do caçador:

- Este animal é bravio, é uma fera! Quando este filhote crescer poderá machucar e quem sabe até mesmo matar seu filho!

- Você pode não entender, mas este animal é uma fera! E ainda vai lhe causar dissabores

     Ao ver a raposa com a boca toda ensanguentada, imediatamente logo veio em sua mente o falatório da vizinhança. Assustado o caçador não pensou duas vezes, tirou o machado de suas costas e matou a raposa. Morta a raposa, o caçador foi ver como estava seu filho, e qual não foi a sua surpresa ao perceber que seu filho dormia tranquilamente, mas no chão bem próximo a sua cama jazia um enorme corpo de cobra.

      Percebendo o engano ou a injustiça que cometeu, o caçador num gesto de arrependimento decidiu enterrar o corpo da raposa, que ele havia matado junto com o machado, objeto usado por ele para dar fim a vida da raposa.

 

1º Passo livre interpretação: Que mensagem traz o texto?

2º Passo interpretação do texto: O “falatório da vizinhança” descrito nesta fábula representa julgamento? E por que?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

PROJETO BÚSSOLA BIPOLAR - O CALEIDOSCÓPIO DA VIDA - Quando encaramos a vida como palco....

 

A vida é uma dádiva divina, só temos uma,  saber viver para nós humanos  é uma  tarefa mais complexa do que para um animal. Basta lembra-los que só nós seres humanos temos essa capacidade maravilhosa de refletir, de pensar sobre nós mesmos, sobre os outros e o entorno.  De voltar no tempo com o nosso pensamento. E não somos pré-determinados como os animais o são, Deus nos concedeu o livre-arbítrio para que ao longo de nossa caminhada saibamos distinguir o bem do mal, separar o joio do trigo. Sendo assim só nós podemos refletir sobre nossas próprias vidas e buscar o melhor enredo.

 

Há muitas maneiras de encarar a vida, e elas podem mudar ao longo da viagem e mesclarem-se.  Podemos imaginar a vida como um grande palco de teatro, onde somos levados a representar papéis; podemos olhar a sociedade em que vivemos e chegarmos a conclusão de que estamos vivendo numa selva ; há quem encare a vida como um jogo, em que ou se perde ou se ganha; tem também as pessoas que olham a vida como se fosse uma estrada. Com esse caleidoscópio de visões ou maneiras de encarar a vida , se você não tiver raiz profunda,  se você não conjugar com quem você é, ou quem você quer ser; quando passar por intempéries ou tiver que se reorientar na vida enfrentar a situação vai ser muito mais difícil. Sair do caos e encontrar seu próprio eixo pode levar uma eternidade. E quanto mais cedo começarmos a busca pelo nosso auto conhecimento melhor, assim, quanto mais cedo nos indagarmos : Quem sou eu?  Quem eu quero ser em termos de ser humano Melhor ! Mais tempo de vida teremos para nos conhecermos e quando tivermos que alinhar os imãs da nossa bússola interior, não sofreremos tanto.  Afinal de contas perder-se ao longo da vida é muito fácil, o difícil muitas vezes é reencontrar-se.

 

Socrátes já dizia que uma vida não refletida não merecia ser vivida e “conhece-te a ti mesmo”. E só podemos nos conhecer, mergulhando em nós mesmos, não se trata de egoísmo ou narcisismo, é uma questão de necessidade de sobrevivência, principalmente quando percebemos ou encaramos o mundo como uma selva, onde os mais fortes sobrevivem. E as múltiplas dimensões do ser humano precisam estar equilibradas para sobreviver: biologicamente, socialmente , psicologicamente e espiritualmente , podemos pensar na tríade: corpo, mente e alma. Quem nunca ouviu falar na frase “mente sã, corpo são”.  E temos que ter raízes bem profundas para não sermos levados pelas vozes da multidão que mais nos desorientam do que nos guiam. Esse processo de buscar o nosso centro , de mergulharmos em nós mesmos não é tão simples assim,  pois podemos não gostar do que iremos ver, teremos que nos enfrentar, admitir muitas vezes para nós mesmos que estamos errados, mas se formos humildes e não nos cobrarmos tanto, sairemos mais fortalecidos e podemos aos poucos ir realinhando os imãs e nossas raízes ficarão mais profundas.

 

A vida passa muito rápido, quando se vê dois  anos se foram,  e volta a cena o teatro das eleições municipais, dois anos depois o teatro agora toma conta do país, são as eleições presidenciais. É o teatro da disputa de poder. Quando vemos passaram-se vinte anos e aí olhamos o que aconteceu com a sociedade e com o mundo nesses vinte anos? Podemos ser meros espectadores ou podemos pensar em participar de alguma maneira nesse grande palco de teatro que é a vida em sociedade.  Em que todos interpretam papéis mas muitos nem mesmo sabem quem são, perderam suas raízes, deixaram-se levar por valores menos nobres e caíram no fingimento. Fingem para os outros o que não são, escondem-se através de máscaras, têm medo dos próprios sentimentos e não sabem lidar com as próprias emoções, são perdidos em si mesmos e muitas vezes possuídos por emoções destrutivas, como raiva e ódio e o sentimento de inveja. Certas cenas do palco político brasileiro nos dão exemplos de como nossos políticos são excelentes artistas, muitos venderam-se ao sistema e vivem uma vida de teatro, submissos a vontade do grupo que está no poder.

 

 

A vida é um jogo onde não se pode ganhar sempre e que temos que aprender a perder. Quem gosta de perder? Ninguém, a não ser que a derrota lhe traga alguma vantagem.  Quando as regras do jogo são claras e justas para ambos os lados, tal como nos jogos esportivos: futebol, baseibol, vôlei e muitos outros, temos uma competição e cooperação e o jogo é limpo. Duas equipes disputando um campeonato, ganha a competição a equipe que se destacou melhor, que soube se organizar melhor, que soube controlar-se melhor, aquela em que os membros se uniram, cada um por meio de sua função cooperou. Esse é o espírito que as olimpíadas buscam enaltecer a cada quatro anos. Mas nem sempre a competição é bem vista pela sociedade de maneira geral, pois competir também pode trazer à tona sentimentos de superioridade e inferioridade e com isso uma gama de emoções e sentimentos que podem gerar um caos interior tenso de lidar. Mais uma vez venho aqui levantar a bandeira do “conhece-te a ti mesmo”. Ao invés de competir ou comparar-se com o outro, é melhor olhar para si mesmo: o que eu sou por fora e por dentro. Os olhos da sociedade sempre nos enganam, as aparências geralmente nos iludem, portanto não compare-se com o outro, evite situações que podem ferir sua auto estima. Não se machuque por comparações inúteis e nem entre em competições, que são na realidade jogos psicológicos que vão te desequilibrar. “Conhece-te a ti mesmo”, fortaleça-se por dentro e surpreenda o adversário. E lembre-se que a vida é uma estrada em que não se basta conhecer bem o caminho , e que talvez conhecer-se seja um dos principais caminhos. Pois não se esqueça tudo que é material podem tirar de você, mas o que você é seu, suas experiências são suas ninguém as viveu por você, só você viveu e muitas vezes sobreviveu.

 

O filho cresceu e um dia do nada simplesmente avisa que está botando o pé na estrada. O que fazer? Como lidar com essa experiência? Vai amarra-lo no pé da cama , algemá-lo e passar-lhe um sermão? Talvez seja tarde demais ... Ele pode estar tão decidido que qualquer cena dramática de sua parte não o sensibilizará, ele decidiu, usou seu livre arbítrio, fez sua escolha. Ao pais neste momento tempestuoso só resta orar para que ele tenha escolhido o caminho do bem nesta longa da estrada da vida e que nada o desvie desse caminho. Até porque “botar o pé” na estrada não é uma decisão fácil de ser tomada é preciso ter coragem, é neste momento em que teremos que assumir um compromisso com nós mesmos, de ser responsável pela nossa própria vida, de assumir nossos erros e suportar as adversidades sem se fazer de coitadinho ou de vítima e principalmente assumir as consequências de nossas escolhas e decisões.  

 

A vida é feita de escolhas, tal como uma estrada em que muitos momentos nos depararmos com bifurcações, curvas perigosas, subidas , descidas, e longínquos retornos; além da sinalização quando tem ou quando conseguimos enxergar. Muitas têm acostamento outras nada, apenas um abismo em baixo. Há quem prefira viver a cem km por hora, como se viver em alta velocidade implicasse viver intensamente, cuidado, ao virar uma curva, o abismo pode estar logo atrás;  fez a escolha errada, cuidado o próximo retorno só a quilômetros e quilômetros de distância, não vai dar para consertar num pulo;  não deu atenção às placas, aos avisos de alerta, cuidado isso pode custar sua vida; vai fazer ultrapassagem, tá com pressa, faça ,mas faça com responsabilidade e assumindo todos os riscos. E todo cuidado é pouco quando se está na escuridão da estrada, o perigo pode estar logo adiante e nos pegar de surpresa.

 

Qualquer que seja a cor escolhida neste caleidoscópio cedo ou tarde vai perceber que sobreviver na selva é uma questão de vida ou morte; ou vai chegar no leito de morte e confessar que viveu uma vida de mentira, apenas representando e usando máscaras, mentindo para si mesmo o mesmo todo; ou vai despertar para a vida perceber que perdeu muito tempo competindo com os outros ao invés cooperar consigo mesmo,  e que perdeu muito tempo olhando para os outros ao invés de cuidar da própria vida e de suas potencialidades, de seus talentos. E por fim depois de quilômetros e quilômetros rodados pode perceber que pegou a estrada e que  não está preparado para o retorno.  Assim o princípio da caminhada já está dado desde do começo da filosofia com Sócrates : Conhece -te a ti mesmo; uma vida não refletida não merece ser vivida.”

 

 

 

      Essa viagem rumo ao auto conhecimento só depende de você. Há muitas maneiras de fazê-la , mas você não vai conseguir escapar de si mesmo. Afinal, refletir é preciso.  É preciso que você mergulhe em si mesmo, e tenha como inspiração a lição de Bob Marley: “Preocupe-se mais com a sua consciência do que com a sua reputação.”  E caminhe se perguntando: O que é mais importante para mim a essência ou a aparência?  E outras perguntinhas  como as baixo:

 

    

a)     Essência ou aparência: Eis a questão?

b)    Que interesses tenho?

c)     Que habilidades ou talentos tenho?

d)    Quais são os meus valores?

e)     Quais são os meus objetivos?

f)      Quais os meus maiores medos?

g)    Quais são minhas qualidades?

h)    Quais são meus defeitos?

 

     Pode respondê-las como quiser, o importante é refletir , pensar com carinho sobre cada uma delas e responder de acordo com a sua alma. Não minta para você mesmo. Por exemplo: eu vou confessar que meu maior medo é acabar louca dentro de um hospício público.  Quanto aos objetivos é natural que eles mudem ao longo da vida, ou que se tenha objetivos de curto, médio e longo prazos, coloque-os todos. Vale lembrar que essas perguntas podem ser feitas várias vezes ao longo de nossa caminhada e isso é natural, é saudável, quer dizer que estamos vivendo de maneira consciente, refletindo, não somos mais um na massa. E nem será uma viagem perdida.

 

Quando encaramos a vida como palco....

 Como muito bem nos ensina  Constantin Stalinislavski em seu livro "A Construção da Personagem":

"A única condição é não perder seu eu interior enquanto estiver fazendo essa pesquisa exterior. E agora, lhes digo o vamos fazer. Nossa próxima aula será uma mascarada." -pg 22.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"POR OLAVO DE CARVALHO - QUEM É FILÓSOFO E QUEM NÃO É"

 Já dizia meu amado Goethe...

"Não entrarás no paíz das idéas!".

Eu sou, no entanto conhecido na margem.

Quem não se gaba de conquistar as ilhas,

tem ao menos permissão de lançar ancora."

== Eu & Goethe , Goethe & Eu ==

Eu também me considero à margem.

Não me considero sábia nem filósofa.

Apenas amante do conhecimento.

Que tem consciência dos desafios para quem mergulha no mundo das ideias. 

Meu maior medo confesso é ficar apenas no mundo das ideias e perder o contato com o real. E enlouquecer... 

Mestre Olavo de Carvalho também já dizia que uma das condições para entrarmos na Filosofia é aceitar a realidade. É buscar a "unidade do conhecimento na unidade da consciência". É isto que venho tentando fazer, com toda minha humildade e ignorância.


Por Olavo de Carvalho – 7/5/2009

Diário do Comércio – 8 de maio de 2009

 Quem é filósofo e quem não é

Cobrar ensino público e qualidade não adianta. Melhor seria ajudar autoditadas.

 No afresco A Escola de Atenas, Rafael reúne estudiosos antigos, como se fossem amigos conversando. No detalhe, Platão e Aristóteles.

 À medida que se a consciência do debate total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

 Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se querem prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os auditadas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajuda-los era pôr ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe.

 Cheguei a conceber uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

 Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se  aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

 Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez , por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak, o Seminário de Filosofia Online  e outros projetos em andamento. E não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é de uma bibliografia filosófica essencial. Impossível.

 O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base da tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir, à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

 Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele -, a primeira coisa que fazia era analisa-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia melhor.

 A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.

 A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega ao domínio da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

 Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as ideias de um filósofo, e leva-las à prática fielmente, como se fossem nossas. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fosse papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa  “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

 Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

 Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

 Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

 1.Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dais quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente, os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você adquirir numa universidade brasileira.

 2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema via mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leio-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, contribuição original ao debate.

 É assim que se faz, é assim que se estuda filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.

 Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

 

Fonte:

http://www.dcomercio.com.br/ImpressaoMateria.aspx?materia=16855&canal=39

 Segue um breve resumo das partes que considerei mais relevantes.

 1)Método  do Pe Stanislavas Ladusâns quanto às estratégias de ataque a um novo problema filosófico:

 1º passo: a análise do problema precisa ser feita com “abstinência de crítica ou julgamentos”, ou seja, deve ser feita como se você fosse um discípulo fiel.

 2º passo: analisar em ordem cronológica o problema de acordo com o ponto de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto.

 3º passo: analisar em ordem cronológica (e crítica) o método usado pelo autor para tratar do problema.

 4º passo: fazer este exercício com pelo menos 2 dúzias de filósofos. E verificar os seguintes pontos:

 - quais são as principais dificuldades

- como aparecem suas contradições

- como eles lidam com as dificuldades e contradições em seu próprio pensamento

- por fim articular este autor com os elementos mais sólidos fornecidos pelos outros pensadores e verificar a solução que lhes pareça melhor.

 

2)Não esquecer de seguir a orientação de Aristóteles quanto ao Exame Dialético.

 1º passo: análise , o 1º, 2º e 3º  passos do método do Pe Stanislavas Ladusâns,  deve-se iniciar-se com pelo “recenseamento das “opiniões dos sábios”.

 2º passo: feita essa análise do recenseamento das opiniões do sábios” é importante articular todo esse material como se fosse uma teoria única.

 3º passo: levar em consideração que “Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores para compreender o  status quaestionies.”

 

3) Teoria Única – Em que sentido?

“Cada filósofo tem pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que as questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso. – status quaestionei – “estado em que a questão chegou a ele.” – Como ficou a questão, ou problema. Ou que: Quais foram as conclusões do autor.

 

 4) “A Filosofia é uma tradição  e a Filosofia é uma Técnica.”

Como você consegue absorver a tradição filosófica através da técnica?

Respostas:

1º passo:

Através do exame dialético proposto por Aristóteles e pelo método do Pe Stanislavas Ladusãns.

“Praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.”

 2º Passo:

Vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto.

 3º Passo:

Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito.

 Obs: Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo.

 4º Passo:

Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância.

 5º Passo:

Procurando sempre averiguar onde a discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão.

 6º Passo:

Feito tudo isso (os passos anteriores) monte tudo de novo em ordem lógica – como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas – (atenção , não em ordem histórica)

 “Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e confrontando-o com o legado da tradição , dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.”

 

 Meu Testemunho - Minha experiência na Filosofia. 

Ainda não fiz mas pretendo fazer, meu relato sobre esta longa viagem que começou há mais de uma década.

 

 

 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Refletindo sobre a minha personalidade

 

Exercício de descrição da personalidade

 

Para início de conversa o transtorno bipolar de humor faz parte da minha personalidade e para estabilizar o meu humor e manter meu equilíbrio tomo religiosamente à noite o carbonato de litium (lítio). Já tive um temperamento mais colérico, a vida e o nascimento do meu filho fizeram com que eu tivesse que mudar, amadurecer, me domar, conhecer-me mais. Mas acho que ele não deixou de ser colérico, pois ainda tenho explosões. E segundo minha  mãe tenho tendências autoritárias, kkk

 

Considero-me bastante reflexiva e introspectiva, ao mesmo tempo em que dependendo da situação sinto-me a vontade em público e extrovertida. Não tenho problemas em falar em público, gosto de transmitir o que sei , de lidar com meus alunos. Não me considero uma pessoa vaidosa, nem arrogante, considero-me como aquela a música do Gonzaguinha: Um Eteno Aprendiz. Aliás se eu pudesse não sairia da Terra Nunca, uma coisa sei que sou , responsável. Procuro assumir meus diferentes papéis, sempre levando em conta que outros dependem de mim, principalmente minha vidinha, meu amado filho. O único que consegue me domar.

 

Outra característica que tenho desde  garota é a sensibilidade. Agora aos 43 anos posso dizer com quase cem porcento de certeza que sou empata e sensitiva. Sempre senti a energia do ambiente, e das pessoas, acho que por isso prefiro andar sozinha que mal acompanhada. Sinto a vibe da pessoa logo de cara.... e minha intuição raramente falha.

 

A minha bipolaridade fez com que eu me tornasse cada vez mais introspectiva, de modo a buscar sempre me conhecer melhor , buscar lidar com as oscilações de humor e aprender a lidar com as minhas próprias emoções. Não é fácil, já que é sempre mais fácil apontar o dedo para o outro, e dizer que o outro deve melhorar. Julgar é fácil, difícil é encarar-se. É olhar-se com uma lente de aumento. Graças a Deus não sou perfeita, sou uma humilde mortal com defeitos e qualidades, mas atenta ao meu interior, buscando fortalece-lo, pois aprendi uma coisa na vida: podem tirar tudo, tudo nesta vida, menos quem eu sou, minha essência. E a introspecção é o caminho, pelo menos esse foi o caminho que encontrei.

 

Cabo Frio, 05 de setembro de 2020

terça-feira, 29 de setembro de 2020

ENCONTRANDO MEU LUGAR NA SOCIEDADE EM REDE

 

Fonte: Livro Revolução Gramscista no Ocidente – página 55

 

OPINIÃO PÚBLICA

 

     “O consenso é manifestado não só pela atitude  consciente de aprovação coletiva e pelo trabalho voluntário (militância), mas principalmente :

 

- pela opinião pública que se expressa nas pesquisas de opinião e nos meios de comunicação social.

- pelas demonstrações coletivas ostensivas levadas a efeito por manifestações públicas, passeatas e comícios.

 

     A opinião pública é uma disposição intelectual diferente do consenso, embora ambas tenham raízes no senso comum. É entendida como um modo generalizado de ver, pensar e julgar pessoas, atos  e fatos em um dado momento.  Diferentemente do consenso , é episódico, opinativo (pró e contra) e difuso (não organizado). Opinião pública é um dos aspectos do pensamento popular que deve ser disputado com a sociedade política e com o grupo dirigente. Num dado momento pode ser útil, necessária, favorável ou adversa.

 

     O consenso é, por excelência, a expressão objetiva da hegemonia nascente  ou já consolidada no âmbito da sociedade civil.”

 

 

Uma rápida análise do trecho  acima:

 

Todos nós sabemos que as diferentes redes sociais são espaços em disputa de hegemonia de pensamento. Buscar compreender , ainda que brevemente essa disputa, é uma questão de sobrevivência para a liberdade de expressão e de pensamento (condição básica dos regimes democráticos) e resistir ao pensamento hegemônico esquerdista.

 

Acredito que uma das missões da direita brasileira seria quebrar a constante busca do pensamento esquerdista pelo consenso, estimulando  a opinião pública. Em tempos de censura como o atual, não é uma tarefa fácil de ser realizada. Mas o que tudo indica o despertar da opinião pública nas redes sociais já começou , freia-lo vai ser difícil mesmo com as perseguições. Rezo para que continue desperto, do contrário cairemos novamente no sono profundo da hegemonia da esquerda.

 

O trecho acima pede uma análise mais profunda, todavia paro por aqui com a esperança de que por mais que esses políticos tentem nos censurar de todas as formas, continuemos de alguma forma usando as redes sociais como espaço vital de opinião pública. Sendo assim, deste espaço eu não abro mão.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CONFIA

 

                                                    CONFIA

 

“Muitas pessoas são egoístas, egocêntricas, ilógicas e insensatas.

Perdoe-as assim mesmo.

 

Se você é gentil, as pessoas podem acusa-lo de egoísta e interesseiro.

Seja gentil assim mesmo.

 

Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.

Seja franco assim mesmo.

 

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.

Construa assim mesmo.

 

Se você é feliz, as pessoas podem sentir inveja.

Seja feliz assim mesmo.

 

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso nunca será o bastante.

Dê o melhor assim mesmo.

 

Veja que no final das contas é entre você e Deus.

Nunca foi entre você e as outras pessoas.”

 

 

E POR MAIS DIFÍCIL QUE SEJA DIFÍCIL , APRENDA A NÃO GERAR EXPECTATIVAS. ISSO EVITA FRUSTRAÇÕES.

 CONFESSO QUE UMA DAS COISAS MAIS DIFÍCEIS É  PERDOAR,  QUANDO  A DOR EMOCIONAL  FOI LÁ BEM FUNDO NA ALMA.   LEVA TEMPO PARA CICATRIZAR. FÁCIL FALAR PARA ESQUECER,  NÃO OLHE PARA TRÁS,  MAS A FERIDA SÓ VAI ESTAR CICATRIZADA QUANDO VOCE  PUDER TOCÁ-LA E NÃO MAIS SENTIR NADA.   APENAS UMA LEMBRANÇA  E  AS LIÇÕES QUE TIROU DESTA EXPERIÊNCIA.

NADA MELHOR QUE O TEMPO E  DEUS.  É IMPORTANTE LEMBRAR QUE ANTES DO PERDÃO É  PRECISO QUE O OUTRO TENHA SE ARREPENDIDO DE VERDADE, COM TODO O CORAÇÃO.  COMO SOMOS CRIADOS A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS, TEMOS NOSSOS DEFEITOS, E  MUITOS NÓS  TÊM DIFILCUDADE DE PERDOAR, POREM  DEUS NOS PERDOA.



 

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

O REAL E A CAMINHADA

 

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA.

O REAL NÃO ESTÁ NEM NA CHEGADA

O REAL SE APRESENTA PRA GENTE

É NO MEIO DA CAMINHADA

 

JOÃO GUIMARÃES ROSA

(1908 – 1967)


Será que quando chegamos aos 40 estamos no meio da nossa caminhada? Se assim for, há 3 anos entrei no meio da caminhada,  e desde então o  real vem  dando  sinais, por  mais que eu seja uma bússola bipolar (desgovernada), chamada de  louca , maluca pelos  que se consideram normais em uma sociedade "super equilibrada",  continuarei no  meu caminho mesmo não sabendo qual será o real no fim da minha caminhada . "O futuro a  Deus pertence".