O que é revolução? – Cap 2 Revoluções Burguesas e Democrático-
Burguesas
1.Revoluções burguesas
As revoluções sociais que se realizaram
na passagem do feudalismo para o capitalismo chamam-se burguesas. Realizaram-se em tempos diferentes e
constituíram toda época histórica : séculos XVI – XIX. Esta foi a época da
queda do feudalismo e da afirmação da nova formação socioeconômica,
capitalista.
A história da sociedade feudal conheceu
uma série de movimentos que não se transformaram em revoluções sociais
vitoriosas.
Tais foram quase todas as sublevações e
guerras camponesas no período do desenvolvimento ascendente do feudalismo : na
Inglaterra, a revolta dos camponeses sob a direção de Wat Tyller (1381); França , o movimento dos camponeses que
recebeu o nome Jaqueira ; na Rússia, os
levantamentos camponeses sob a direção de Ivan Bolóntnikov (1606-1607) , de
Stepan Razine (1670-1671) , de Iemelian Pugatchov (1773-1775) e outros.
Todos estes movimentos camponeses eram
espontâneos, não organizados e por isso fracos. Não existia uma classe capaz de
conduzir os camponeses, tão-pouco existia um programa de luta consequente e
acabado. E o principal é que não tinha ainda chegado o tempo da substituição do
regime feudal pelo capitalista. Não obstante terem sido derrotadas, as
revoltas camponesas infligiram golpes consideráveis no feudalismo e agravaram a
sua crise.
Com o andar do tempo, o desenvolvimento
das forças produtivas entra em conflito com as relações de produção dominantes
da sociedade feudal e as instituições políticas e ideológicas por estas determinadas. Ao lado das pequenas oficinas
de artesãos aparecem grandes manufaturas, baseadas em ferramentas, mas com ampla aplicação da
divisão do trabalho e a utilização do trabalho de pessoas livre da servidão.
No seio da sociedade feudal forma-se o
novo modo de produção : capitalista. O seu desenvolvimento exige a supressão
das ordens feudais. A burguesia, classe portadora do novo modo de produção,
necessita do mercado do trabalho
“livre” , ou seja , de trabalhadores livres da servidão e da propriedade
e obrigados a vender sua força de trabalho.
Ela necessita do mercado nacional e da possibilidade de mandar
livremente em todas as esferas da vida social.
A expressão social fundamental dos
conflitos econômicos é o profundo antagonismo de classes e a luta entre a
burguesia e a classe dominante dos senhores feudais que tomava as formas cada
vez mais agudas. Criam-se situações
revolucionárias. Começa a época das
revoluções burguesas.
As primeiras revoluções burguesas
realizavam-se sob a direção da burguesia urbana que, num caso, levava a luta
até ao derrube decisivo dos senhores feudais e, noutro, obtinha a vitória em
resultado do compromisso com eles. Além
da burguesia , as forças motrizes dessas revoluções eram os camponeses e a
classe operária nascente. Devido ao
desenvolvimento histórico desigual, as revoluções burguesas ocorreram em épocas
diferentes o que, como será mostrado mais adiante, levou a mudanças sérias das
forças motrizes e da posição da própria burguesia.
O mérito histórico das revoluções burguesas
consiste em que abalaram, minaram e, na maioria dos casos , atiraram para o
monturo da história o regime feudal caduco. No sentido político, as
revoluções burguesas eram dirigidas contra a máquina estatal feudal e os
regimes monárquicos.
As revoluções burguesas assestaram um
golpe, nuns casos, decisivo, noutros, não muito consequente na servidão,
destruíram as relações que durante séculos ligavam as gerações camponesas
servas aos senhores feudais. Mas a
realização principal e objetiva das revoluções burguesas consiste em que
limparam o terreno para as relações econômicas capitalistas e criaram o poder
de Estado que defendia e consagrava estas relações. Considerando as revoluções
burguesas como tipo histórico de revolução social, é necessário salientar as
diferenças, às vezes profundas e essenciais, no desenvolvimento de uma ou outra
revolução burguesa. Por exemplo, na
Inglaterra, a revolução burguesa
terminou com o compromisso entre a burguesia e os senhores feudais, a
conservação do regime monárquico como forma de governo de Estado. Este
compromisso não impediu, antes contribuiu
para o desenvolvimento das relações capitalistas, sobretudo na
realização da política colonial.
Em França, o feudalismo foi varrido por
um assalto resoluto, os participantes nas ações revolucionárias ocuparam
posições sem compromisso em relação ao feudalismo e aos seus atributos
estatais. A revolução de 1879 chamam “grande” porque acabou com o regime
monárquico abominável e criou a aparência de participação das massas na direção
dos assuntos do Estado.
Na Rússia, a substituição das relações
feudais pelos capitalistas durou muito tempo, e as classes dominantes tentavam
adaptar as instituições feudais ao desenvolvimento do capitalismo através de
reformas. No entanto, nenhumas reformas podiam salvar a autocracia na Rússia e
esta foi varrida em Fevereiro de 1917 pela vigorosa Revolução popular.
As chamadas revoluções burguesas “de cúpula”
distinguem-se conforme o grau de participação das massas populares na
revolução. Pelo seu objetivo histórico, estas revoluções são burguesas porque
contribuem para o estabelecimento e fortalecimento das relações sociais
capitalistas, mas têm caráter histórico limitado pelas suas forças motrizes :
nelas participam, regral geral, estes ou a queles
grupos da burguesia ,e a participação das massas populares e das forças
progressistas da sociedade é insignificante.
As massas não podem colocar, nessas revoluções, as suas próprias tarefas
porque são afastadas da participação ativa no processo revolucionário. Estas
revoluções chamam-se “de cúpula” porque deixam invioláveis muitos aspectos
essenciais do velho regime.
Os golpes palacianos e conluios de
diversas espécies são ainda menos revolucionários. No entanto, em certos casos,
podem agitar e movimentar as massas. As consequências podem ser imprevistas
para os organizadores dos conluios e golpes palacianos.
É preciso ter em conta que a classe
dominante está dividida em diferentes grupos e camadas, cada um dos quais tem
os seus interesses especiais. Para satisfazer os seus interesses, estes grupos
procuram estabelecer o governo que represente diretamente estes interesses. É a
luta de classes interna que não ameaça o domínio das classes, a luta pela
redistribuição dos lucros no seio da própria classe exploradora e pela criação
das condições mais favoráveis para o enriquecimento de um ou outro grupo.
Muitos golpes de Estado são
simultaneamente militares porque os seus participantes atraem certos grupos de
oficiais do exército ligados por interesses comuns. O golpe de Estado pode ser
progressista ou reaccionário. Isto depende dos objetivos que colocam os
participantes do golpe. São conhecidos golpes de Estado realizados por
militares progressistas ou por militares ligados ao grupo da burguesia
interessada na conquista e consolidação
da independência nacional. Em determinadas condições, por exemplo, a ligação
com a forças democráticas, estes golpes podem significar o começo das reformas
democráticas. Recordemos o golpe de Estado no Egito em 1952, no Peru em 1968,
em Portugal em 1974. No entanto, em resultado destes golpes de Estado,
realizados por oficiais progressistas , a plenitude do poder não chegou a passar para o povo. Os
oficiais, representantes das camadas médias, foram inconsequentes nas
revoluções, mostraram-se vacilantes em virtude da sua posição dupla na
sociedade. Aproveitando-se destas
vacilações, a burguesia , regra geral, reduz a nada as conquistas das forças
progressistas obtidas nesses golpes de Estado.
A revolução burguesa adquire
características específicas nas colônias e países dependentes. A causa imediata
da revolução burguesa pode ser a opressão estrangeira ou a aspiração a unir o
país. Mas também nestes casos, o papel decisivo é desempenhado, geralmente,
pela necessidade premente de eliminar o regime feudal ou os seus restos. Com o desenvolvimento do capitalismo
agrava-se o conflito entre os interesses do desenvolvimento independente da
economia nacional e o domínio do capital estrangeiro. Este conflito engendra a
luta anti-imperialista que se entrelaça
com a luta antifeudal.
A revolução norte-americana de 1775-1783
teve um caráter original. Pelo seu conteúdo fundamental era uma guerra
revolucionária do povo americano contra os ingleses que oprimiam e mantinham na
es escravidão colonial os povos da América, a guerra pela independência, pela
libertação do jugo colonial. Mas, ao mesmo tempo, era a luta de classe dos
granjeiros, artesãos e burguesia revolucionária contra os aristocratas
latifundiários, a guerra dos partidários da república contra a monarquia. O resultado político imediato
desta revolução foi a unificação das antigas colônias britânicas e a formação
de uma nova república burguesia : os EUA.
Atualmente, a burguesia dos países capitalistas
é hostil às transformações revolucionárias e é contra-revolucionária por sua
essência. No entanto, a burguesia
tornou-se classe dominante em resultado da revolução, embora limitada pelo
caráter de classe. É preciso recordar que os EUA, hoje baluarte da reacção
mundial, obtiveram a independência política por intermédio da guerra de
libertação nacional.
É de notar que a
burguesia , que encabeçou as revoluções antifeudais dos séculos
XVII-XIX, não podia manter muito tempo
unidas em torno de si as grandes massas trabalhadoras, porque, numa etapa
determinada, os seus interesses entravam inevitavelmente em contradição
inconciliável com os interesses das massas.
Ao notar o caráter limitado das
revoluções burguesas, é preciso
reconhecer que, em última instância, a
realização consequente das tarefas da revolução burguesa é vantajosa ao
proletariado, porque devido ao crescimento e à concentração da produção se
criam condições favoráveis para a organização do proletariado e o aumento da
sua consciência de classe.
2. Revoluções democrático-burguesas
As revoluções burguesas
,em que as massas populares não só
participam ativamente mas apresentam as suas próprias reivindicações, imprimem
com a sua luta uma certa marca democrática em todo o processo de revolução e
influem nos seus resultados. Estas
revoluções chamam-se revoluções
democrático-burguesas. V.I. Lénine
considerava populares as revoluções burguesas em que “...a massa do povo, a sua maioria, “as
camadas inferiores” mais profundas da sociedade, esmagadas pelo jugo e pela
exploração, levantaram-se autonomamente e deixaram em todo o curso da revolução
a marca das suas reivindicações, das suas tentativas para construir à sua maneira uma
sociedade nova no lugar da antiga, em destruição”.
Entre as revoluções deste tipo figuram ,
a Grande Revolução Francesa de 1789-1793, a revolução de 1905-1907 e a
revolução democrático-burguesa de Fevereiro de 1917 na Rússia.
A burguesia procura sempre limitar o
mais possível a participação das massas populares na revolução burguesa. Se a iniciativa revolucionária dos trabalhadores
ultrapassa os limites dos objetivos da burguesia, esta não hesita em trair os
interesses da revolução, em esmagar pelas armas as massas exploradas. A
burguesia nunca foi classe
consequentemente revolucionária até o fim. Apoderando-se dos frutos da
revolução, ela procura a aliança com os senhores feudais e todas as forças
reaccionárias para reprimir as massas populares.
Com o desenvolvimento do capitalismo e a
formação do proletariado como classe, a burguesia perde cada vez mais o seu
espírito revolucionário. V. I.
Lénine assinalou “a tendência da burguesia para terminar a
revolução a meio caminho, na semiliberdade, na transação com o velho poder e os
latifundiários. Esta tendência radica nos interesses de classe da burguesia.”
A característica da revolução
democrático-burguesa seria incompleta e unilateral , se não tivéssemos em conta
a diferença essencial entre as possibilidades destas revoluções na época do
capitalismo pré-monopolista e depois da sua entrada na fase imperialistas
- capitalismo pré monopolista
-capitalismo na fase imperialista
O
imperialismo é a última fase do desenvolvimento do
capitalismo. O imperialismo chama-se capitalismo monopolista porque o seu traço
mais característico é o domínio dos monopólios (grandes associações
capitalistas) . No imperialismo, um pequeno número de monopólios concentra nas
suas mãos a produção e a venda dos produtos importantes, o que lhes permite
impor as suas condições , intensificar a exploração dos trabalhadores , etc.
No imperialismo, a produção atinge um grau
elevado de socialização. No entanto, a forma capitalista privada de apropriação
continua e mesma e entrava o desenvolvimento das forças produtivas. Por isso,
no imperialismo agravam-se extraordinariamente todas as contradições do
capitalismo e, em primeiro lugar, a contradição entre o trabalho e o capital.
Aumenta a opressão nacional dos povos, alarga-se o abismo entre os Estados
altamente desenvolvidos e a maioria de outros países do mundo capitalista.
Um traço específico do imperialismo é o
militarismo , no qual as despesas militares caem como fardo pesado sobre os
ombros dos trabalhadores. As guerras imperialistas decorrentes da essência do
imperialismo destroem as forças produtivas. Dezenas de milhões de vidas humanas
levaram as duas guerras mundiais desencadeadas pelos imperialistas, e é apenas uma parte do
tributo terrível que a humanidade paga ao imperialismo.
A ofensiva do imperialismo muda essencialmente
a distribuição das forças de classe na
sociedade. Na estrutura das forças motrizes da revolução
democrático-burguesa ocorrem mudanças essenciais.
Na época do imperialismo, nos países
capitalistas mais ou menos desenvolvidos, a burguesia tornou-se
contra-revolucionária, temendo o proletariado que ameaça o seu domínio.
O proletariado mais forte numérica e
ideologicamente, organizado num partido político independente, pode tornar-se a
força hegemônica, o dirigente da revolução.
A experiência da revolução popular de
1905-1907 na Rússia já mostrou que a
burguesia imperialista ocupa, na revolução democrático-burguesa, uma posição
contra-revolucionária. As forças motrizes da revolução democrático-burguesa são
o proletariado e o campesinato. A força hegemônica desta revolução é a classe
operária interessada na extirpação mais completa dos restos feudais.
A hegemonia do proletariado na revolução
democrático-burguesa da época do imperialismo cria a possibilidade para a sua
transformação em revolução socialista.
K. Marx e F. Engels, já nos anos 40 do
século passado, apresentaram a ideia de que, nos países onde demorou a
realização das transformações democráticas e as relações capitalistas já se
desenvolveram, é possível a passagem direta das transformações democráticas
para as socialistas através da revolução ininterrupta. Em 1848, Marx e Engels
admitiam a possibilidade da transformação da revolução democrático-burguesa na
Alemanha em socialista. Relacionavam a vitória da revolução socialista com o
apoio do “coro camponês”, sem o qual o
seu solo proletariado se converterá
inevitavelmente “no
canto do cisne”
A
transformação contínua da revolução democrático-burguesa em socialista torna-se
, na época do imperialismo , não só possível como necessária.
Baseando-se nas ideias dos fundadores do
socialismo-científico, V.I. Lénine criou a teoria íntegra sobre a transformação
da revolução democrático-burguesa em socialista e formulou os princípios da sua
aplicação prática na atividade da classe operária e da vanguarda revolucionária.
A conclusão feita por V.l. Lénine é a
seguinte: “...Da revolução democrática começamos a passar agora, e precisamente
na medida das nossas forças, das forças do proletariado consciente e
organizado, começamos a passar para a revolução socialista. Somos pela
revolução ininterrupta. Não ficaremos no
meio do caminho.”
Tendo analisado a distribuição das forças
de classe na Rússia, Lénine chegou à conclusão de que, na revolução
democrático-burguesa, o aliado da classe operária é todo o campesinato, e , na revolução
socialistas, a classe operária apoia-se nos camponeses pobres e luta pelo
derrubamento do capitalismo em aliança com as camadas semiproletárias da cidade
e do campo. A hegemonia do proletariado
une, liga as duas etapas da revolução. A transformação da revolução
democrático-burguesa em socialista reflete-se na superstrutura política: a ditadura democrática do proletariado e o
campesinato, estabelecida na primeira etapa da revolução, transforma-se em
ditadura socialista do proletariado
Em que se baseia a ideia de hegemonia do
proletariado na luta pela democracia e o socialismo, em que se baseia a
possibilidade de transformação da revolução democrático-burguesa em revolução
socialista?
Diferentemente da classe operária, os seus
aliados ocupam, no sistema de produção social, a situação que condiciona a sua
inconsequência e vacilações em muitos problemas da luta de classes. Só a
direção política do proletariado, o intérprete dos interesses vitais de todos
os trabalhadores, pode unir a massa dispersa das camadas não proletárias numa
verdadeira força política da revolução socialista, dar-lhe a certeza, o
espírito combativo e o caráter organizado.
No entanto, existe um outro aspecto que
constitui a única base possível para a
direção das massas camponesas pela classe operária.
As promessas da burguesia aos camponeses é
uma ilusão, de que eles se convenciam cada vez mais. A ajuda proletária é real
e palpável. Só com a ajuda do
proletariado, o campesinato recebeu, na maioria dos países, terra, paz e
liberdades democráticas. Esta ajuda constitui a base da aliança da classe
operária com os camponeses e outras camadas trabalhadoras sob a direção da
classe operária. É esta uma das condições importantes da transformação da revolução
democrático-burguesa em revolução socialista.


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